Derretendo

Nunca mais vou reclamar que na Dinamarca não tem verão, que nunca fica quente, que nunca tem sol.

Tá uma onda de calor terrível. Estou derretendo. De noite, ninguém dorme. Quente demais. Não chove desde abril. A maior seca, vocês não têm ideia. Temperaturas acima de 25 graus desde abril, sem parar.

Ouvi dizer que isso não acontecia aqui desde os anos 70.

No início, eu estava achando ótimo. Me estirava no sol todos os dias, pra aproveitar, já que esse tipo de coisa costuma ser raro aqui. Mas agora, depois de 3 meses, não aguento mais verão. Gente, quando é que vai cair uma chuvinha pra refrescar?

Coitados dos agricultores. Muitos perderam toda a plantação desse ano. Sem chuva nenhuma todos esses meses.

Bom… deixa eu parar de reclamar, porque isso a gente faz o tempo todo aqui, principalmente no meu escritório, onde depois das 2 da tarde vira um verdadeiro inferno e todo mundo vai embora, porque não tem condições de se concentrar quando está tão quente que não dá nem para respirar.

Emoções

Minha semana anda cheia de emoções.

Sexta-feira passada foi a festa de verão da minha empresa. Nos levaram a um local super alternativo: um galpão onde antigamente se faziam os consertos dos vagões de trem. Agora esse local foi decorado para receber eventos grandes, com música ao vivo e atividades tanto dentro do galpão quanto fora, no jardim. Muito bacana o lugar.
Mas eu acabei que fui embora cedo e chateada.

Estava eu dançando com as colegas do trabalho, me balançando ao ritmo da música, quando sem querer a minha mão dá uma esbarrada no bumbum da menina atrás de mim.
Foi algo bem de raspão mesmo, eu nem precisava me desculpar, mas por cortesia, me virei, ainda dançando, e disse: desculpa.
Ela, em resposta, agarrou os meus dois seios e disse: não foi nada.
Eu ri.

Ri, mas na verdade não me senti bem. Achei que foi uma agressão a resposta dela, sem falar que tocou nas minhas partes íntimas. Me senti abusada. E me pegou despreparada. Eu nem tentei me defender, porque jamais esperava.
Outra coisa que me chateou foi a maneira como ela falou “não foi nada”. Não tinha um tom de brincadeira em sua voz, o que deu a impressão de que a atitude dela era de violência.

Fui embora logo depois desse episódio, pois percebi que meu humor mudou completamente.

Como se isso não tivesse sido suficiente para apimentar a minha vida, ontem, terça-feira, eu me meti em mais uma enrascada.
Estava eu voltando da yoga de bicicleta lá por umas 9:20 da noite. Mega cansada, nem pensava mais direito.
Resolvi que ia cruzar o cemitério (que mais parece um jardim – muito bonito) porque a ladeira para subir ao cemitério era menos íngreme que a da avenida principal. Sem falar que pedalar no meio das árvores e flores do cemitério, é muito agradável. Esse cemitério fecha 10 da noite, então tinha tempo de sobra.

De repente vejo que uma rua alternativa dá acesso ao cemitério, e entro nela. Lá em cima, no final da rua, estava o portão principal. Mais eis que olho para a esquerda e vejo várias entradas laterais.
Entrei numa delas.

Ali nem estava tão bonito e arborizado, mas tudo bem. Tudo escrito em um alfabeto estranho. Era o setor judaico do cemitério e eu não sabia.
Quando cheguei no fundo, descobri que essa parte do cemitério não dava passagem para os outros setores. Tive que voltar ao portão por onde entrei. Cheguei lá e o portão estava trancado.
Me trancaram dentro do cemitério!
Pânico!

Tentei forçar, tentei abrir, chamei ao redor, e nada. Gente, 3 minutos atrás o portão estava aberto, como agora estava trancado e ninguém por perto?

Passa um ciclista e eu pergunto pra ele se ele sabe como abrir a porta. Ele diz que não, mas insiste que havia uma passagem desse setor até o outro, lá no fundo. Eu disse que não, que já tinha ido lá. Mas ele insistiu tanto, que voltei lá no fundo, para quebrar a cara. O setor judaico todo estava isolado por uma cerca.

Resolvi telefonar para a polícia para pedir ajuda.
Minha voz já estava exaltada. Definitivamente eu não estava com vontade de passar a noite num cemitério sozinha, com medo e com frio.

Expliquei o problema para a atendente e ela me passou para o departamento de polícia local. O policial que me atendeu brinca comigo, mas depois diz para eu voltar no portão e ver se tem alguma placa com número de telefone.

Nisso eu ainda estava no meio, perto da capela, mas enquanto caminhava, eu explicava que estava numa parte do cemitério onde tudo estava escrito nesse idioma estranho pra mim.
Eis que chego no portão e de repente vejo um botão preto enorme com uma placa dizendo: aperte para abrir o portão.

Putz, sacanagem. Incomodei a polícia à toa.
O que o desespero não faz. A gente fica cega. Um botão enorme daqueles, e eu não o tinha visto.

Abre-te sésamo. Problema resolvido. Mas que passei nervoso, passei.

Donkey Republic

Todos esses anos, e o povo dizendo que o melhor modo de se locomover em Copenhague é de bicicleta. Morando na Dinamarca há mais de 17 anos, e só agora pude comprovar que é verdade. Bicicleta para mim, era algo que eu mantinha no porão, para alguma emergência.

De carro leva tempo demais por causa de trânsito, sinaleiros e depois, leva uma eternidade procurando lugar para estacionar.

Com busão, metrô ou trem, além do tempo de transporte, tem que contar o tempo que leva andando até a estação ou ponto e o tempo de espera.

Eu nunca tinha andado de bike, porque achava que seria um martírio. Aqui chove o tempo todo no verão, está sempre um vendaval (e pedalar contra o vento é uma grande M) e no inverno, congelo só de pensar em sair de bike.

Mas nessa primavera (2018) está fazendo um calorão infernal. Faz dois meses que não chove, e tem muito pouco vento. Durante esse tempo apareceu também um novo sistema de aluguel de bicicletas, mais barato que o sistema das city bikes. O novo sistema é de uma empresa chamada Donkey Republic.

Aproveitei então para provar o sistema de aluguel deles, e aluguei uma bicicleta. Tenho aproveitado o bom tempo para pedalar pra tudo quanto é canto. Um dia pedalei 32 km. Fui até a praia. Foi um dia muito gostoso.

De bicicleta a gente descobre lugares onde os carros não vão, e eu curto demais esse negócio de achar lugares novos.

E estou pasma em descobrir o quanto mais rápido é chegar nos lugares de bicicleta, e olha que eu padalo bem devagar. Um exemplo: do meu cafofo até a yoga, de transporte público me leva de 35 a 45 minutos. De bicicleta chego lá em 18 minutos!!

Diferença brutal.

Mas quando o tempo está ruim, frio e chuva, esses 18 minutos duram uma eternidade. Senti isso ontem! Não estava previsto chuva essa semana, saí de casa com roupitcha normal. Mas me faltou sorte em grande estilo. Voltar pra casa de bike foi um martírio. Eu tremia de frio. Sem falar que eu não enxergava nada. Chuva e óculos são duas coisas que não combinam.

Bom, renovei minha mensalidade do aluguel da magrela. Vamos ver se eu consigo manter o ritmo de usar bike o verão todo.

Andar de bike é bom para pegar um ar fresco, fazer um pouco de exercício, chegar mais rápido no seu destino, mas também não é aquele mar de rosas.

A quantidade de bikes nas ciclovias da cidade é inacreditável. Tem gente que te corta, que te empurra. Eles não estão nem um pouco preocupados se você vai cair e se quebrar todo.

Sem falar nos carros estacionados. Os caras estacionam ao lado da ciclovia, abrem a porta do carro com tudo, sem pensar que está vindo uma bicicleta.

E os motoristas doidos que esquecem que têm que parar para as bicicletas (bicicleta e pedestre aqui tem prioridade). Então todo cuidado é pouco.

Mesmo com todos os inconveniêntes, estou adorando. É como se estivesse conhecendo uma nova Copenhague. Pelo menos, por um ponto de vista diferente, sobre duas rodas.

Brigadoido

Tô matando cachorro a grito com vontade de comer coisa doce. Ando assim, não sei o que é.

Achei uma lata de leite condensado e resolvi fazer brigadeiro. Eu gosto daqueles mais molengas, da receita que leva um pouco de leite.

Vasculhando a geladeira, vi um resto de leite de coco que sobrou de sexta quando fiz uma pina colada pra mim.

Gente… E não é que o brigadeiro com leite de coco ficou bom. Dos bão mesmo.

Recommendo!

Quente

Nossa senhora, pensei que nunca iria dizer uma coisas dessas, mas tá quente na Dinamarca. Mal vejo a hora dessa onda de calor passar.

Temperatura em torno de 28 graus, mas a sensação é de que está muito pior. É uma combinação estranha de baixíssima umidade do ar e pressão atmosférica.

Difícil para dormir, para se concentrar no trabalho quando do lado de fora está fazendo um sol de rachar. Mas nada comparado com Brasil fazendo 37 – 40 graus.

Eu acho interessante algumas coisas que acontecem pros lados de cá quando está calor. Olha a diferença.

Os estudantes de uma escola na Noruega, no dia da prova, foram mandados para casa, porque estava calor demais dentro da sala de aula.

Sabe qual a temperatura? Míseros 30 graus.

Já pensou se no Brasil eles mandassem as crianças pra casa porque dentro da sala de aula estava fazendo 30 graus? kkkkk

Fonte: https://www.nrk.no/ostfold/fredrikstad-skole-avbrot-eksamen-pa-grunn-av-varmen-1.14061432

Mestrado”

Estou nesses dias me preparando para fazer uma prova na sexta-feira que vem. Estudando e revisando. É uma prova do curso de mestrado que estou fazendo, ou tentando fazer.

Quando a gente muda para o exterior, pode ser complicado ter o curso superior reconhecido e trabalhar na sua área. Eu dei certa sorte, mas nunca consegui ter meu curso de farmácia bioquímica totalmente reconhecido.

Uma das barreiras é que aqui, depois de cinco anos de estudo, o povo já sai com o titulo de mestre, e no Brasil, apesar do curso ser praticamente equivalente nas matérias e tempo de estudo, não se consegue o título de mestrado tão facilmente. Só se consegue o título de bacharel.

Depois de mais de 8 anos tendo minha papelada sendo avaliada, e muita frustração, recebi o resultado de que 80% do meu curso foi reconhecido mas que eu deveria fazer minha tese de mestrado na Dinamarca para ter título de mestre.

Meu, depois de passar 18 anos sem estudar, não dá pra simplesmente chegar na universidade aqui e dizer, olha eu vim pra fazer uma tese. Ainda mais que aqui as teses são tudo trabalho de grupo. Tem que se enturmar, tem que aprender a estudar novamente, tem que talvez começar o curso do zero. Mesmo porque as coisas evoluem e o que eu aprendi 20 anos atrás, certamente já não vale mais. Naquela época não tinha nem o mapa do genoma.

Então em 2015 eu tomei vergonha na cara, e procurei um curso de mestrado que me interessasse.

Eu tinha acabado de começar a trabalhar numa outra indústria farmacêutica, e ao invés de trabalhar com assuntos regulatorios, agora eu estava no departamento de estudos clínicos. Então achei cursos de mestrado em estudos clínicos. Achei aqui na Dinamarca, na Escócia e na Inglaterra.

Na Dinamarca, na época eu não tinha a cidadania, e eu teria que pagar pelo meu curso (mestrado gratuito é somente para quem é dinamarquês). O preço aqui é o dobro do que eu pagaria em Londres.

Optei por Londres pelo preço e porque eu já tinha ouvido falar bem da universidade.

Então o que fiz? Mandei minha papelada pra Londres, curso à distância. Passei pelo processo seletivo e fui aceita. Fiquei muito contente.

Mas como as coisas são… Pouco depois eu fiquei muito doente, e descobri que tinha endometriose severa, que teria que fazer cirurgia. Foram meses para descobrir o que eu tinha e meses esperando pela operação.

Honestamente, eu achava que ia morrer no período pós operatório, já que tenho uma predisposição para formação de trombo e embolia (tive em 2006, mas isso é outra história). Então decidi que nos meus meses “finais” eu ia somente me dedicar a atividades que me davam prazer e me deixavam feliz. Foi aí que eu voltei a dançar e achei forró na Europa. Aí ferrou tudo.

Depois disso foi uma maratona de forró, e como não morri, rsrsrs, dá-lhe forró para comemorar.

Usei muito do meu tempo viajando, caçando festivais, organizando festivais. Não tinha tempo para estudar. E assim passaram dois anos. E eu pagando pelo curso em Londres.

Mas eu pensava, no ano seguinte eu vou estudar.

Mas continuei viajando, e ainda de quebra usei muito tempo e energia procurando um lugar para morar e superando o divórcio.

Somente agora, dois anos e meio mais tarde, que cansei de viajar de duas em duas semanas caçando forró e gastar tanto dinheiro – e pior, não me divertir como antigamente – que resolvi que chegou a hora de me dedicar ao curso de mestrado.

Entrei em contato com a universidade para saber qual a melhor opção, pois eu tenho somente até 2020 para terminar o curso. Eles me recomendaram começar com uma matéria somente esse ano. Para eu voltar a me acostumar a estudar. E é isso que estou fazendo. Vamos ver como vou me sair na prova.

Me desejem boa sorte.

Enganosa

A gente não deve acreditar em tudo que se lê na Internet.

Ontem vi algo no Facebook, e não resisti. Fui obrigada a republicar e comentar. Hoje estou sendo bombardeada de gente perguntando: “mas então, como é a realidade?”

Minha resposta foi simplesmente:

Não há salário mínimo, como há no Brasil.

A jornada de trabalho semanal é de 37 horas.

As creches para bebês são super caras e são obrigatórias. Você não pode deixar sua criança com aquela madrinha tomando conta.

As universidades só são gratuitas para cidadãos dinamarqueses. Sendo estrangeiro, você tem que pagar pelo seu mestrado. Não sei para curso bacharelado, no entanto.

Planos de saúde são pagos, sim. Mas o sistema de saúde pública, apesar de não ser um mar de rosas, é decente. Por exemplo, quando eu estive doente, o meu plano de saúde não cobria tantos acompanhamentos quanto eu recebo agora no hospital público.

Outra coisa incorreta é o título. A Dinamarca não está mais no topo do relatório do World Happiness. A Finlândia é o país mais feliz do mundo em 2018.

Dez curtidas até agora nesse comentário. 22 comentários ao total. Alguém me lembrou que para universidade aqui, dependendo do tipo de visto, do curso e da universidade, pode ser gratuito para estrangeiros.

Para responder todas as perguntas, fui obrigada a achar o relatório anual do World Happiness. Porque a gente sempre fala nisso, mas muito pouca gente sabe quais são as categorias avaliadas para dizer que o povo é “feliz”. Tem gente que pensa que feliz aqui se trata de alegria, felicidades. Não é nada disso. Ou então o Brasil não estaria no rank 28, e o Japão em 54.

Teve comentário dizendo que achava difícil um país tão frio ser o mais feliz do mundo. Prova de que o povo anda mal informado. A Dinamarca esteve no topo da lista por dois anos consecutivos. Mas esse ano foi superado por Finlândia e Noruega. Ambos países escandinavos e frios.

(Se bem que eu não entendo pq o povo acha que aqui é tão frio. Comparado com Canadá e Rússia, aqui não faz frio! O problema daqui é que não tem sol.)

Bom, eu respondi ao comentário citando algumas das categorias avaliadas pelo World Happiness.

Eles avaliam, entre outras coisas: renda per capita, ajuda social, longevidade, liberdade de fazer escolhas, generosidade, corrupção.

O relatório desse ano se pode ler, em inglês, aqui.

Resultado de tudo isso. Não acredite em tudo que se lê na Internet.

Smoothie blender

Comprei um liquidificador especial só pra fazer vitaminas, milkshakes e smoothie.

Antes eu achava uma bobagem isso, já que dá pra usar o liquidificador comum pra essas coisas, mas agora que eu experimentei o novo equipamento, digo que é muito melhor usar o específico.

Percebi a diferença já no primeiro dia. Milkshake de mirtilo (blueberry) congelada com leite e açúcar ou mel.

Fazendo no liquidificador comum, é difícil liquidificar completamente a fruta congelada e sempre ficam uns pedaços grandes, mesmo deixando bater por um tempo.

No troço pra fazer smoothie, em 30 segundos está pronto e perfeito. Fiquei impressionada.

Valeu a compra.

Tempo

Acho que esse ano tô sem sorte nas viagens. Só estou pegando tempo feio, frio ou temporal. Ninguém merece.

Hamburgo no ano novo estava muito frio e chuva.

Berlim em janeiro estava do mesmo jeito.

Londres no início de março estava uma nevasca que os voos chegaram todos atrasados ou foram cancelados.

Praga no final de março estava chovendo.

Depois de tanta falta de sorte, a expectativa pra próxima viragem é grande, porém já sei que estou embarcando pra uma temporada de chuva, enquanto na Dinamarca, onde raramente faz sol, o tempo estará melhor do que no Brasil!

E assim será depois de amanhã, quando embarco para dez dias de chuva e dez graus de temperatura em Portugal e Irlanda, e a previsão em Copenhague é de muito sol e calor. Fala sério.

Ainda pra deixar tudo mais picante, hoje de noite será decidido se a Dinamarca vai entrar na pior greve da história, onde vão fechar o país. Ou seja, se a greve começar domingo dia 22 de abril, como programado, talvez eu não possa voltar pra casa. Só quero ver no que vai dar.

Blackout

Estava eu ontem, numa maratona de hot yoga, quando tudo se apagou lá pelas 18:30. Ainda estava de dia e a aula continuou, e sem os ventiladores, ficou uma verdadeira sauna. E na hora de tomar banho, não tinha luz no vestiário. Era um mundo de lanterninha de celular espalhado pelo chão, e uma velhinha, que estava indo à yoga pela primeira vez, perguntando como faz para regular esse chuveiro.

Na hora de ir embora, me perguntaram se eu costumo sair para a rua principal ou por trás. O portão principal é eletrônico e, obviamente, não estava abrindo! Gente! Mas foi só terminarem de me explicar como encontrar o portãozinho atrás da igrejinha, que a luz voltou. Foi mais ou menos uma hora de blackout.

Nisso eu comentei que a última vez que tinha experimentado um blackout na Dinamarca tinha sido em torno de 2003 ou 2004, e a dona do estúdio de yoga me diz: foi exatamente no dia 23 de setembro de 2003 eu estava no hospital Rigshospital dando luz ao meu primeiro filho e as camas elevadoras do hospital eram tudo elétricas!

Eu não quis nem escutar o fim da história. Só de imaginar a tormenta que foi pra ela. Coitada. Eu lembro bem daquele blackout. Eu estava no trabalho. Na verdade, naquela época era só um estágio. A eletricidade acabou logo após o almoço. Não dava pra fazer nada nos laboratórios nem no escritório. O nosso chefe nos convidou para ir fazer uma caminhada ao redor do parque/pântano atrás da empresa. De certo ele achava que era uma coisa que iria passar logo. Mas a luz não voltava e o povo começou a ir embora, já que não dava pra fazer nada mesmo (se bem que havia uns doidos que pegaram um pano de pó e foram limpar os armários do laboratório).

Lembro que a eletricidade só voltou umas 8 da noite, naquele dia. Quem tinha fogão elétrico, não pode nem fazer comida (o povo aqui janta cedo, em torno das 17h – 18h. O nosso fogão era à gás, só não se fazia comida nele por pura preguiça! rsrs
Nem me lembro o que comemos naquela noite. Certamente, o que comíamos sempre, naquela época: pizza!

 

Descoberta

Desde a virada do ano que eu estou à procura de um novo hobby para passar o meu tempo, para me dar um pouco de ânimo, encontrar alguma alegria, e evitar cair em depressão profunda.

Evitar depressão completamente durante o longo inverno cinzento, escuro e chuvoso da Dinamarca é fantasiar algo que não existe. A realidade é que a cada inverno a gente batalha para sobreviver, para não se deixar a abater. Luta para tentar achar uma razão para viver e não deixar pensamentos suicidas tomarem forças. Essa é a verdade.
Esse ano eu passei pela pior depressão invernal que já tive. Chegaram e me aconselhar a ir ao pronto-socorro psiquiátrico. Eu achei que não estava tão mal assim. Mas uns dias se passaram, e eu mesma cheguei a conclusão que era uma boa ideia procurar ajuda. Minha chefe até se prontificou a largar tudo aqui no trabalho e ir comigo à emergência psiquiátrica.
Acabou que não foi preciso. Consegui uma consulta de emergência e estou aqui na luta para sair do fundo do poço. Lendo muitos artigos de gente que conseguiu superar depressão.
O ruim de pedir ajuda, é que todos ficam preocupados, pensando que você vai se matar.
Ficam o tempo todo me perguntando se estou bem. Isso cansa. Isso irrita. Isso deprime ainda mais.

E também não ajuda nada que quase todo dia, durante o inverno, a gente recebe notícia de alguém que se enforcou, que se jogou na frente do trem, que tirou a roupa toda e se afogou no mar. Ainda hoje uma colega de trabalho chegou aqui contando que o coleguinha de escola da filha dela se enforcou na garagem de casa semana passada.

Ontem, durante mais uma visita ao médico, para saber se eu tinha encontrado algum psicólogo que trabalha com terapia metacognitiva (tem muito pouco psicólogo na Dinamarca, e que trabalha com terapia cognitiva ou metacognitiva então, é como encontrar agulha no palheiro… tempo de espera para a primeira consulta é de 8 meses!!!), me convenceram a procurar algo que me acalme a mente. Porque meditação, mindfulness, e tentar manter o pensamento positivo, nada disso está funcionando.
Ela, a médica, sugeriu que eu lesse um livro de Frankl, um sobrevivente do holocausto. Já encomendei o livro, mas só de pensar no tipo de problemas que ele passou, já coloca os meus problemas em outra perspectiva.
Hoje, durante minha pausa do almoço, coloquei um tênis e fui fazer uma longa caminhada e fiz uma descoberta interessante. Acho que encontrei um novo hobby ou atividade para me animar: vou, sempre que o tempo permitir, explorar a cidade, lugares que não conheço. Jardins, parques, praias, bairros antigos e novos.

Quando eu viajo, eu sempre volto energizada, e acho que agora entendi o porquê. É o fato de explorar e conhecer lugares novos, ver gente diferente, ares diferentes. No entanto eu não preciso ir pra longe para fazer isso. Há tantos lugares em Copenhague e na Dinamarca que eu não conheço.
A verdade é que eu não conheço nenhuma das cidades onde morei. Curitiba, Guarulhos, São Paulo, Copenhague. Eu vivia trancafiada dentro de casa. Era casa-escola-casa ou casa-trabalho-casa. Eu tinha preguiça de sair, ou não tinha companhia.
Acho que chegou a hora de fazer algo diferente.
Me desejem sorte nessa minha caminhada, porque eu estou precisando de uma motivação pra continuar a jornada.

Praga

Tirei um dia de folga do trabalho, fiz meu registro no festival de forró de Praga, chamado Fica no Coração, e comprei minhas passagens para Praga na República Tcheca.
Sabia que seria um festival menor, mas minha motivação foi visitar uma cidade que eu não conhecia e que todos dizem que é muito bonita.

Eu me apaixonei por Praga. Linda, linda, mas linda demais. E olha que estava um frio danado, chuva e tempo cinza. Durante os três dias da minha viagem não fez nem um pouco de sol, mesmo assim a gente se encanta com a cidade.
Tenho vários motivos para voltar.
– Quero tirar fotos. Não tirei nenhuma por causa da chuva.
– Adoraria ver a cidade com sol, numa época menos gelada.
– Quero ver as atrações que eu perdi.

O famoso relógio astronômico criado por Tycho Brahe (astrônomo dinamarquês♥) estava sob renovação. Não deu para ver.
Eu queria ter visto o cemitério judeu, mas fui num sábado e me esqueci que sábado é Sabbah e as sinagogas e o cemitério estavam fechados para o dia de descanso.

Me indicaram subir a colina até o castelo num domingo e ver a troca da guarda ao meio-dia, no entanto eu recebi essa indicação no sábado, justamente quando eu tinha acabado de descer do castelo e estava super, híper acabada. Subi tudo a pé. Não foi moleza. Não aguentaria ir novamente no dia seguinte, mesmo sendo a vista da cidade lá de cima absolutamente fascinante.

Praga é pequena, calma, segura. Caminhei a pé de dia e de madrugada (para ir para as festas de forró). Me senti muito segura o tempo todo.
Havia sempre gente na rua.
Aliás, havia muitos grupos de homens de madrugada. Raramente eu vejo grupos de homens assim. Parecia até coisa de máfia russa. Mas talvez tenha sido impressão minha. Talvez sejam grupos de viajantes, pois um dos atrativos da cidade é beber até cair. rs

Melhor horário para ver a ponte Charles é de madrugada ou ao amanhecer. No resto do dia é impossível caminhar na ponte, quanto mais ver a ponte. Turistas demais.

Praga é bem barato, comparado com o resto da Europa.
Ouvi um amigo me dizendo: essa é a primeira vez que venho pro leste europeu. Gente, por favor, Praga é Europa Central. Não diga lá que eles são leste europeu, que é uma ofensa grande.

Algo que não se deve perder em Praga são as cervejas. Eles fazem uma fermentação diferente. Além de barato, são muito boas. Eu não tomo cerveja, mas provei muitas outras coisas. Nem tudo caiu no meu gosto, mas provei mesmo assim: licor de creme de ovo, quentão local, limonadas de frutas diversas, joelho de porco, borsch e goulash estilo tcheco.

Também andei muito. Pela cidade velha, pela cidade nova e reconheci as ruas dos vídeos históricos onde a gente vê as tropas nazistas invadindo a cidade. Foi uma sensação interessante.

A arquitetura me fascinou. Praga não foi destruída por bombardeios, então os as fachadas dos prédios são originais. Arquitetura antiga misturada com arquitetura francesa art-nouveau. Praga tem muita história.

Entrei em várias igrejas. Algumas grandiosas, que até me fizeram lembrar da Catedral da Sé de São Paulo, mas religiosidade lá dentro, não senti nenhuma.
Em compensação, entrei numa igrejinha ortodoxa perto do albergue da juventude onde fiquei hospedada, e lá dentro foi uma experiência que não sei descrever. Religiosidade, cheiro de incensos, alguém na sacristia rezando em tcheco sem parar que fazia eco dentro da igreja. Muitos tapetes tipo persa espalhados no altar. Foi fascinante.

E como de costume, eu tentei aprender algumas frases no idioma local, para ter mais experiências durante a viagem. Gente, nunca mais eu vou reclamar que a pronúncia dinamarquesa é impossível. Toda vez que algum estrangeiro vier reclamar de dinamarquês, eu vou mandar eles aprenderem tcheco. Não foi dizer que é impossível, mas foi tão complicado que eu só consegui aprender meia dúzia de palavras avulsas ao invés de 20 a 30 frases como de costume. Mesmo sabendo pouco, usei todas as palavras que aprendi com muita frequência, porque, por incrível que pareça, o povo em Praga não sabe falar mais nenhum outro idioma. Perdi a conta de quantas vezes tive que usar mímica para me fazer entender e nem sempre funcionava bem.
Saber falar 7 idiomas não me serviu de nada em Praga. Essa foi a primeira vez que provei algo desse tipo. Sempre encontro algum idioma em comum, mas não dessa vez.
Mesmo assim valeu. Espero poder voltar em breve.

Praga, recomendo!

Novo Look

Quem tem cabelo cacheado ou crespo entende bem o que eu vou falar. Sempre que a gente vai ao cabeleireiro, a gente sai de lá ridícula. Quem tem cabelo liso, vai ao salão e sai magnífica. Cabelo crespo, gasta horrores, tanto de dinheiro quanto de tempo, e sai de lá parecendo um cão poodle. Para tentar salvar o dia, chega-se em casa correndo, e lava-se o cabelo para tirar o efeito indesejado causado pelo cabeleireiro. Fala sério.

Acho que quando morava no Brasil, eu só saia do salão satisfeita se tivesse matado meus cachos (feito escova simples – naquela época não existia essas coisas de marroquina, keratina, progressiva e deus sabe lá o que mais inventaram).

Eu nunca alisei meu cabelo. A verdade é que sempre gostei dos meus cachos, apesar de passar por muito bullying. O povo não pode ver você feliz, tem que tentar te colocar pra baixo, e acabar com sua autoestima.

Nesses 40 anos de praia, somente duas vezes eu saí do cabeleireiro feliz, com um bom corte. A primeira vez foi no dia 30 de abril de 2012. Fiquei tão contente que até postei as fotos aqui no Blog (por isso eu lembro a data! rsrsrs).

Mas aquele cabeleireiro, que era brasileiro – mas só falava espanhol pq tinha vivido muitos anos na Espanha – eu nunca mais encontrei. Ele sumiu. Parece que ficou na Dinamarca somente por alguns meses.

Mas finalmente encontrei outro. Eu estava numa festa de aniversário e fui apresentada para uma moça que vem do Kuwait. Cabelo cacheado dela, parecia o meu, mas um corte bem bacana. Resolvi perguntar quem era o cabeleireiro, e ela me passou o nome Clauds.

Faz um ano isso… mas o preço dele, nossa senhora. Então fiquei enrolando, enrolando. Fui ao Brasil, cortei o cabelo lá, mas não ficou grandes coisas (como sempre)… até que tomei vergonha na cara e paguei as 500 coroas (normalmente, mão de vaca como eu sou, pago entre 100 e 350 e com dor no coração!!). Olha, valeu demais a pena pagar os olhos da cara. O rapaz decepou meu cabelo. Acho que 70% da minha juba ficou no chão do salão, mas ficou muito prático e muito bom. Que diferença pagar um profissional

especializado.

Clauds…pelo nome, achei que ele era francês. Mas olha que mundo pequeno, ele nasceu em Curitiba! Mas cresceu em Barcelona, Espanha. Só sabia falar espanhol. rsrsrs.

Aparentemente para cortar bem o meu cabelo é preciso ser brasileiro e ter crescido na Espanha. Rs