13 outubro, Tóquio Shinjuku – etapa 1
15 outubro, Tóquio Asakusa – etapa 2
31 outubro, Tóquio Akihabara – etapa 3
Quando fiz meus planos de viagem…
Custei para decidir o que fazer nos últimos dois dias de viagem. Eu queria ver Nikko, porque as fotos na internet (abaixo) com as cores do outono parecem lindas. Tentei achar alojamento na área mas com seis meses de antecedência já estava tudo lotado. Nikko parece ser um destino popular.

Cogitei fazer um bate-volta de um dia até Nikko, mas descobri que com transporte público demora quase 3 horas pra chegar lá. Eu não queria gastar 6 horas de transporte no meu último dia no Japão. Muito cansativo.
No final das contas, fiz planos de ver o Halloween no bairro Shibuya no dia 31 de outubro. Tinham me dito que o Halloween é muito doido lá. Marquei com uma fotógrafa portuguesa de fazer uma sessão de fotos em Shibuya na noite do Halloween para guardar de recordação.
Ainda fazendo planos, pensei que depois de passar a noite vendo o povo fantasiado no Halloween, que no dia seguinte, 1° de novembro, eu iria descansar. Escolhi então um hotel num bairro diferente, não muito longe do parque Ueno. A idéia era passear e descansar no parque no último dia.
Mas as coisas raramente acontecem como a gente espera…
No dia 31 de outubro de manhã, a fotógrafa confirma a sessão de fotos através do website. Só achei estranho que ela não me escreveu diretamente. Normalmente os fotógrafos escrevem uma mensagem descrevendo onde vamos nos encontrar e dão instruções do que trazer. Essa portuguesa não me escreveu. Deixei quieto.
Meu trem saiu de Kyoto 2 da tarde e chegaria em Tóquio 5 da tarde. A sessão de fotos era das 8 às 10 da noite. Meia hora antes do trem chegar em Tóquio vem a mensagem que a fotógrafa cancelou a sessão e o dinheiro foi reembolsado. Eu fiquei meio sem reação.
Eu adoro tirar fotos com um fotógrafo quando estou viajando. Tirei em Londres, Lisboa, Atenas, Mallorca e Veneza, e eu queria fotos no Japão. Nos dias que estava em Kyoto pensei em fazer uma sessão de fotos lá. É um belo lugar para tirar fotos, mas como eu já tinha combinado de fazer fotos em Tóquio e não ia fazer duas sessões, porque sessão de fotos é um investimento financeiro! rsrs.
Fiquei bem chateada com o cancelamento de última hora e a desculpa esfarrapada que ela deu de que estava doente no hospital. Se estava tão mal, como tinha confirmado de manhã? Se ela tivesse sido cancelado de manhã, eu teria modificado todo o meu roteiro e não teria voltado para Tóquio.
Eu estava revoltada porque eu não teria mais oportunidades para achar outro fotógrafo, mas tentei não pensar muito nisso, porque eu tinha que descobrir como chegar no hotel no bairro Akihabara. Não era longe da estação de Tóquio, porém Google Maps me fez dar voltas e voltas. Estava bem cansada quando cheguei mas ainda disposta a ir até Shibuya ver o Halloween, mesmo sem fotógrafo. Foi quando o recepcionista do hotel disse que o governo cancelou o Halloween em Shibuya esse ano para tentar conter as doideiras que acontecem lá. Meu mundo meio que desabou com aquela notícia.
Puxa vida, eu tinha decidido voltar a Tóquio somente para tirar fotos com uma fotógrafa, ver o Halloween em Shibuya e ver o parque Ueno. É muita coisa dando errado ao mesmo tempo. Meu humor mudou completamente. Resolvi fazer uma caminhada em Akihabara para ver as luzes e jantar.
Os prédios e as luzes em Akihabara são bem legais. Uma multidão nas ruas. É o bairro dos eletrônicos. Muitas lojas de muitos andares cheias de eletrodomésticos, eletrônicos, equipamento de fotos, vídeo games. Mas tudo muito bagunçado. Imagine um magazine luiza desorganizado. Não sei como os japoneses encontram as coisas naquelas lojas. As lojas de gibi manga me deram uma sensação ruim. Sei que tem criança de adora manga, mas pra mim manga parecia tudo erótico a pornográfico e os clientes na loja pareciam masturbadores de elite.
Na rua, de dez em dez metros havia garotas vestidas cosplay e Halloween, em trajes provocantes, chamando os homens. Como eu não entendo muito japonês, não sei se era para sexo, para restaurantes, ou para qual finalidade, mas me senti andando numa rua de prostituição.


Para piorar meu estado de humor, meu jantar foi um dos piores de toda a viagem. Vi que tinha tonkatsu num restaurante pequeno onde só havia gente local comendo e achei que seria bom. Talvez eu tenha achado que não estava bom porque tudo estava ruim nesse dia. Voltei baqueada para o hotel. E agora, o que vou fazer amanhã, meu último dia nesse país? Não vou usar 6 horas de transporte até Nikko. Parque Ueno eu já vi e não vale a pena voltar. Estou cansada de Tóquio, das multidões, das “putas” em Akihabara. Por acaso eu comentei que meu humor não estava dos melhores?
Pensei em duas alternativas para o último dia: fazer trilha no monte Takao para ver as cores do outono ou ir até Hakone e ver se consigo finalmente tirar uma foto do monte Fuji. Deixei para decidir no dia seguinte, quando estivesse de melhor humor.
No dia seguinte acordei me sentindo cansada. Talvez porque eu ainda estava resfriada. Segundo o Google, chegar ao Mt Takao de Akihabara não era a coisa mais fácil do mundo, e chegar em Hakone demoraria uma hora e meia. Achei meio longe. Então decidi ir até o bairro Shibuya e ver o que tem lá.
A caminho de Shibuya, vi que a próxima estação de trem seria onde eu poderia trocar para um trem bala que me levaria pra perto de Hakone. Impulsiva, mudei de ideia. Saltei do trem, peguei o próximo trem bala e comecei a pesquisar como chegar em Hakone. Vi que teria que trocar de trem novamente na estação de Odawara.
Toda essa loucura porque eu queria ver o monte Fuji mas monte Fuji não queria me ver. Vinte dias atrás, quando estava no trem a caminho de Matsumoto, consegui uma vista parcial do Fuji que deixou um gostinho de quero mais. Dois dias atrás, no trem de Kyoto para Tóquio era para ter uma vista linda do Mt Fuji. Eu fiquei de olho mas estava nublado e as nuvens escuras no horizonte não deixaram ver nada. Fiquei triste. Achava que tinha passado três semanas no Japão e não iria ver o monte Fuji. Pra piorar a situação, quando a gente chega na estação em Tóquio, e a primeira coisa que aparece nas escadas é um painel enorme com fotos lindas do Mt Fuji (foto abaixo). Irônico isso.
Então hoje, com sol e bom tempo, era minha última chance de ver esse vulcão antes de ir embora.

Faltando 10 minutos para chegar a Odawara, Fuji apareceu pela janela. Primeiro achei que era uma nuvem no horizonte, mas depois percebi que aquilo era a neve no cume do vulcão. Tirei fotos e mais fotos. Eu não imaginava que veria Fuji-san do trem em Odawara. Foi uma surpresa boa. Quando desci na estação e continuei pesquisando como chegar em Hakone, vi que não seria simples. Hakone não é um lugar só, mas uma região inteira e tinha que trocar para ônibus e isso e aquilo. Desisti.
Mas eu estava híper contente por ter visto Mt Fuji e não senti necessidade de continuar caçando Hakone. Resolvi ficar em Odawara e checar o que tinha para fazer ali. Descobri que tinha um castelo e praia!
O castelo tinha arquitetura parecida com todos os outros. A diferença é que não tinha quase nenhum turista ali. No pátio do castelo estavam filmando algum filme ou série de samurais. Não me deixaram tirar foto deles, mas achei legal ver os caras com as carecas falsas. No jardim do castelo havia uma gaiola com vários macacos da cara vermelha. Eu não gosto de ver animais presos. Não entendo a necessidade disso.
Fui até a praia, tirei meus sapatos. A areia era bem grossa, machucava o pé um pouco, mas eu estava tão precisada de descarregar as energias na água do mar, que não me importei. Caminhei uns 2 km. Teria caminhado mais se o caminho não tivesse interditado.
Tinha pouca gente naquela praia. Somente umas pessoas pescando e uma gurias vestidas de preto segurando uma sombrinha preta que me lembrou a Perpétua da novela Tieta.
Fui embora de Odawara muito contente e mais leve. No trem de volta a Tóquio vi o quanto de sorte tive em ver o Fuji de manhã. De tarde havia uma névoa no horizonte e a vista não estava tão nítida. Quando o trem chegou em Tóquio, resolvi esticar o passeio até Shibuya para ver o famoso cruzamento e a estátua do cachorro Hachiko.
Na hora de ir embora, pensei, e agora? Tô lascada. É um dia de semana, hora de pico, esse mundo de gente aqui. Entrar no metrô será sufoco. Se você procurar por vídeos no YouTube vídeo de trem em Shibuya na hora de pico, você vai entender porque eu estava apreensiva. Resolvi que caminharia até outra estação menos lotada e foi aí que vi que eu não estava muito longe do parque Yoyogi e do templo Meiji Jingu. Pensei que seria legal ver esses lugares e caminhei até lá. No templo estavam tocando música num palco improvisado.
Passei por um lugar com uma placa de “bife kobe”. Pensei em provar essa carne que é considerada uma das melhores do mundo. Imaginei que seria caro pra dedéu, mas quem disse que o restaurante estava aberto? Ainda eram quatro e pouco da tarde. Eu estava cansada demais para esperar esse restaurante abrir. Voltei para Akihabara, tirei umas fotos dos prédios no pôr do sol e vi o edifício que eles chamam de prédio da carne. Não servem bife kobe lá mas servem outros tipos de bife local, chamados wagyu. Comi o prato do dia, que estava bem gostoso. Veio pouca carne, mas valeu para provar. Como refresco me serviram uma bebida de melão em cor verde radioativo e eu sentei apreciando a vista. Da janela vi um pessoal andando de go-kart no meio da rua. Eu tinha ouvido falar que go-kart tinha sido proibido em Tóquio. Aparentemente eles estão de volta.
E esse foi o meu último dia no Japão. No dia seguinte eu tinha que estar no aeroporto 8 da manhã.
No aeroporto de Narita
Eu cheguei no Japão pelo aeroporto de Haneda mas estava indo embora de Narita, que fica longe da cidade. Antes de pegar o trem expresso para o aeroporto, começou chegar umas mensagens no meu celular dizendo que um dos meus voos estava cancelado e que eu poderia escolher um voo de Amsterdã para Copenhague dois dias mais tarde. Fiquei toda confusa, como assim dois dias mais tarde? Eu estou “voltando no tempo”. Copenhague está 9 horas atrás de Tóquio e após 15 horas de voo eu vou chegar no mesmo dia. Como querem me dar um voo dois dias mais tarde? Querem que eu fique em Amsterdã esperando?
Não estava entendendo e deixei para resolver no aeroporto.
A fila na Air France estava realmente grande e andando muito devagar. Eu não entendia que cada passageiro estava usando mais de 10 minutos com o atendente, até que chegou minha vez.
Havia um vendaval em Amsterdã e 400 voos tinham sido cancelados. Meu bilhete era com conexão em Amsterdã. A atendente me deu muitas opções e por isso ficava difícil de escolher.
- Pega o voo agora e quando chegar em Amsterdã vê o que dá para fazer em meio ao caos: se dorme em Amsterdã, se tenta ir para outro lugar para pegar voo para Copenhague, se pega um trem para Copenhague.
- Pega o voo amanhã e torcer para que a tempestade tenha passado. E ela me deu opção de fazer conexão em Amsterdã, em Paris, ou pegar um voo pela companhia Japan Airlines com conexão na Finlândia.
- Por último ela falou que eu poderia ir depois de amanhã com conexão em Paris.
- Eles iriam pagar para mim um hotel perto do aeroporto de Narita.
Não se deve dar tantas opções assim para uma libriana. Meu cérebro ficou doidinho. Eu achava loucura ir para Amsterdã hoje onde 400 voos estavam cancelados. Entre ficar num hotel em Amsterdã no frio e tempestade e ficar no Japão com sol e 24 graus, fico com a segunda opção.
Ela queria me colocar num avião de outra companhia que eu não conhecia. Eu disse que eu escolhi Air France porque na classe executiva deles o banco vira caminha e eu podia viajar com a perna esticada. Eu disse que isso era muito importante para mim. Ela não sabia se Japan Airlines tinha o mesmo serviço então descartamos essa opção.
Quando ela falou que ir no dia seguinte eu ainda poderia ter problemas com a tempestade, eu fiquei mais inclinada em aceitar a ficar dois dias mais no Japão e ir embora depois de amanhã. Mas foi aí que percebi que eles não queriam pagar duas pernoites de hotel para mim. A atendente colocava ainda mais opções na mesa e me fazia perguntas tentando me fazer mudar de ideia. Chegou a perguntar se eu aceitaria voltar para Copenhague em classe econômica. Se ela soubesse o quanto eu economizei para comprar passagem em classe executiva, ela nunca teria me feito essa pergunta. Eu não me dei nem o trabalho de responder. A minha cara dever ter dito tudo.
Ficar dois dias a mais na terra do sol nascente me me interessava, essa era minha escolha, mas eu não estava interessada em ficar num hotel em Narita longe de tudo. Quando vi que eles não queriam pagar duas pernoites, não pensei duas vezes e disse que eu ia pagar meu próprio hotel. Assim eu teria liberdade de escolher para onde ir.
Acho que nunca antes ela viu um cliente recusar hotel de graça. Ela perguntou duas vezes para confirmar se eu tinha certeza.
Eu tinha certeza absoluta e já sabia onde queria ir: Alpes japoneses. Tanto Chieko quanto Shane, um dos meus companheiros de viagem em grupo, falaram bem de Kamikochi e me mandaram umas fotos lindas de lá. Resolvi seguir o que Shane tinha me explicado. Ir para Takayama e de lá para Kamikochi. Eu nem pesquisei direito, pulei no primeiro trem de volta para Tóquio, entrei no trem bala para Nagoya onde eu trocaria para um trem local até as montanhas.
Ainda bem que eu não pesquisei direito, ou não teria ido. No dia anterior eu não queria ir pra Nikko e usar 6 horas de transporte, lembra? Acabei que usei 7 horas de transporte até Takayama! Perdi o dia todo dentro do trem. Cheguei em Takayama 6 da tarde e já estava de noite. Não vi nada, ou melhor, não vi quase nada.
Lembra aquela vista linda do Monte Fuji que eu estava caçando? Pois não é que de repente ele apareceu na minha janela? Eu estava no shinkansen (trem bala) indo de Tóquio até Nagoya.




