Pesadelo

Hoje de manhã eu acordei no meio de um sonho. Nele, eu estava com 3 colegas do meu departamento. Nós estávamos dentro de um trem de alta velocidade que nos levava para alguma cidade no interior de Minas Gerais (sim, no meu sonho, eu trabalho no Brasil e todos falavam inglês). Estávamos quase chegando no nosso destino quando Hanne-Lise me diz, “boa sorte amanhã”. Eu respondo, “Como assim amanhã? É hoje que devemos estar 8:30 nos nossos escritórios!” Então olho no meu relógio e vejo os ponteiros mostrando 8:25. Putz, estamos atrasadas e ainda estamos no trem. Então Lena, outra colega, diz brincando, “então hoje ninguém vai ser despedido!”. Peguei o telefone e estava ligando para para minha chefe para dizer que não chegaríamos a tempo quando acordei.

Sonho maluco.

Olhei no relógio, eram 4:30 da manhã. Não consegui dormir mais. Aproveitei para revisar um pouco o material dos meus estudos antes de me arrumar para ir ao trabalho. Vida real me aguardando.

Primeira pessoa que vejo no escritório quando chego as 8 horas foi Lena. Ela é uma sueca muito bem humorada com a qual viajei para um safári ano passado. Disse que tinha sonhado com ela e lhe contei meu sonho. Demos boas risadas.

8:27 eu fechei minha porta e continuei trabalhando para ocupar a mente. Havia silêncio no corredor lá fora a partir de 8:30. Lá pelas 9 escuto a voz de uma colega da qual gosto muito. Fiquei imediatamente triste, pois eu sabia que, se ela estava no corredor, significava que tinha sido escolhida para ser despedida.

9:08 veio o email da minha chefe dizendo que todos que tinham sido afetados no meu departamento já tinham recebido a má notícia (e eu não fui uma delas!) mas que tínhamos que permanecer mais um pouco no nosso escritório com portas fechadas até que um outro email viesse – esse segundo email só veio 9:45 e nos chamava para uma reunião que começaria imediatamente e foi aí que recebemos a notícia de quem perdemos como colegas e como seria a nova estrutura do departamento.

Em 2015 a empresa passou por cortes de mil funcionários e o meu departamento sobreviveu praticamente sem arranhões. Somente duas pessoas (de um grupo de quase 30) foram despedidas e uma delas estavas prestes a se aposentar de qualquer forma. Nós somos do grupo de Medical Writers e escrevemos os relatórios de ensaios clínicos, e há sempre muito trabalho.

Agora em 2020 não é diferente. Estamos atolados de trabalho, porque a empresa comprou projetos de duas outras empresas menores. A verdade é que estamos nos afogando em tantos relatórios e documentos para autoridades sanitárias do mundo afora. Eu, sinceramente, imaginei que esse ano seria a mesma coisa, que escaparíamos dos cortes com poucos arranhões. Mas dessa vez não foi assim.

Meu departamento foi dizimado.

Foi um choque ouvir a chefe descrevendo que perdemos tanta gente. Fiz as contas e perdemos 33% dos colegas. Só sobraram 13.

No final da tarde, outra reunião, agora com o setor todo. Foi chocante ouvir que o meu departamento foi o único que perdeu tanta gente. Os outros departamentos do setor perderam no máximo duas pessoas – e teve um departamento de assuntos regulatórios que não perdeu ninguém, só foi reestruturado.

No corredor, encontrei colegas de outros setores da empresa, e eles contaram o massacre que foi na área deles. 113 pessoas foram demitidas na área de pesquisa e desenvolvimento.

Eu deveria estar contente por ter tido tanta sorte e ainda tenho meu emprego. Mas não é assim que me sinto. Sinto como se tivesse participado de um velório múltiplo.

O dia hoje está lindo: calor, sol, gaivotas piando. Um daqueles dias típicos que colocam um sorriso no rosto de qualquer dinamarquês. Eu, no entanto, voltei pra casa arrasada e sem energia e fui me deitar.

Honestamente, não sei se o meu departamento será um bom lugar para trabalhar no futuro. Adoro minha chefe e meus colegas, mas as mudanças às quais estão nos sujeitando, não serão pra melhor. Acho até que perderemos ainda mais colegas, pois as mudanças foram tão radicais, que o que havia de interessante para se fazer, não faremos mais. A partir de agora, não escreveremos mais os relatórios dos estudos clínicos – que era o mais legal de se fazer. Essa atividade será terceirizada. Daqui pra frente só teremos os documentos chatinhos. Eu acho que isso fará com que alguns Medical Writers procurem outros empregos e peçam demissão.

O tempo vai dizer se tenho razão.

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4 Responses to Pesadelo

  1. Gabriela diz:

    Que bom que não foi demitida, você vai se adaptar a nova dinâmica no trabalho. Essa pandemia tá afetando todo mundo mesmo. Que loucura!

  2. Cabeça Disneyssauro diz:

    Só agora tive tempo de entrar no blog, aqui tá uma doidera (trampo).
    Fico triste com essa notícias dos colegas perdendo emprego, mas o que se pode fazer??!!, é seguir em frente.

    • Cristiane diz:

      Hômi ocupado demais da conta, sô!
      Mas é bom ter bastante trabalho para ocupar o dia. Hoje eu estou numa enrolação aqui. Sem motivação nenhuma.

      • Cabeça Disneyssauro diz:

        Trampo sempre tem (aqui é uma loucura) não curto pessoas do meu lado quando estou trabalhando, me tira a concentração e piora quando é o BO$$.

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