Direitos iguais

Já há algum tempo que tenho pensado na luta das feministas para conseguir direitos iguais entre homens e mulheres. A vitória foi imensa, mas hoje eu vejo que isso é pra lá de perfeito.

Pelo que li sobre a história da Dinamarca, o movimento do direito das mulheres ficou conhecido como movimento das meias vermelhas, porque as manifestantes vinham vestidas de meias dessa cor. E elas obtiveram sucesso e conseguiram o que queriam e hoje a situação é a seguinte:

– Homem não abre a porta para você mulher e não te deixa passar na frente. Ele simplesmente abre a porta, vai na frente e se você tiver sorte ele segura a porta por um instante.

– Homem não paga a conta. Muitas vezes é a mulher quem paga tudo.

– A idade de aposentadoria é a mesma tanto para homens quanto mulheres. No momento a idade é de 67 anos.

– Por muito tempo homens e mulheres se vestiam iguais, de calça e blusa de moleton. Somente nos últimos 15 anos é que as mulheres dinamarquesas começaram a se vestir de maneira mais feminina e algumas (mas poucas ainda) usam maquiagem e pintam as unhas.

– Salários iguais para homem e mulher exercendo a mesma funcão com a mesma carga horária. (Isso é só na lei, mas sabe-se que na realidade a coisa não funciona assim)

Considerando os pontos acima, eu não vejo nenhuma vantagem em ter direitos iguais. A pior de todas é a idade de se aposentar. Pelo menos no Brasil a mulher se aposenta mais cedo.

Como se tudo isso não fosse suficiente, essa semana o governo conseguiu vir com uma notícia ainda pior.

– A partir de 21 de dezembro não é mais permitido para seguradoras dar um preço mais barato para mulheres. Exemplo são os seguros de carro, onde normalmente é mais caro para homens, já que eles são campiões em fazer asneira no trânsito. Muito em breve as seguradoras ou terão que fazer um desconto para homens ou o preço para mulheres ficará tão caro quanto para os garotões. Adivinha qual será a opção?

Esse negócio de direitos iguais não está com nada. A meias vermelhas só pensaram no lado positivo da situação. Em breve terei que iniciar um movimento para recuperar os benefícios perdidos. Só não sei que cor de meia teremos que usar.

 

Trick or Treat

Tem gente que não tem noção das coisas. Sábado, 27 de outubro, toca nossa campainha. Carsten atende. Eram meninos vestidos de fantasma e monstros pedindo doces.

Ora bolas, sei que Halloween está se espalhando mundo afora, mas há regras.

  • Para início de conversa, Halloween é no dia 31 de outubro, não no dia 27.
  • Segundo, quem tem doce para dar, deixa a luz da frente da casa acesa (e a nossa estava apagada)
  • Terceiro, na Dinamarca existe carnaval em fevereiro, que eles chamam de Fastelavn, onde as crianças saem fantasiadas batendo de porta em porta pedindo por moedas para comprar doce. O que significa que não há motivo para fazer o mesmo no mês de outubro.

Perguntei para Carsten o que ele disse para as crianças. Resposta: Isso aqui não é Estados Unidos!

Meia hora mais tarde um novo grupo de crianças toca nossa campainha. Lá vai Carsten, agora de mau humor. A resposta dele dessa vez: Hoje não é Fastelavn!

Todo Fastelavn a gente se esconde dentro de casa, apaga todas as luzes, que é para não sermos importunado. Pelo visto, em outubro, nós teremos que fazer o mesmo. A única diferença: carnaval sempre tem uma data específica, e Halloween aqui, pelo visto, é quando der na telha dessa criançada. É capaz até de baterem na nossa porta novamente hoje, dia 28!

É a mãe

Eu não sou da época dos celulares. Comprei meu primeiro celular quando eu já tinha 25 anos. Mas a garotada hoje desde o maternal já andam pendurados num smartphone.

Pelo menos os filhos dos dinamarqueses são assim. Eu, da minha escrivaninha no trabalho, fico acompanhando as conversas das duas mães que sentam ao meu lado.

Uma delas fala com a filha todo santo dia antes de dar o horário da escola. Oi querida, vc já colocou sua roupa e está pronta para a escola? Não se esqueça que hoje vc tem natação. Tenha um bom dia na escola.

Todo santo dia quase a mesma conversa e essa menina já tem 10 anos de idade. Quando eu era pequena eu é que tinha que me virar e lembrar se hoje era dia de catequese, inglês, piano, balé, jazz, vôlei e as outras tantas mil atividades que eu fazia.

Já a outra mãe tem dois garotos entre 11 e 9 anos e a conversa é normalmente assim: Não, não é para jogar o joguinho do computador por mais de duas horas. Não, não é para vc ir não sei onde. Não, vc não pode colocar o pijama novo para ficar dentro de casa depois da escola.

A conversa com os meninos tem outra dimensão. Mas o que eu gosto dessa mãe é que ela é interessante. A outra, se a menina dela telefona, quando ela atende, ao invés de dizer alô, ela diz assim: oi querida.

Já a mãe dos dois meninos, quando um deles liga, ela atende o telefone assim: é a mãe.

Eu não sei como funciona no Brasil, mas imagino que dizer “é a mãe” inda é resposta para um xingamento, não é?

Trim-trim. É a mãe? A minha não. É a sua!

Férias

Eu sei que você leu férias e já está pensando que eu estou de férias novamente. Calma. Eu não estou de férias. Muito pelo contrário, estou ralando dobrado essa semana, porque o resto do povo todo está de férias.

Semana 42 é férias de outono na Dinamarca. Antigamente as crianças tinham férias na escola que era para ajudar na colheita da plantação de batata. Agora que os tempos são outros, a criançada aproveita as férias mas coitados dos pais, que são obrigados a tirar férias também, pois as instituições não abrem e eles não têm com quem deixar as crianças.

Tem gente que leva os filhos para o trabalho. Isso eu acho inconveniente, mas é altamente aceitável na sociedade dinamarquesa. E ficam bravos se falarem alguma coisa. Pessoalmente eu acho que levar criança para passar o dia no escritório atrapalha os outros, além da mãe (ou o pai) em questão. Acaba que ninguém consegue se concentrar e nós trabalhamos com documentação que é enviada para as autoridades.

A menina que senta atrás de mim chegou com dois pirralhos de 3 e 4 anos. Fala sério. Por que ela não ficou em casa e trabalhou de casa então? A nossa empresa permite trabalhar de casa uma vez por semana. Teria sido melhor para ela, para nós e para as crianças, que estavam com a maior cara de cansadas. Pelo visto sensatez está em falta nos dias de hoje.

Solidariedade

Um dos maiores choques culturais que se enfrenta na Dinamarca, para quem vem do Brasil, é que aqui não existe solidariedade.

Certa vez, dirigindo para casa, me senti muito mal e tive que sair da estrada e parar o carro no meio do campo, numa plantação de batatas. Só deu tempo de abrir a porta do carro e ali eu regurgitei até as tripas.

Vários carros passaram por mim, nenhum parou para ver se tinha acontecido alguma coisa. (Meu carro parado no canteiro da estrada no meio das batatas, não é de estranhar?)

Ainda me sentindo muito mal, eu continuei sentada no carro com a porta aberta ao lado da poça de vômito, esperando que eu melhorasse um pouco para poder continuar dirigindo os 20 km restantes até em casa. Nesse momento passou uma mulher bem ao meu lado, fazendo jogging. Ela não me perguntou se eu estava precisando de alguma coisa, se eu estava me sentindo bem. Ela não me olhou. Ela simplesmente me ignorou e continuou seus exercícios.

Nesses 11 anos que estou aqui, passei por outras situações semelhantes, onde eu me senti mal, mas ninguém me ajudou.

Essa é a dura realidade da Dinamarca. E pelo visto da Escandinávia, baseado pelo vídeo que está rodando a net e os canais de tv nessa semana.

Foi no domingo passado. Um homem embriagado caiu nos trilhos do metrô de Estocolmo, na Suécia. Nesse momento havia somente uma outra pessoa na estação, que testemunhou o acidente. Essa testemunha, também um homem, desceu nos trilhos, roubou o acidentado e o deixou ali para ser atropelado pelo trem.

Por um puro milagre o acidentado sobreviveu. Teve ferimentos muito graves e o pé precisou se amputado, mas sobreviveu.

Na quarta-feira a polícia sueca liberou o vídeo para os canais de TV para tentar identificar o malfeitor.

Eu fiquei indignada. Como tem gente ruim nesse mundo. Não pude deixar de comparar esse acidente na Suécia com um que aconteceu em Madrid há dois-três anos atrás. Mas lá a história foi bem diferente. Solidariedade é a palavra-chave.

Abaixo os dois vídeos, o de Madrid e o de Estocolmo.

 

Castigo

Às vezes me admiro com a incompetência dinamarquesa. Essa cultura deles de não tomar uma atitude ou de não ter coragem suficiente para tomar uma atitude.

A colega contando que as crianças na escola, quando perdiam a partida de futebol no recreio, que os perdedores entravem em discussão e batiam uns nos outros para liberar a frustração.

Depois de vários episódios de porrada e várias crianças chegando em casa com olho roxo (isso num país onde se vai preso por agressão corporal!), para tentar punir os estudantes envolvidos e resolver o problema, a escola proibiu futebol no recreio por uma semana.

Mas a semana se passou, agora pode jogar novamemte, e novos casos de pancadaria entre os perdedores.

Já que aqui todo mundo tem direito de dizer o que pensa (só não pode pensar diferente deles!), eu manifestei minha indignação. Disse que no Brasil isso rapidinho se resolveria com suspensão.

Pronto, as minhas colegas dinamarquesas entraram em polvorosa. Que isso não é a mentalidade deles, que isso não se faz na Dinamarca, que isso, que aquilo. Eu simplesmente disse: dois dias de suspensão para o grupo todo, e uma semana de suspensão em caso de reincidência, eu te digo, isso nunca mais aconteceria na escola!

E assim o punição seria justa, somente afetando os agressores e cumplices. Pois proibindo a prática do esporte no recreio, todos estavam sendo punidos injustamente.

Minha colega disse que não se pode punir porque essa era uma reação normal, que é instinto masculino de dar porrada. A resposta dela mexeu com meus ânimos. Fui obrigada a dizer que o diferencia humanos dos animais é justamente saber controlar os impulsos. É por isso que é importante educar as crianças (educar no sentido de ensinar comportamento aceitável).

Ela disse que eu estava errada, que era uma reação normal masculina de dar porrada. Eu então retruquei perguntando: vai dizer isso quando ele tiver uma namorada e encher a moça de porrada. Vai me dizer que isso é uma atitude aceitável porque é instinto?

Conversa encerrada.

Vestibulandos

Durante a semana 27 (de primeiro a sete de julho), enquanto o blog estava hibernando, a Dinamarca entra no final do ano letivo.

Assim como no Brasil, o ano escolar termina com o início do verão. A única diferença é que aqui o final do ano letivo não coincide com o final do ano em si. É muito estranho. Em agosto começa um novo ano escolar.

Final de ano letivo significa um monte de gente se graduando, e para eles a graduação do ensino médio (segundo grau) é a mais importante, pois aqui não existe vestibular.

Então o que acontece? O cidadão termina o segundo grau e faz aquela festa – algo parecido com a festa dos aprovados no vestibular.

No Brasil, para mostrar para todo mundo que você foi aprovado, os rapazes raspam o cabelo e no dia do resultado, o povo sai pintado na rua, lambuzado de lama e sabe-se lá o que mais.

Aqui eles colocam um chapéuzinho na cabeça, sobem em caminhões para desfilar pelas ruas fazendo algazarra. Encher a cara é de praxe, como em qualquer canto do mundo.

Pelo que entendi esse negócio do chapeuzinho é uma tradição que vem desde 1854 e a cor da tarja indica que tipo de escola a pessoa frequentou.

Uma das diferenças do Brasil, é que aqui existem vários tipos de segundo grau. Uns dão mais ênfase para matemática, outros para artes, outros para área biológica, e tem o normalzão, que é o que eles chamam de Gymnasium. (Parece com a nossa palavra para ensino ginasial, mas a correlação não é a mesma, pois ginásio no BR era da quinta à oitava série do primeiro grau e aqui é segundo grau científico.)

No início eu achava uma bobagem esse povo fazendo tanta festa só porque terminaram o segundo grau e nem sabiam se entrariam para a universidade no curso desejado, já que aqui entra no curso por nota. Mas depois eu fui conhecendo mais e mais sobre o ensino dinamarquês.

O que você diria se soubesse que aqui não existe prova durante o ensino fundamental? Nunca. Da primeira à nona série (e em algumas escolas existe uma décima série que é opcional e você só estuda as matérias que selecionar), nunca tem prova. Os professores avaliam se o aluno passa de ano baseado no que se vê durante o ano. Eu nunca ouvi falar de gente reprovando aqui.

Agora imagine esse povo todo, acostumado com mamata e que nunca fez prova na vida, quando eles chegam no segundo grau, eles tomam um baque. Tem prova e é a matéria toda do ano de uma vez só. As provas não são bimestrais. É uma só no fim do ano, e a nota que vc tirar vai te acompanhar para o resto da vida e dela dependerá seu futuro para entrar para a faculdade. Tem neguinho que vai até para psicólogo para superar essa fase, acredita?

Se eu estivesse no lugar deles, eu também sairia festejando para comemorar que finalmente terminei esse pesadelo de ensino médio.

Com relação a essas provas, eu já escutei diversas coisas. Já escutei que para algumas matérias as provas são como as de vestibular. Você tem 4 ou 5 horas para responder a tudo. Mas também já ouvi que as provas são orais.

Prova oral, acho que eu só fazia prova oral nas aulas de inglês e olhe lá. Não consigo nem imaginar o que é fazer prova horal de história, geografia, química.

Mas olha a mamata: 30 minutos antes da sua prova oral, você sorteia a pergunta que terá que responder. Nesses 30 minutos você pode usar todos os meios de comunicação para procurar a resposta: livros, internet, telefone, rezar para São Longuinho. Fica a seu critério. Claro que 30 minutos é pouco para achar uma resposta, se vc não tem a mínima idéia do conteúdo do assunto. Tem que estar preparado.

Esse estilo de prova oral é o que te segue pelo resto da vida. Nas universidades as provas todas são orais com exceção de idiomas e das técnicas: física, matémática, química, onde se resolve uma questão ali na hora, escrevendo no quadro negro – e detalhe,  tudo isso com platéia, pois as provas são abertas ao “público” (os colegas).

Esse negócio de só fazer prova oral tem uma consequencia. Neguinho aqui não sabe escrever. Em compensação sabem argumentar bem. Todo dinamarquês tem palpite para tudo. Para eles é super híper importante dar a opinião deles sobre determinado assunto e dizer se concorda ou não concorda. Mas, porém, todavia… a opinião deles não pode ser muito diferente do da maioria, ou a pessoa será excluída. É uma mentalidade estranha, essa mentalidade de igualidade.

Outra coisa diferente: A maioria das provas são com auxílio. Enquanto você senta ali com suas perguntas, vc pode procurar as respostas no livro, na internet, no seu caderno de anotações.

Para nós isso parece loucura, já que no nosso Brasil dá-se importância à decoreba. Se não lembrar a resposta na hora da prova, lascou-se. Não é, não? Mas aqui ninguém se importa se o estudante se lembra disso ou daquilo de cor. Isso não interessa para eles, porque informação se acha fácil depois que se formar. Para eles é mais importante saber solucionar problemas, e por isso as escolas ensinam a raciocinar para resolver situações difíceis que ocorrem no dia à dia (enquanto no BR só se aprende isso com a prática).

Mas não fique pensando que isso é genial, pois eu vejo os recém formados que entram na minha empresa, eles não sabem nada e são uns iludidos. Pelo menos os “decoreba” brasileiros se empenham em fazer estágios relevantes e não chegam cru no mercado de trabalho.

Não sei se você sabe, mas as universidades dinamarquesas todas são gratuitas e sendo estudante, o governo paga uns salário estudante para você. Se você mora com os pais, o valor é bem pequeno, só para ajudar com gastos com livros, mas se vc saiu de casa e mora por exemplo numa república de estudantes, o valor é 4 vezes maior (mas tem que pagar 37% de imposto – aqui ninguém escapa do imposto).

Claro que todo esse gasto que o governo tem contigo não é de graça. Depois que se formar você é obrigado a trabalhar por pelo menos 2 anos no mercado dinamarquês e pagar impostos aqui que é para retribuir aquilo que foi gasto com a sua educação. E lembre-se que o imposto é gradativo, quanto mais se ganha, maior porcentagem se paga. Já vi neguinho pagando quase 72% de imposto. Eu, particularmente, acho que não vale a pena ganhar mais. Se vc quer ser rico, não deve se mudar para a Dinamarca, pois aqui se trabalha para o governo, literalmente.

Vou parar por aqui. Esse foi um gostinho da educação dina. Outra hora eu conto mais.

Incluso

Quando eu morava no Brasil eu achava que a palavra incluso só se usava quando vinha a conta do restaurante. “O serviço (10% do garçon) está incluso ou não?” a gente sempre pergunta.

Então vim para a Dinamarca, e a coisa mudou de figura. A palavra incluso aqui é usada o tempo todo, mas foi só recentemente que eu entendi o correto significado da palavra.

Imagine o seguinte: Neguinho informa que vai tirar férias. Eles escrevem assim: Férias de 10 a 25 de janeiro, ambos dias inclusos.

Eu te pergunto: Se vc diz que vai tirar féria de 10 a 25, que dia começa as férias e que dia termina?

Eu nunca entendi porque dizer incluso. O cara já está dizendo tudo. Férias de 10 a 25 de janeiro. Eu entendo que ele trabalha dia 9, dia 10 está de férias e só volta a por os pés na empresa no dia 26, pois no dia 25 ele ainda está de férias. Você concorda comigo? Se eu estiver errada, por favor me corrijam! Mas sempre entendi que as coisas funcionam assim. Pelo menos no idioma português.

Mas como eu sou estrangeiro, gringo na terra do outros, sabe como é, a gente tenta se encaixar nos moldes de onde estamos e por isso eu também passei a escrever o tal do incluso. Eu achava que era para enfeitar.

E assim foi por 10 anos, até que mês passado eu recebi um texto, e junto com este veio um email dando as instruções: Faça a atualização do texto até a seção 4.6.

O que você entende disso? A seção 4.6 está inclusa ou não?

Bom, eu fiz a atualização do texto, incluindo a seção 4.6 e aí parei. Da seção 4.7 até a seção 10 eu deixei sem atualizar, como solicitado no email e achando que fiz um trabalho genial.

Mas para que facilitar as coisas quando os dinamarqueses gostam de complicar a vida da gente. Fui olhar no texto das outras, elas só atualizaram até a seção 4.5.

Sabe por que?

Por que na Dinamarca nada está incluso. E eu não entendo isso. Se o 4.6 não é para ser atualizado, então para que mencioná-lo? Diga simplesmente até o 4.5 e pronto. Mas não. Complicação geral.

Mas complicação para mim, pois a cabecinha oca deles está acostumada com essa não inclusão de nada.

Consequencia disso: Eu tive que consertar o meu texto e retirar o que eu tinha atualizado na seção 4.6. Depois desse acontecimento eu nunca mais me esqueci dessa palhaçada do idioma dinamarques.

E os dias se passaram, tudo estava indo muito bem, até que hoje vem a minha colega me fazer uma pergunta e eu perdi minha paciência com ela, coitada.

O meu texto diz: Conservação, abaixo de 25 graus. O texto dela diz: Conservação, não acima de 25 graus.

Ela me pergunta então se deve consertar o texto dela escrevendo abaixo, dizendo que essas duas expressões não significam a mesma coisa.

Para mim significa exatamente a mesma coisa. No meu entendimento 25 graus é a palavra-chave. Se um dia estiver fazendo 30 graus, tem que colocar o produto na geladeira. Pronto.

Mas para ela o ‘não acima de 25’ significa 25, mas o abaixo de 25 significa 24,999999999. Fala sério.

Se você comprar um colírio na farmácia e a bula disser mantenha abaixo de 30 graus, você vai ficar controlando o termômetro para o 29,9? Não. Vc se baseia pelo 30.

E do ponto de vista científico, se a bula diz que pode guardar até 30 ou abaixo de 30, é porque os testes de estabilidade foram feitos na temperatura de 30 graus ou acima disso.

Se bem que no Brasil pode estar tanto calor que eles escolhem escrever: mantenha em local fresco. E aí? Fresco é 20, 25 ou 30 graus? Ou talvez é 19,999999999999?

Pronto, desabafei.

Desalmado

Sinto falta do calor humano do brasileiro. Por mais violento que o país seja, sempre tem uma boa alma para te ajudar quando algo acontece. Se for uma emergência, até mesmo um desconhecido pára para te ajudar.

Aqui as coisas não funcionam assim. Eu me lembro muito bem de 3 episódios quando me machuquei e estava mal, e ninguém parou para me acudir, e muito menos para perguntar se eu estava precisando de ajuda ou de alguma coisa.

Hoje no meu trabalho, no entanto, fiquei admirada com a perseverança de uma moça, que eu vou chamar de terceira moça.

Alguém estacionou um carro na frente do prédio. Dentro do carro, estacionado no sol e com todos os vidros fechados, estava um cachorro, que por mais de uma hora uivava desesperadamente, perturbando a concentração daqueles que precisavam trabalhar do outro lado da janela.

Depois de uma hora e meia o cachorro ficou quieto. Essa moça achou que ele estivesse a ponto de morrer sufocado. Começou então a maratona para descobrir de quem é o carro. No pára-brisas não tinha ID da firma, então era carro de visitante.

O carro estava estacionado irregularmente, numa área que é somente para pedestres.

A secretária da recepção estava incoformada, pois foi informada que o protocolo da empresa não permite que ela envie um email geral para o povo do prédio para um caso particular. A idéia era informar a situação e perguntar de quem é o carro. Então ela olha para mim e diz: Eu não posso, mas quem sabe uma outra pessoa… (Indireta para tia Cris.)

Não precisei fazer nada, porque na sala ao lado já estavam 3 outras pessoas na ativa. Uma delas, casada com um policial, já tinha pedido para o marido pesquisar o número da placa do carro e ver se conseguia o nome do dono do veículo. Uma segunda moça foi checar se o cão ainda estava bem e pela janela do carro deu para ver que na coleira do animal tinha um número de telefone. A terceira pessoa (a nossa moça!) já estava falando com a polícia, mas assim que aparecemos com o número de telefone, ela disse para a atendente que ligaria novamente depois. Desligou e imediatamente telefonou para o número da coleira.

O rapaz que atendeu disse que o cachorro era dele, mas que o carro é da namorada e que ela estava na firma para dar uma palestra. Também afirmou que o cachorro tinha água e comida. (E eu só escutando essa conversa.)

Então a nossa terceira moça diz: Você está ciente de que o seu cachorro está dentro do carro com todas as janelas fechadas? Que o veículo está no sol e o cão uiva há mais de uma hora perturbando o prédio todo? Você tem meia hora para entrar em contato com a sua namorada ou nós vamos chamar a polícia para quebrar o vidro do carro ou quebraremos a janela nós mesmos.

Ele diz: “Essa atitude é drástica demais. Não há motivo para isso. Tenho certeza de que não passa dos 20 graus dentro do carro e que o cachorro está bem.” Então numa tentativa de coagir a nossa moça ele pergunta: “Mas qual é o seu nome mesmo? Seu nome completo? Não tem porque quebrar a janela do carro” (era um carro caro, desses grandões 4×4). Ela não se intimidou, sem hesitar e com um tom frio ela deu o nome completíssimo e ainda continuou dizendo que ele teria meia hora…

Nessa hora saí de perto, porque essa conversa e as ameaças estavam tomando um rumo que eu não tinha a mínima vontade de testemunhar.

Fiquei sabendo mais tarde que poucos minutos depois disso houve uma pausa na palestra da infeliz e desalmada dona do carro que deixou o cachorro trancado no sol. Entendi que o namorado mandou um sms para ela (sms/torpedo/mensagem) e ela foi falar com os seguranças da empresa durante a pausa. Esses pediram para ela mover o carro. E foi exatamente isso que ela fez. Somente isso. Tirou o carro dali e o colocou na rua, fora do estacionamento da empresa, e manteve o cachorro trancado no sol, sabe-se lá por quantas horas mais, durante a palestra dela.

Uma pena que não existe uma entidade para proteção dos animais aqui, ou eu teria feito uma denúncia. Juro.

Esse episódio me tirou do sério. Por que não deixou o cachorro em casa então? Esse tipo de gente não deveria ter animal de estimação. Em compensação foi admirável o empenho das três moças para tentar tirar o animal do sol. Ou talvez eu esteja dando crédito demais para elas. Provavelmente o motivo real dessa comoção foi o fato de que os uivos do animal estavam irritando todo mundo, caso contrário ninguém daria a menor bola. Você acha que esse meu último comentário é deprimente demais e que eu não tenho razão? Deixa eu te contar então o que aconteceu no estacionamento da firma há 2 anos atrás… Saiu em todos os jormais do reino.

Um dos funcionários executivos prometeu para sua esposa que deixaria a criança (de menos de 2 anos) na instituição antes de ir para o trabalho. Mas o estresse dele era tanto, que ele só pensava em trabalho. Chegou na empresa, estacionou o carro, foi para suas reuniões e nem se lembrava que na cadeirinha no assento de trás do carro estava o filho dele.

Naquele dia fez um sol de matar. A criança trancada dentro do carro no sol com os vidros fechados. Um outro funcionário passando pelo estacionamento viu a criança dentro do carro, achou que ela estivesse desmaiada. Chamou a polícia, mas já era tarde demais. A criança morreu. Isso foi notícia por dias nos jornais, mas o nome da empresa jamais foi citado. Os comentários ainda hoje sobre esse caso são de como isso pode acontecer. De como isso destruiu a família. Como uma pessoa assim consegue se perdoar. Se a esposa dele conseguiria algum dia o perdoar.

Muito triste.

Midsummer

Peguei um resfriado bem no dia de São João. De molho em casa, o pensamento vai longe. Fiquei pensando em São João, ou melhor, nas comemorações em torno do 24 de junho. São João, acende a fogueira do meu coração!

No Brasil temos a festa junina, mas você sabe por que celebramos festa junina?
A verdade é que quando a festa é tão popular, como carnaval por exemplo, ninguém sabe o que se está celebrando e nem o porquê.

Aqui na Dinamarca não é diferente.
Eu me mudei para cá no mês de junho de 2001, e todo 23 de junho os dinamarqueses comemoram a noite véspera de São João. Quando perguntei o que se estava sendo celebrado, ninguém sabia me explicar direito, e me disseram umas coisas que deixaram uma impressão muito ruim da Dinamarca.

Minha experiência foi assim:

‘Vamos para a praia para ver a fogueira e cantar canções em torno dela? Será bem legal.’
– Chegando na praia, a fogueira era um amontoado de mato, galhos e grama que foi coletado no jardim das casas ali do quarteirão.
– Ninguém sabia direito que canção cantar. Mais parecia um hino ou salmo de igreja do que uma canção para uma festa ao redor da fogueira.
– Em meio àquela chatice, surge uma boneca de bruxa que é queimada com alegria para as crianças, e alguém me diz que é porque eles queimavam as bruxas na idade média.

Fiquei com a impressão de que a Dinamarca comemora a brutalidade da igreja católica durante a idade média com a inquisição e a queima de mulheres inocentes na fogueira. Saí de lá com raiva. Muita raiva.

Mas a ignorância não leva a lugar nenhum. Por anos, todo dia 23 de junho, véspera de São João, eu já ficava com raiva. E como essa é a segunda data mais comemorada no país, todo mundo fica perguntando: ‘Você vai ver a fogueira hoje?’ Esse comentário só tacava mais lenha na minha fogueira interna! 🙂

Até que ano passado eu escutei sobre essa mesma tradição na Suécia, mas a pessoa sabia explicar direitinho o que era. Comemora-se o solstício de verão, também chamado de Midsummer. A data para eles é tão importante que é até feriado nacional. Então resolvi pesquisar no Wikipedia. (Santa Internet. Você só fica na ignorância se quiser.)

Descobri que em vários países no mundo comemora-se o dia do solstício, inclusive no Brasil. (Pasmem, assim como eu! Pois eu também não sabia que existe um fundamento nas festas juninas.)

Só para relembrar:

Se você mora no norte ou nordeste do Brasil, perto da linha do equador, então os dias e noites sempre têm a mesma duração durante o ano todo. Mas quanto mais para o sul ou para o norte da linha do equador você vai viajando, a duração do dia e noite vai mudando. No verão os dias são longos, e no inverno os dias são curtos. Por exemplo em Curitiba, no inverno amanhece em torno das 7 da manhã e anoitece lá pelas 5 da tarde. Então são 10 horas de claridade do dia contra 14 horas de escuridão da noite.

O solstício de verão é quando chega o dia mais longo do ano e depois começa a inverter, até chegar o dia mair curto do ano, que é o solstício de inverno.

Agora lembre que quando é inverno no hemisfério sul, é verão no hemisfério norte. Isso quer dizer que em junho o sol está iluminando mais o lado norte do planeta. Então em junho nos países do hemisfério norte comemora-se o solstício de verão (dia mais longo do ano), e em alguns países do hemisfério sul, como Brasil, Argentina e Austrália, comemora-se o solstício de inverno, ou dia mais curto do ano.

Na dinamarca escolheram comemorar o midsummer sempre na véspera de São João.
Já no Brasil, festa que é festa tem que durar por muitos dias. Já pensou o que seria do carnaval se só durasse por uma noite? Então festa junina começa lá pelo 12 de junho, que é véspera de dia de Santo Antônio (13 junho), passa por São João (24 junho) e vai até dia de São Pedro (29 junho).

No Wikipedia vi a lista dos países que comemoram o solstício, e cada lugar tem suas tradições, mas uma coisa todos tem em comum: Todos acendem uma fogueira.

Acreditava-se antigamente que algumas plantas que dão flores no meio do verão (midsummer) tinham poderes de cura, como a calêndula, então a colheita era feita na noite do midsummer e o povo acendia fogueiras para se proteger dos espíritos malignos, que eles acreditavam estar à solta e mais ativos durante o midsummer, quando o sol então começa a voltar para o sul. Lá pela idade média achavam que as bruxas encontravam os seres poderosos durante o midsummer, e acredito que aí já usavam a mesma fogueira para queimar as bruxas, matando assim dois coelhos com uma cajadada só.

Como queimar mulher inocente na fogueira não é suficientemente sadista, em alguns lugares como a França, eles queimavam animais vivos, principalmente gatos. Ficavam lá apreciando a agonia dos bichos até esses serem totalmente carbonizados. Às vezes jogavam um saco inteiro cheio de gatos na fogueira.

Não fui pesquisar, mas certamente no Brasil deve ter alguma história de como a festa junina evoluiu para ser o que é hoje. Eu prefiro no entanto pensar nas coisas boas: Quentão, pinhão (no sul do país), amendoim, pamonha e uma boa dança de quadrilha.
Pula fogueira iá-iá, e pula fogueira iô-iô.

Divida comigo sua experiência de festa junina. Talvez você até saiba como foi a evolução de comemoração de solstício para 2 semanas de festividades juninas? 🙂
Olha a cobra! Olha a chuva! É mentira!

Esse foi o link que usei para pesquisar sobre Midsummer.