Vindo para a Dinamarca? Dicas

Estava elaborando um email para dar uma força para um compatriota que me pediu algumas dicas e que está a caminho dessa terra Viking onde moro, e pensei: quantas pessoas não estão na mesma situação que ele e gostariam de umas dicas também?

Pelo que percebo, o maior medo que temos é de enfrentar o choque cultural; o medo de não se adaptar. E eu digo:
Eu acho que o ser humano tem uma capacidade incrível de adaptação. Um mês é suficiente para uma pessoa se adaptar a uma nova rotina. Acho que o único problema é o lado psicológico, porque a gente tem mania de fazer comparações… “ah, mas no Brasil era assim”. Honestamente, a adaptação fica mais fácil se você simplesmente aceitar que as coisas aqui são diferentes. Umas pra melhor, outras, nem tanto.

E falando em aceitação, isso também vale para quando estiver aprendendo o idioma.
Não vou mentir, a pronúncia dinamarquesa é de matar, e algumas vezes eles usam umas expressões estranhas. Mas se você tiver boa vontade e aceitar que aqui é diferente, então aprenderá com mais facilidade e menos frustração.

Mas vamos aos fatos:

Costumam me perguntar se eu estranhei muito no início. E eu retruco, no início? Mesmo morando aqui há anos, eu ainda estranho. Todo dia a gente aprende alguma coisa nova e volta e meia descubro coisas que me impressionam e me pergunto: como é que não percebi isso antes? Também há coisas que eu simplesmente recuso aceitar, e por isso continuo achando essas coisas “estranhas”.

Se é a primeira vez que você vem para cá, imagino que você pode estranhar:

A comida

  • Nosso querido arroz e feijão. Faça em casa, porque aqui eles não comem arroz. Feijão é algo que nem vendia no supermercado quando me mudei para cá. Os restaurantes todos servem a mesma coisa: batata.
    Carne aqui também é diferente. Eles comem muita carne de porco. Muita mesmo. E eu percebo que eles também comem bastante cordeiro.
  • Para os fãns de uma boa churrascaria. Esqueça. Na Dinamarca não tem nenhuma – o que é um pouco frustrante, pois os nossos vizinhos: Inglaterra, Portugal, Espanha, Alemanha, Itália, todos esses lugares têm alguma “Brazilian Steak House”. Quem gosta de fazer um churrasquinho em casa, saiba que a carne dinamarquesa é muito boa, mas eles exportam tudo. Para o mercado interno só fica carne dura de última qualidade.
  • Para quem é fã de frutas e verdudas, você talvez vá sentir falta de alguma coisa. A variedade não é boa. As frutas “exóticas” como mamão, manga, banana, abacaxi, melancia, são importadas ainda verdes e chegam aqui sem gosto, duras, e nunca amadurecem. Em compensação, no verão eles têm cereja fresca, damasco fresco, vários tipos de ameixa, e uns morangos divinos.
  • Nós brazucas adoramos um suco, principalmente na hora das refeições. Gostamos muito de Tang ou outro refresco, ou um suquinho de fruta natural. Quer suco? Faça em casa. São raros os lugares que servem suco natural aqui, e costuma ser caríssimo.
  • Saladas… para eles salada é pepino e cenoura crua com muito molho cremoso por cima ou então sem tempero nenhum. Eles não costumam usar sal, azeite e vinagre como nós. Eles também comem couve-flor e brócolis cru. Muito estranho, mas a gente se acostuma.
  • As refeições também são diferentes. Muitos não comem comida quente no almoço, mas só comem um pedaço de pão de centeio. Aí eles jantam às 5 da tarde.

O povo

  • O povo é fechadão e é difícil fazer amizades. Lembra um pouco a cultura em Curitiba, no Paraná.
  • Eles nunca (ou raramente) convidam um colega para um happy hour ou para vir em casa tomar um café. Depois do trabalho todos saem correndo para a vida privada deles. Convidar para vir em casa, só mesmo amigos íntimos. Convites de última hora não existem. Você é convidado com meses de antecedência. Dica: jamais apareça de surpresa na casa de um dinamarquês!
  • No começo todos são compreensivos e falam inglês contigo, porque sabem que você ainda não fala dinamarquês. Mas o fato é que demora mais de um ano para aprender o idioma local. No entanto, após algumas semanas, os caras se cansam de você e começam a falar só em dinamarquês. Se você não entende, o problema é seu, e você acaba ficando meio isolado, fora das conversas. E se você se queixar, ai meu Deus, aí você vai ouvir que já está na hora de você aprender o idioma e se integrar!
  • Outra coisa que é diferente, é que o povo é mais liberal – talvez por não serem religiosos. Menina que dorme em casa de menino, mas são só amiguinhos. Namoradinhos vão dar uma bimbada na casa dos pais, enquanto os pais estão na sala assistindo tv. Isso também é normal.
  • Eles dão muito valor à qualidade de vida e ao respeito mútuo. Todos são iguais. Isso você vai perceber no seu local de trabalho, na maneira como os chefes/gerentes se relacionam com seus funcionários.
  • Hipocrisia, ter duas caras, falar mal dos outros pelas costas. Bom,  isso é a mesma coisa em qualquer lugar. Mas o que a gente estranha aqui, é que muita gente tem medo de conflito. Tem gente que não tem coragem de abrir a boca e falar sobre um problema e guardam rancor por um tempão. Alguns problemas nunca se resolvem, porque ninguém tem coragem de pôr as cartas na mesa. Isso é muito comum no ambiente de trabalho. Fazem reuniões e mais reuniões, mas os problemas nunca se resolvem, porque na reunião eles só dizem que está tudo lindo e maravilhoso. E cuidado, não vá você tentar mudar isso, que você vai se dar mal.

Noção equivocada

  • Se você acha que aqui é uma maravilha, que é primeiro mundo, não se iluda! Pesquise antes de vir. Estou aqui há 13 anos e até hoje ainda acho que há muitas coisas que funcionam melhor lá no sul do Brasil do que funcionam aqui no “primeiro mundo”. Quer um exemplo? Se você tem o privilégio de ter um plano de saúde no Brasil, venha preparado para encarar a realidade dinamarquesa, onde tudo é pelo sistema de saúde público. A lista de espera para ver um especialista é de 3 a 6 meses!
  • Outra coisa que a gente estranha é o fato dos dinamarqueses não gesticularem quando falam. Eles ficam duros feito uma pá e não movem os braços quando falam. Mas nós brasileiros, nós usamos uma infinidade de gestos. Aliás, às vezes a gente nem precisa falar nada, o gesto por si só já diz tudo, não é mesmo? E isso está gravado lá no fundo da memória. Minha dica: Quando chegar aqui, tente se lembrar que eles não entendem os gestos, e dependendo do gesto que você fizer, pode até ser mal-interpretado. Dica: jamais dê de dedo para um dina (apontar o dedo indicador na cara de uma pessoa, que às vezes a gente faz para chamar a atenção à um assunto importante). Isso aqui é considerado como um ato de agressão.
  • E a questão do banho, digo, da falta de banho? É porque faz frio? Isso é algo que o povo também confunde. Sim, é verdade que os europeus não tomam banho todos os dias, principalmente no inverno, mas isso não tem nada a ver com o frio (acho assim era antigamente, mas não nos dias de hoje). A razão é que a água daqui é dura (tem muito cálcio/calcário) e resseca a pele pra valer. E durante o inverno, os radiadores que aquecem a casa roubam toda a humidade do ar, o que contribui para ressercar a pele ainda mais. O ar seco resseca até os olhos da gente, que ardem. E tem gente que fica com um tipo de eczema sério na pele. Mesmo passando hidratante todo dia, não resolve. Então o jeito realmente é diminuir na quantidade de banho – e isso o seu dermatologista vai escrever na receita médica!

O frio

  • Saber que aqui faz frio e que o inverno é longo é o que nos assusta mais. Mas vamos falar a verdade. Frio você só passa no sul do Brasil, porque lá faz frio pra dedéu, e o povo encara o inverno sem aquecedor, e ainda tomam banho de água fria. Aqui não se passa frio. Dentro de casa é sempre quentinho. O isolamento térmico das casas é diferente, a temperatura dentro dos ambientes é sempre em torno dos 21 graus. Tem gente que anda dentro de casa de camiseta o ano inteiro.
    Agora, fora de casa são outros quinhentos. Faz frio, venta bastante e raramente faz sol. Mas o segredo para encarar isso de frente é saber se vestir adequadamente. Vou postar em breve umas dicas de como se preparar para o inverno europeu.

Pô Cris, mas essas dicas acima são desanimadoras demais. Não tem nada bom na Dinamarca?
Claro que tem.

  • Acho espetacular que se pode andar na rua ou de carro sem ter medo de violência, sem medo de que vão assaltar, roubar, matar. Nossas casas não têm muros, nossas janelas não têm grades.
  • Acho fantástico que a gente não precisa ter dois ou três empregos para sustentar a família. Mesmo num emprego simples, ganha-se o suficiente para ter uma casa confortável, um carro, fazer várias viagens por ano.
  • Adoro o fato que na Dinamarca não tem burocracia e que tudo se resolve por email, por internet. Aquele negócio de ir ao banco e ficar na fila por 3 horas… esqueça! Bem-vindo à Dinamarca!
  • É fenomenal que o transporte público chega no horário  – com algumas exceções, claro, mas na maioria das vezes, funciona muito bem.
  • Também gosto muito que aqui a sua palavra basta. Eles confiam em você. Você mesmo que faz a leitura dos medidores de luz, água, gás. Eles não mandam um funcionário para conferir se você leu e informou direito ou não.
    Se você comprou um artigo e agora quer devolver para a loja (por defeito ou quer trocar um presente que não gostou), não precisa preencher mil formulários e implorar pelo amor de Deus. Se está dentro da garantia, está com a etiqueta, os caras nem olham dentro da caixa. É só devolver, pegar o dinheiro de volta ou trocar por outro.
  • Outro ponto positivo é que você sabe que o dinheiro que você paga de imposto está sendo utilizado para o benefício da sociedade, e não está parando no bolso de algum salafrário. Claro que existe corrupção aqui, mas é mais discreta. Eles se aproveitam do fato de estarem numa posição de poder e manipulam as leis, fazendo com que as leis sejam mais favoráveis para eles. Quer um exemplo? Político dinamarquês não pode comprar casa em outro país europeu. Então o cidadão vai lá, faz um novo projeto de lei, para mudar isso. Se a lei for aprovada, ele poderá comprar sua tão sonhada casa. É uma corrupção mais sofisticada, mas ainda sim, corrupção. Pessoalmente eu acho mais fácil de tolerar esse tipo de corrupção. Porque o que acontece no Brasil é lamentável.
  • Também gosto do fato de que o povo daqui não cuida tanto da sua vida e não se metem na sua vida para dar palpite. Se me lembro bem, no Brasil, se você está numa fila qualquer conversando algo particular com sua amiga, o cara de trás já se mete na sua conversa, dá palpite e conselhos. Não é verdade?
  • Mas o que eu absolutamente adoro aqui é o fato de que você pode ser você mesmo. Pode ir ao shopping ou supermercado maltrapilho, sujo e descabelado, que ninguém repara nem diz nada. Pode sair pelas ruas carregando um pacotão de papel higiênico debaixo do braço e ninguém vai fazer piadinha. A impressão que eu tenho que é que aqui se vive menos de aparências…

2 thoughts on “Vindo para a Dinamarca? Dicas

  1. Oi Chris,
    Seu blog é muito interessante e muito informativo para alguém que, como eu, vai se mudar para a Dinamarca em alguns meses. Eu me candidatei a um green card e espero recebê-lo em alguns meses.
    Gostaria de te fazer umas perguntas rápidas, se não for muito trabalho
    1- A cobertura do seguro saúde inclui dentista?
    2- Qual é sua percepção sobre a existência de empregos para quem, no início, não fala dinamarques?
    3- Você teria algum site para sugerir para busca de apartamento para alugar? Gostaria de, pelo menos, já ter uma ideia de preços.
    Obrigado antecipadamente.
    abs,
    Marcos

    • Olá Marcos, muito obrigada por deixar uma mensagem no blog.
      Vamos ver se eu consigo responder:
      1- É um seguro viagem ou é o seguro social da DK? Se for o seguro social daqui, não inclui dentista para adultos, mas dá um pequeno desconto.
      2- Se você não vem expatriado, dependendo da sua área profissional, pode ser muito difícil conseguir um emprego. Mas não é impossível. Dê uma olhada em sites como stepstone.dk e jobindex.dk.
      3- Preços na capital variam de 4 mil até mais de 20 mil coroas por mês. Mais em conta fica na região metropolitana, como Valby por exemplo. Sites eu achei no google uns:
      http://www.lejebolig.dk/
      http://www.boliglisten.dk/
      http://www.boligportal.dk/

      Para encontrar mais, procure no google por ‘bolig til leje’ (moradia para alugar) ou ‘lejlighed til leje’ (apartamento para alugar).

      Boa sorte com seus planos para vir para cá. Espero que dê tudo certo!

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