Raios

Ontem, antes de sair para aquela caminhada da gruta até o farol na ilha de Capri, o velhinho, dono da pousada onde eu estava hospedada, me disse assim: olha, amanhã o mar não estará bom para entrar na gruta ou fazer passeio de barco.

Olhei a previsão do tempo e não vi nada que me deixasse preocupada. Não sei se esse homem tem uma ligação especial com São Pedro, só sei que ele estava certo e o website que eu consultei, não.

Marquei um passeio de barco antes de ir embora. Saí de mala e cuia, pois eu pegaria a balsa para Sorrento logo após o passeio.

O dia estava meio nublado e não tinha vento. No barco somente dois casais americanos que estavam de lua de mel e a tia Cris, junto com o navegador. Não tinha vento, no entanto o mar estava bem agitado. Dava pra sentir as ondas grandes, pois estávamos num barquinho pequeno, dessas embarcações que eles chamam de ‘gozzo caprese’.

O povo dessa região da Itália é muito supersticioso. Quando o barco estava prestes a passar pelo buraco no rochedo, o navegador disse que os casais deveriam se beijar ao passar por baixo do arco para trazer boa sorte no amor. Aí ele olhou pra mim e disse: você pode me beijar. Eu ri.

Eu não sou uma pessoa supersticiosa, mas pelo sim pelo não, assim que o barco entrou debaixo do rochedo, os casais estavam se beijando, olhei para o marujo e ele fez um biquinho. Acho que ele estava só de brincadeira, mas eu tasquei um selinho nele. Vou deixar uma oportunidade dessas passar?

Faltavam somente uns dez minutos para o passeio acabar, começou a chover e eu vi uns raios caindo no mar atrás de nós. Me assustei. Então reparei que as outras embarcações mais rápidas começaram a acelerar para chegar no porto. E nós no teco-teco, tentando não sair voando quando vinha onda grande. Eu segurava minha bagagem para que nada caísse no mar.

Eu queria emoção e aventura? Tome emoção e aventura!

Olha, agendei a balsa para Sorrento na hora certa. Entrei na balsa e começou a chover pra valer. Mas a sorte estava do meu lado. Em meia hora chegamos em Sorrento, e lá não estava chovendo. Nem um pingo. Aproveitei para dar uma olhada na cidade e gostei muito. Talvez um dia eu volte lá para explorar melhor.

De lá peguei o trem da Circumvesuviana para vir para Pompei. Aqui, porém, não sei se terei a mesma sorte. A previsão para amanhã é de chuva torrencial e eu tenho planos de subir o Vesúvio. Será que vai dar certo?

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Laura, Laura & Paula

Quando se viaja sozinha, a melhor parte são as interações com as pessoas.

As boas interações, claro.

Engraçado como as vezes as pessoas aparecem do nada no momento quando a gente mais precisa.

Ontem eu fui vizitar a Gruta Azul na ilha de Capri. Depois de cozinhar por uma hora debaixo de sol escaldante na fila, para ficar meia hora no barco esperando a vez de entrar e passar somente 5 minutos lá dentro, eu resolvi caminhar os 5 km da gruta até o farol.

Grotta Azzurra

Eu estava meio preocupada que não tinha absolutamente ninguém naquela trilha. Cheguei a cruzar caminho com um animal selvagem que passou a dois metros de mim, bem rápido e parecia uma raposa despenteada.

A primeira metade da trilha passou por várias ruínas de fortes ou pequenos castelos. Parei num que estava num rochedo e justamente ali estava um casal de italianos.

La embaixo vi gente nadando na água verdinha e com surpresa perguntei em voz alta como aquele povo chegou lá embaixo do rochedo. O casal me escutou e me indicaram o caminho.

Nadei lá embaixo

Lá embaixo, fiquei com vontade de entrar na água, o que é coisa rara pra mim. Mas assim que um dos carinhas que estava nadando me viu, ele veio puxar papo. Esses italianos forçam muito a barra quando querem paquerar. Eu não me senti bem.

A primeira coisa que ele perguntou foi se eu estava sozinha. Eu disse que sim, mas vendo a cara dele, rapidamente eu disse que meu grupo estava em cima do morro.

Ele disse que poderia me fazer companhia enquanto eu nadava e que me emprestaria seus óculos de nadar.

Não me senti confortável de entrar na água ali onde só tinha aquele cara. Ele era um guri novo, de uns vinte e poucos anos, bonitinho até. Mas não. Minha segurança em primeiro lugar.

Sem dizer nada, dei as costas e estava subindo as rochas meio desolada quando vejo 3 mulheres descendo e pergunto se elas vão nadar ali. Sim!

Laura, Laura e Paula. Três mosqueteiras! Elas me salvaram. Uma de Milão, uma de Parma e outra de Bolonha. Tinham se conhecido num evento de Yoga e estavam viajando juntas. Super simpáticas, batemos um bom papo.

Nadamos por uma meia horinha. O italianozinho veio bater papo. Percebo que ele perguntou para elas se estávamos juntas e elas me deduraram, dizendo que tínhamos acabado de nos encontrar! Fala sério! Amigos homens mentem até a morte para te defender, enquanto amigas mulheres te jogam na fogueira?

Depois da aventura de nadar ali, elas me convidaram para caminhar com elas até o farol e eu topei na hora. Porém, vi que ela estavam indo na direção oposta que eu estava seguindo. Elas estavam naquela trilha que tinha esses castelinhos, mas a partir daquele ponto, eu ia seguir a trilha prateada (sentiero d’argento) que é uma trilha mais hardcore no meio do rochedo olhando o mar.

Andei no rochedo desde a ponta lá no fundo

Fiquei muito na dúvida se eu deveria dar prioridade para amizade e companhia ao invés de aventura, mas meu coração me disse que o dia era para aventura!

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Oscar

No meio do caminho, subindo o morro, tinha uma placa dizendo:

Auditorium Oscar Niemeyer

Até aqui, num cantinho da Itália esse homem fez suas obras?

Você acha que a arquitetura desse auditório lembra de algumas das obras dele em Curitiba ou outro canto do Brasil?

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Adormecido

Gosto de entrar em igrejas quando estou viajando. Já vi de tudo. Igreja bem bonita, igreja feia, fria, escura e sem alma.

Nas igrejas protestantes nunca tem imagem de santo e raramente tem imagem de alguém crucificado.

Aqui na Itália só achei igreja católica até agora e todas têm imagem de santo e várias tem o cara crucificado no altar.

Mas hoje de manhã entrei numa igreja que me surpreendeu. Não tinha ninguém crucificado. No altar tinha uma imagem que mais parecia a bela adormecida.

Igreja em Ravello
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Greve

Meu último dia em Monterosso. A previsão do tempo era de bastante chuva, o que era perfeito, pois eu estava louca para passar um dia inteiro no meu quarto de hotel com as pernas pro ar e descansar das longas caminhadas dos dias anteriores.

Onze e meia da manhã recebo um torpedo da companhia de trem, dizendo que o meu trem de Roma para Nápoles no dia seguinte tinha sido cancelado por causa de uma greve nacional de trem.

Meu, não acredito. Tantos dias para fazerem greve, vão fazer isso justamente no dia que eu preciso cruzar o país de norte a sul?

No Google descobri que a greve era porque durante a checagem de passagens, um passageiro sem bilhete aqui em Nápoles bateu no funcionário da companhia de trem. Um absurdo. O acordo era parar tudo das nove da manhã até cinco da tarde.

Corri, descendo o morro de Monterosso até a estação e perguntei o que eles poderiam fazer por mim. Das 3 opções, a melhor seria sair 5 da manhã de Monterosso, usando o trem lento que ia direto até Nápoles. Oito horas de viagem. Aceitei.

No dia seguinte, acordei 4 da manhã e desci o morro na escuridão carregando duas mochilas e usando a luz do celular para me guiar, porque não tinha luz em boa parte da trilha. Desci com muito medo, mas desci. No final das contas deu tudo certo e cheguei em Nápoles bem mais cedo do que eu tinha planejado.

Aliás, o trem passou por Pisa e eu vi por um breve momento a torre inclinada. Um dia eu deveria visitar Pisa!

Mas estou em Nápoles…

Eu achava que Nápoles era uma cidade violenta que não tinha atrativos, mas me enganei. Estou admirada com a arquitetura e os encantos da cidade.

Uma galeria muito parecida com a famosa galeria em Milão

De alguma forma aqui me lembra São Paulo, o bairro da Sé. Muita gente morando na rua, dormindo nos cantos, lavando parabrisas no farol, pedindo esmola.

Hoje eu passei pelo mesmo cara pedindo esmola 3 vezes. A primeira vez nove e pouco da manhã e a última cinco e pouco da tarde. Meu, de pé ali o dia todo. Trabalho árduo pedir esmola.

Mas tenho tentado deixar a mente aberta e ver o lado positivo da cidade. Em frente ao castelo do Ovo (que nome doido para dar para um castelo!) tomei uma caipirinha (ruim, mas tomei).

Castelo do Ovo

Hoje de manhã, meu segundo dia na cidade, depois de um toró que parou literalmente minutos antes deu eu sair de casa, fiz um passeio guiado com um grupo de solteiros e aprendi bastante coisa sobre a história da cidade. Deu vontade até de ficar mais tempo e explorar a cidade melhor, mas amanhã de manhã vou para meu próximo destino na costa Amalfi.

Grupo: na frente a guia napolitana, a loira atrás uma guria americana, tia Cris, e um cara da Austrália.
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Dedo duro

Eu encontrei aquele casal do chapéu cinza tantas vezes que confesso, achei que iria encontrá-los novamente no terceiro dia.

Achei isso, especialmente porque durante nossa curta conversa, quando eu mencionei que eu estava pensando em caminhar até Levanto (a vila do outro lado do morro de Monterosso) ele respondeu que não era possível andar até lá.

Eu imediatamente respondi “você tem certeza? Eu acabei de passar pela entrada de uma trilha que tinha placa dizendo Levanto, só não sei quanto tempo caminhando até lá”.

Eles ficaram quietos e pensativos com o meu comentário. Como parecia que eles estavam fazendo várias trilhas, achei que os encontraria na caminhada para Levanto. Já que a trilha começava literalmente ao lado do meu hotel, eu resolvi meter a cara, sem nem pesquisar quanto tempo levaria para chegar lá.

Levei uma hora só para subir meio quilômetro de morro. Lá de cima, as placas diziam 1.35 para Levanto. Achei que era 1,5 km. Beleza. Dá para encarar.

Eu achava que estava quase chegando, quando passei por uma placa que me desanimou. Na placa havia a foto do rochedo e percebi que eu não tinha caminando nem um terço da trilha ainda. Caraca, a placa dizendo 1.35 indicava quantas horas de caminhada!

Cheguei em Levanto morta. Morta nas pernas e morta de sede, pois eu não estava preparada para 3 horas de caminhada debaixo de sol escaldante. Mas valeu muito a pena. Foi a melhor trilha até agora. Eu gosto muito dessas caminhadas onde dá para ver o mar o tempo todo.

Levanto

Levanto é conhecida por ter uma praia bem legal. Faz parte da Riviera italiana. Mas eu estava tão cansada, que não me animei a entrar no mar.

Fui procurar um lugar para comer e ao escutar música brasileira, foi ali que parei. Demorou 10 minutos para trazer a bebida e quase meia hora para trazer uma salada, mas eu estava de bom humor. E eu tinha um livro infantil escrito em italiano para me ajudar a passar o tempo. Rsrs

Como eu não estava animada para entrar no mar, procurei a estação de trem para voltar para o outro lado do morro. Estava no trem junto com uns dois ou três casais, em frente a porta de saída, escuto o cara que confere os bilhetes vindo em nossa direção e gritando “coloquem a máscara” (na Itália ainda insistem em usar máscara em transporte publico). Assim que o cobrador gritou isso, um dos casais na minha frente, que, julgando pela maneira que a guria estava vestida, tinha a maior pinta de serem brasileiros, saíram de fininho na direção oposta e subiram as escadas.

O cobrador checou os bilhetes do casal ao meu lado e eu escuto o rapaz italiano dedurando, dizendo ao cobrador que um casal aqui saiu de fininho e subiu as escadas. O cobrador agradeceu e acelerou o passo em direção para onde o casal foi.

Eu entendo o que ele fez. Dá raiva a gente fazer tudo certinho e ver gente abusando e tirando vantagem do sistema. Mas não sei o quanto é nobre e gratificante dedurar assim. Eu não teria feito o mesmo.

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Vernazza

Engraçado que quando a gente quer encontrar alguém “ao acaso”, raramente a gente consegue encontrar, mas quem a gente não quer ver, aí sim a gente tromba com eles.

Durante minha caminhada, onde o casal me parou para dizer que tínhamos cruzado caminho três vezes naquele dia, pouco depois eu encontrei outro casal que achei gente boa pra caramba. Guria do Japão, cara da Índia, os dois morando na Alemanha. Disseram que no dia seguinte viriam para Monterosso, a vila onde estou hospedada, e ficamos de nos encontrar ao acaso.

Saí de manhã empolgada achando que ia encontrá-los na vila (o que não aconteceu), mas adivinha com quem eu trombei logo que saí do hotel?

Exato, o casal do chapéu cinza com quem cruzei caminho três vezes no dia anterior. Acabamos batendo um papo rápido. Eles disseram que são da Califórnia nos EUA (eu fiquei pensando porque eles acharam que precisavam dizer que Califórnia fica nos EUA, tem outra Califórnia nesse mundo?) e eles me indicaram visitar uma vila chamada Portovenere. O trem não chega lá, tinha que pegar a barca.

Apesar de eu ter que esperar 2 horas pela próxima barca, usar 45 minutos pra chegar lá, e eu só ter ficado em Portovenere por uma hora, achei que valeu a pena.

Cheguei a ver uns brasileiros vestidos bem elegantes escalando as pedras escorregadias. Daí descobri que tinha um casamento de brasileiro que ia começar na igreja das ruinas. O povo que gosta de complicar a vida. Queria ter ficado para ver a noiva de salto alto subindo aquelas pedras!

Igreja nas ruinas em Portovenere

Fiquei pouco tempo na vila porque estava ameaçando chover e eu queria fazer uma trilha pela qual já tinha pagado a entrada. Mas quando cheguei do outro lado do morro, onde a trilha começa, estava um sol de rachar cocoruco.

Fiz a trilha no sentido de Monterosso a Vernazza e o dia terminou com essa vista:

Vernazza
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Três vezes

Passei o dia rodando os cinco vilarejos conhecidos como Cinque Terre.

Ia de trem de estação em estação, dava uma olhada rápida na vila e já ia pra outra.

Na verdade eu estava esperando o sol baixar um pouco para fazer a trilha a pé entre a vila de Corniglia e Vernazza.

Mesmo em torno das 4 da tarde, o sol estava matando.

Quando estava terminando a trilha, um cara de chapéu cinza me falou assim: essa é a terceira vez que cruzamos caminho.

Ele e sua acompanhante estavam começando a trilha, mas indo na direção oposta.

E eles ainda falaram assim: você está na vila Monterosso, né?

Caraca. Nego que a gente nem conhece sabe onde estou hospedada e por onde andei? Logo eu, que achava que passaria despercebida, já que estava vestida bem fuleira.

Impressionante eles terem me reconhecido após uma trilha onde eu estava suada, descabelada e empoeirada.

E o pior é que eu me lembrei do cara. Ou melhor, me lembrei do chapéu dele. Lembro que pensei que eu tinha um chapéu parecido em casa! Rsrs

A tursita que tirou minha foto, nem pra tirar com foco ela se esforçou!
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Cozze

Eu aprendi que em italiano mexilhões se chamam “cozze”. Sempre achei esse nome meio estranho e me dá vontade de rir.

Quando cheguei numa área chamada Cinque Terre, me disseram que eu tinha que provar um prato típico daqui que são Cozze recheadas.

Fiquei intrigada, como rechear mexilhões. Enfim, provei. Não achei grandes coisas, mas provei. Vinha recheado com uma massa feita de pão, ervas e queijo e servida com molho de tomate.

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25 dias na Itália

Finalmente consegui tirar férias e anteontem começou a minha jornada.

25 dias, 10 cidades diferentes.

Choveu muito pouco esse verão, então imaginava que eu daria muita sorte e teria sol o tempo praticamente todo durante a viagem, mas, porém, todavia, não está sendo assim.

Aliás, até agora, nada está saindo da maneira como eu imaginei.

Acho que tenho mais do que reclamar do que vangloriar, mas assim é. Nem sempre dá para ser feliz.

Essa é a terceira viagem desse ano.

Em maio fiz uma curta viagem de 3 dias para Veneza, na Itália.

Logo após minhas provas da faculdade, em junho, passei uma semana numa ilha no sul da Espanha. A ilha se chama Malhorca.

Eu dei a maior sorte nessas duas viagens (com pouquíssimas exceções, onde passei muita raiva).

Na hora de escolher para onde ir durante minhas férias para fugir da Dinamarca e do frio, eu estava muito na dúvida do que escolher. Pensei em visitar Budapeste, pois eu nunca estive na Hungria.

Mas depois pensei melhor. Normalmente eu dou muita sorte nas minhas viagens na Itália e depois que descobri que meu avô biológico era italiano, eu passei a dar preferência para Itália.

Bom, a viagem está só começando. Hoje é dia 3. Espero que a sorte mude!

Vou mantendo vocês atualizados!

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Mudos

A cantina da empresa está sob reforma. Tenho a impressão de que essa cantina tá sempre em reforma. Ano passado reformaram a cozinha, esse ano, estão trocando o telhado.

Durante os meses de reforma, ninguém entra na cantina. Servem a comida em barraquinhas, como as barraquinhas de cachorro quente ou de hamburger que se vê por aí. Meses e meses comendo comida desse tipo, porque eles só servem coisas que podem ser facilmente distribuídas em potinhos de papelão.

Ontem fui lá pegar um típico “fish and chips” – bom, meio-típico, porque o típico peixe frito com batatinha frita que se come na Inglaterra é normalmente servido embalado numa folha de jornal – o que eu acho bem pouco sanitário. Aqui veio numa caixinha de papelão.

Me sentei numa mesa grande no jardim, onde já estavam dois ou três funcionários comendo. Sentados juntos. Lado a lado. Mudos.

O povo daqui é estranho. Se eles não te conhecem, não puxam papo. E acham mal-educado se alguém desconhecido puxar papo e “interferir” na sua paz e tranquilidade.

É por isso que é tão difícil fazer novas amizades aqui. Se não se fala com estranhos, como conhecer gente nova?

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FREE

Anteontem, domingo, eu consegui entregar a última parte do trabalho para a universidade.

Finalmente, depois de 4 anos de luta, estou livre!

Fiquei tão contente que escrevi para umas quatro ou cinco amigas mais próximas para contar a novidade, e curiosamente, todas me responderam mais ou menos da mesma maneira, dizendo que eu tenho dedicação e perseverança.

Nunca tinha pensando sobre mim mesma dessa maneira. Eu sou curiosa e gosto de aprender e pesquisar sobre coisas que me interessam. Esse curso que fiz achei muito interessante. Talvez essa tenha sido a motivação para perseverar.

Depois de amanhã receberei as notas das provas que fiz em junho. Tô na expectativa que tenha sido nota suficiente para passar.

E as notas desse último projeto, eu imagino que vão publicar em novembro. Então ainda tenho que aguardar alguns meses para saber se passei em tudo e estou mesmo livre, mesmo assim,  minha mente já começou a dizer: vai voltar a viver, muié!

Ontem, no meu primeiro dia de liberdade, eu achava que iria voltar pra casa cedo depois do trampo e fazer nada, porém eu e minha chefe ficamos trancafiadas no escritório até dez da noite tentando terminar de escrever uma documentação.

Bom, eu fui embora dez da noite. Ela ainda ficou imprimindo uns troços lá.

Cheguei em casa onze e meia da noite, porque eu moro longe pra dedéu e porque de noite é quando fazem manutenção dos trilhos e havia caos na linha de trem que pego.

Enfim. Ainda não tive oportunidade para descansar.

Como eu acumulei muito estresse e cansaço nesses meses todos, eu acho que vai demorar uns meses até que eu me sinta melhor e mais descansada. Veremos. Será que até dezembro eu me sinto melhor?

Obrigada pessoal pela força e por me aguentar por 4 anos só falando de estudos.

E Agora, vamos voltar a falar de quê? De forró? Já andaram me convidando a voltar a dançar, mas ainda não sei o que vou fazer.

Alguma sugestão do coisas para fazer para passar o tempo?

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Esgotamento

Faltam 3 semanas e meia para eu terminar meu estudos. Mas tá foguetão.

Três dias atrás tive um colapso nervoso e não parava de chorar. Coitada, minha chefe ficou visivelmente preocupada.

A pressão que estou sentindo é tão grande que qualquer coisinha se torna numa tempestade em copo d’água. Naquele dia em que eu não parava de chorar, de manhã cedo, ao abrir a porta do meu apartamento para ir ao trabalho, a vizinha da frente estava no corredor colocando uma tranca em bicicletas.

É proibido deixar bicicletas no corredor, já que ali é a via de escape em caso de incêndio. Eu, muito educadamente, fui lembrá-la desse fato. Primeiro ela me ignorou. Eu tive que dizer “com licença” quatro vezes. Então fui até ela, e perguntei se ela entendia dinamarquês. Tem muito gringo no meu prédio. Normal perguntar. Se ela fosse gringa, eu usaria outro idioma. Muito rispidamente ela me respondeu que claro, eu é que sou uma estrangeira idiota.

Fiquei de cara.

E assim começou minha semana, segunda-feira de manhã.

Tenho tido sinais de esgotamento desde início de abril, mas a coisa chegou num ponto que já não sei mais o que fazer para sobreviver aos próximas 3 semanas. Alguns dizem que eu tenho que fazer atividades que me dão energia.

Esse povo não sabe o que é esgotamento. A gente entra num estado de apatia total. Eu não tenho vontade de fazer nada, de assistir nada. Até escutar música tem me irritado.

3 semanas mais… tô precisando de forças.

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Sufoco

Sabe aqueles hotéis em que a porta do quarto tranca sem precisar usar a chave, e se você fechar a porta e esquecer a chave dentro do quarto, lascou? Nesse caso é possível ir até a recepção, explicar o que aconteceu e problema resolvido.

Mas o que você faz quando a porta do seu apartamento tranca sem precisar usar a chave, são 13:49, suas visitas chegarão dentro de 11 minutos e você fica trancada para o lado de fora, segurando um pano de prato, e mais nada?

A princípio fiquei sem reação. Eu não esperava que a porta fosse trancar, pois eu só coloquei o pé para fora para ver se o portão principal estava aberto.

Mas como a porta da minha sacada estava escancarada para ventilar o apartamento, acho que foi uma jarrada de vento que fez com que minha porta fechasse me deixando numa situação bem complicada.

E agora? Terei que chamar um chaveiro de plantão e pagar uma fortuna? Vou ter que esperar minhas amigas chegarem para telefonar para o chaveiro? Pois meu celular está trancado dentro do apartamento.

Onde estão as cópias da minhas chaves?
Uma está no meu escritório, 20 km de distância, e eu sem documento, sem dinheiro, sem telefone. E minhas amigas para chegar a qualquer momento. Sem chances de ir buscar essa chave.

A outra chave está somente a 10 km de distância com Carsten, mas meu celular está trancado no apartamento e eu não sei de cor o número de telefone dele. Sem saber que número ligar, não dava nem para emprestar o celular de alguém e pedir para fazer uma ligação de emergência. Desvantagens da vida moderna, onde se usa celular para lembrar das coisas para você.
E eu também nem sabia se Carsten estava disponível num sábado de tarde para vir me socorrer.

Fui ao lado de fora do prédio para ver se eu conseguiria alcançar minha sacada usando a sacada da sala de festas que fica ao lado do meu apartamento. Infelizmente o vão era demasiado grande, e arriscar uma queda de 5 metros de altura não seria nada agradável.

Lindo, agora, além de estar trancada fora do apartamento, também estava trancada fora do prédio. Costuma ser um entra e sai nesse prédio, mas justamente nesse momento em que eu estou com pressa, não tem ninguém aqui. Aguardei vários minutos até que um morador apareceu e abriu o portão. Aproveitei para entrar junto.

De pé em frente a minha porta, tive uma ideia. Vou bater na porta da minha vizinha.

Nesses 16 meses que moro aqui, nunca a encontrei, nunca a cumprimentei. Mas eu a escuto, já que ela faz bastante barulho, e eu de vez em quando retribuo o barulho em horas “oportunas”. Enfim, uma guerra fria entre nós. Mas bati na porta dela, explicando que eu sou a vizinha e que estou nessa situação. Perguntei na maior cara de pau se eu poderia tentar pular da sacada dela para a minha (aproveitando que minha porta da sacada estava aberta!).

Ela foi bem simpática e disse que podíamos tentar, mas antes de me deixar entrar, me perguntou se eu não tinha uma cópia da chave em algum lugar (querendo dizer, com alguém que mora aqui no condominio). Expliquei que não tinha. Ela me deixou entrar e então iniciou-se a aventura de tentar voltar para casa antes das minhas visitas chegarem.

Eis que entro no apartamento da vizinha e vejo outras 6 pessoas. Ela estava com visitas! E eu incomodando!

Um dos visitantes fez uma inspeção e avaliação da distância entre as sacadas e fez uma sugestão muito boa: colocar um banquinho do meu lado da sacada para amortecer minha queda. Do lado de cá, usamos uma escadinha para subir ao parapeito. Eu subi a escada, o cidadão segurando minha mão, e eu pulei para o meu lado.

Que alívio!

Agradeci muito. Entreguei o banquinho de volta e fui ver que horas eram. 14:01!
Por sorte, minhas amigas tinham escrito que estavam 10 minutos atrasadas.

Deu tempo certinho de terminar de lavar a louça e passar uma tarde maravilhosa em excelente companhia.

Daqui pra frente, só colocarei os pés pra fora de casa carregando o molho de chaves!!

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Um alô rápido

Vixe, faz tanto tempo que não passo por aqui que foi até difícil de me lembrar da senha para entrar.

Eu ainda estou na labuta dos estudos. Hoje é cinco de maio e tenho até dia doze para entregar meus trabalhos escritos da faculdade. Esse ano, porque eu estou tentando aquela doideira de fazer 5 módulos para terminar esses estudos de uma vez, eu tenho que entregar uma infinidade de trabalhos escritos.

Ontem consegui entregar o penúltimo. Ufa. Só falta um. É o mais complicadinho. Acho que terei que pedir um dia de folga do trabalho na semana que vem para terminar isso. Vamos ver.

Depois desse período super estressante, eu mereço umas semaninhas de folga antes de começar a revisar a matéria para as provas em junho.

Com covid em alta em vários países e essa infame guerra na Ucrânia (e um pressentimento de que a guerra vai se espalhar envolvendo o OTAN), eu não tenho feito muitos planos de viagem. Mas comprei passagem para fazer um bate-volta em Veneza. Por um fim de semana somente para espairecer. Espero que corra tudo bem.

E vocês? O que contam de novidade?

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