{"id":2885,"date":"2016-04-30T13:26:59","date_gmt":"2016-04-30T13:26:59","guid":{"rendered":"http:\/\/blog.cris.dk\/?p=2885"},"modified":"2016-04-30T13:26:59","modified_gmt":"2016-04-30T13:26:59","slug":"convalescenca","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/blog.cris.dk\/?p=2885","title":{"rendered":"Convalescen\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Convalescen\u00e7a, essa \u00e9 uma palavra que n\u00e3o escuto h\u00e1 anos, mas que descreve t\u00e3o bem esse per\u00edodo no qual me encontro.<\/p>\n<p>Foi hoje de manh\u00e3, enquanto eu praticava franc\u00eas com um correspondente, que eu escutei a palavra: convalescence (tem que falar fazendo biquinho, sen\u00e3o n\u00e3o funciona!). <\/p>\n<p>Eu estava com medo da cirurgia, mas o desafio maior \u00e9 o p\u00f3s-operat\u00f3rio. Parece que cada dia aparece uma coisa diferente que a gente tem que superar.<\/p>\n<p>No primeiro dia o cansa\u00e7o e as dores s\u00e3o as piores.<br \/>\nNo meu caso tamb\u00e9m causava um desconforto o fato de sentir vontade constante de urinar, mesmo eu estando com cat\u00e9ter.<\/p>\n<p>Em seguida a gente tem que lidar com o povo que come\u00e7a a mandar mensagem, telefonar e quer visitar. Tudo isso \u00e9 exaustivo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o vem a fome e o fato de que tudo que se coloca na boca d\u00e1 n\u00e1usea. At\u00e9 mesmo cheiro de comida e de flores causa \u00e2nsia de v\u00f4mito.<\/p>\n<p>Era para eu ter ido embora para casa no primeiro dia, mas por causa de uma pequena hemorragia, me mantiveram sob supervis\u00e3o. E tamb\u00e9m pelo fato de que eu tinha tantas dores que n\u00e3o consegui ficar de p\u00e9 no primeiro dia. O ideal seria come\u00e7ar a caminhar algumas horas ap\u00f3s a opera\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp; <\/p>\n<p>Quando finalmente todo mundo foi embora, 10 da noite, pois na DK eles n\u00e3o deixam a fam\u00edlia dormir no quarto como normalmente se faz no Brasil, eu achei que iria poder descansar, mas n\u00e3o. Meu sono foi interrompido v\u00e1rias vezes pela enfermeira que veio medir minha press\u00e3o no meio da noite.<\/p>\n<p>Eu tive muita sorte que no meu quarto o outro leito estava vazio e eu fiquei sozinha. Sabe, hospital p\u00fablico a gente n\u00e3o tem direito a quarto privativo.<\/p>\n<p>Mas a alegria durou pouco. 6:30 da manh\u00e3 chega a minha colega de quarto, ela, com nen\u00e9m resc\u00e9m nascido e a fam\u00edlia toda. \u00d4 meu pai, d\u00e1i-me paci\u00eancia! Eles n\u00e3o calavam a boca, e eu muito cansada, s\u00f3 queria dormir.<\/p>\n<p>7:15 levaram ela para a sala de opera\u00e7\u00e3o. Pensei comigo mesmo, talvez s\u00f3 tragam essa mulher de volta 5 da tarde. <\/p>\n<p>Finalmente, sil\u00eancio, achei que ia poder dormir um pouco, mas veio o m\u00e9dico me explicar como foi a cirurgia e como seria daqui pra frente. Disse que foram 3 horas de cirurgia e que tiraram parte de 3 \u00f3rg\u00e3os, mas aquilo que eles tinham combinado comigo de fazer, isso eles n\u00e3o fizeram porque ficaram com medo que fosse me dar uma infec\u00e7\u00e3o generalizada.<br \/>\nO lado bom dessa not\u00edcia \u00e9 que eu n\u00e3o precisaria passar 10 dias em casa com cat\u00e9ter.<br \/>\nO lado ruim, \u00e9 que vou ter que continuar tomando horm\u00f4nio para controlar os peda\u00e7os de endometriose que eles n\u00e3o retiraram. \u00d4 vida.<br \/>\nE logo depois dessa not\u00edcia, ele me d\u00e1 a bomba, de que s\u00f3 iriam me dar 1 semana de licen\u00e7a do trabalho. Que eles achavam que eu tinha que voltar \u00e0 vida normal o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, que ficar deitada em casa aumenta as chances de complica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Caramba. Uma semana de repouso s\u00f3, depois de cirurgia no abd\u00f4men? Tem gente que recebe 2 ou 3 semanas por muito menos que isso!!! Sem coment\u00e1rios. Indigna\u00e7\u00e3o \u00e9 a palavra que descreve meus sentimentos.&nbsp;&nbsp; <\/p>\n<p>Depois ele mandou tirar o meu cat\u00e9ter e controlar se minha urina ainda tinha sangue. Disse que eu poderia ir para casa quando estivesse pronta. <\/p>\n<p>O problema \u00e9 que esse &#8220;pronta&#8221; quer dizer quando os movimentos perist\u00e1lticos estiverem sido restabelecidos. Essa \u00e9 a bosta de ir para hospital numa l\u00edngua estrangeira. A gente n\u00e3o entende metade do que eles falam, pois aqui se fala muito nas entrelinhas, e estrangeiro tem dificuldade de entender esse tipo de coisa.<br \/>\nA enfermeira vivia dizendo que eu mesmo controlaria, decidiria, quanto tempo passar no hospital. Tenho certeza de que isso \u00e9 outra mensagem entrelinhas que eu n\u00e3o entendi, afinal custa uma fortuna por noite por leito de hospital e eles est\u00e3o cortando gastos. Bom&#8230;<\/p>\n<p>Fizemos mais uma tentativa para eu me levantar da cama, e foi tudo bem. Comecei ent\u00e3o a caminhar de pouquinho em pouquinho.<\/p>\n<p>Enquanto estou eu l\u00e1, rec\u00e9m levantada, trazem a mulher da cama do lado de volta. N\u00e3o eram nem 11 da manh\u00e3 ainda. A cirurgia dela foi h\u00edper r\u00e1pida.<br \/>\nEu estava muito cansada e s\u00f3 queria me deitar novamente, mas n\u00e3o tinha paci\u00eancia para todo o barulho que aquela fam\u00edlia fazia.<br \/>\nMas Deus \u00e9 pai. Ela foi liberada ao meio dia, e meia hora mais tarde eles estavam deixando o hospital e eu pude finalmente descansar.<\/p>\n<p>E mais um dia se passou, com mais visitas, mais mensagens, mais enj\u00f4os e v\u00f4mitos &#8211; pois me deram morfina ao inv\u00e9s de code\u00edna, e a tia Cris n\u00e3o tolera a primeira muito bem.<\/p>\n<p>Eu acabei dormindo mais uma noite no hospital, por causa da greve do intestino. <\/p>\n<p>No meu \u00faltimo dia no hospital acordei com dores horr\u00edveis tanto no abd\u00f4men quanto nos ombros. Depois de uma laparoscopia, acumulam-se gases no corpo, e se o intestino n\u00e3o estiver funcionando, a press\u00e3o gerada \u00e9 um tro\u00e7o fenomenal e chega at\u00e9 a \u00e1rea dos ombros e pesco\u00e7o. Eu mal conseguia ficar ereta, tamanha era a dor. Estava de mau humor, pedindo para eles me darem algum rem\u00e9dio que fizesse o intestino pegar no tranco, mas a coitada da enfermeira dizendo que a \u00fanica coisa a fazer era caminhar e beber muito l\u00edquido. E ela vinha atr\u00e1s de mim o tempo todo, dizendo para eu caminhar e perguntando se eu j\u00e1 estava conseguindo liberar os gases, e eu estava com vontade de esgoelar aquela garota.<\/p>\n<p>Uns poucos minutos mais tarde veio o primeiro pum. Em portugu\u00eas bem claro: eu nunca antes tinha ficado t\u00e3o contente em soltar um peidinho. Foi al\u00edvio imediato. A dor nos ombros passou, a dor no ventre passou, e eu estava at\u00e9 sorrindo.<br \/>\nFui para o corredor e a enfermeira disse: voc\u00ea est\u00e1 sorrindo. Conseguiu peidar, n\u00e3o foi? E eu disse sim, posso ir para casa agora? <\/p>\n<p>Enquanto aguardava Carsten ir me buscar, eu ia tomar um banho antes de ir embora, mas n\u00e3o tinha \u00e1gua quente no chuveiro do meu quarto. <\/p>\n<p>Suja de \u00e1lcool iodado, descabelada e cansada, vim para casa. Aqui a luta continua, mas estou me recuperando bem. Ou pelo menos eu acho que estou me recuperando bem.<br \/>\nVeremos daqui a uns dias. \ud83d\ude42<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Convalescen\u00e7a, essa \u00e9 uma palavra que n\u00e3o escuto h\u00e1 anos, mas que descreve t\u00e3o bem esse per\u00edodo no qual me encontro. 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