Frrrrrio

Semana passada estávamos todos comemorando a chegada da primavera, um sol lindo e 21 a 23 graus de “calor”. (Para os dina, à partir de 24 graus já é uma onda de calor infernal, enquanto eu continuo andando de blusa de manga comprida!)

Desliguei os aquecedores dentro de casa, que é o que eu normalmente faço quando a primavera chega. No entanto ontem de noite fui obrigada a ligar tudo novamente. O que aconteceu com a primavera? Domou Doril? Não é possível.

Será que o verão esse ano será como o de 2007 e 2008? Nesses anos não teve verão. Choveu e fez frio o verão todo.

Não é à toa que o povo daqui viaja durante o verão… para o sul (Espanha, Itália, França), para garantir um verão com sol e calor e renovar os estoques de vitamin D. Acho que é isso que vou fazer esse ano. Viajar!

 

 

O festival

Quando eu falo que danço forró, eu normalmente me deparo com 3 reações:

  • dos dinamarqueses que não sabem o que é
  • dos brasileiros que acham que forró é só safadeza, coisa de pobre e música de baixo nível
  • de forrozeiros europeus que estão acostumados a dançar há mais de 5 anos e que sabem que forró pé-de-serra são músicas de alta qualidade, e a comunidade do forró é muito respeitadora e o povo vai para dançar

Claro que há toda uma história do forró, mas as coisas evoluem.

13116122_1107097632686771_808947367431888781_oEu nunca pensei que uma dança mudaria tanto a minha vida.

Em seis meses minha dança melhorou bastante e eu não só danço e vou nos festivais, mas também faço parte do grupo de organização de um festival na Europa.

Claro que o nosso festival não foi tão grande como o de Paris ou Stuttgart, mas também não foi tão pequeno assim. Ficamos muito contentes de ver tanta gente. Vieram 21 nacionalidades.

Segue abaixo alguns vídeos das festas durante o nosso festival.

Vídeo do esquenta festival, gravado no barzinho onde a gente normalmente dança

 

Festa de sábado

 

Vídeo de agradecimento, com imagens da festa de domingo

Custo de vida

Hoje eu atualizei a minha planilha de orçamento e pela primeira vez que comecei a perceber o quanto se gasta com coisas a gente quase não usa, e o quanto se gasta com coisas que são muito importantes, como por exemplo, água.

Na minha casa a gente paga mais em seguro do que com a conta de luz.
Para quem está vindo para cá, aqui vão alguns valores aproximados – valores em coroa dinamarquesa por ano.

  • 2.500 DKK – licença do Dansk Radio
  • 3.500 DKK – água e esgoto
  • 7.000 DKK – aquecimento da casa
  • 10.000 DKK – eletricidade
  • 20.000 DKK – imposto sobre o terreno e coleta de lixo
  • 12.000 DKK – seguros

Licença do DR (Dansk Radio) é para ver os canais dessa emissora (de tv, rádio e computador) e é obrigatório mesmo que vc não assista tv ou escute rádio, que é o meu caso

Aquecimento da casa depende do tamanho da casa ou apartamento e tipo de aquecimento. Nós usamos gás natural, mas quem mora na cidade usa “aquecimento à distância”. A água quente que circula nos radiadores vem das usinas da queima de lixo urbano, e o preço é bem mais barato do que gás ou óleo. Lembro que quando eu morava em Copenhague o aquecimento de um apartamento de 40 m2 era menos de 2 mil por mês, e o de uma casa de 80 m2 era de 5 mil usando aquecimento à distância (fjernvarm)

Seguros obrigatórios são o da casa (incêndio e danos – não cobre furtos, que é um seguro à parte) e o do carro (responsabilidade em caso de acidente – cobre os danos no carro da outra pessoa, mas não no seu). Mas claro que vc vai fazer um seguro para proteger os objetos de valor da casa em caso de arrombamento. Se tiver um carro novo também é bom ter um seguro que cubra danos à carroceria. Nós não temos, porque o carro é velho, no entanto temos um seguro assistência, para virem nos socorrer se der pane no carro. 🙂 e já precisamos ativar o seguro algumas vezes. O da casa nós também ativamos quando passou um furacão aqui que levou embora o topo do nosso telhado.
O bom das seguradoras da Dinamarca é que não tem aporrinhação. Preenche um formulário e pronto. Depois vc encontra a pessoa para fazer o serviço e eles enviam a conta diretamente para a seguradora. Ponto final.

Se você paga aluguel, veja se gastos eletricidade, água e aquecimento estão incluídos ou são à parte.
Se mora em apartamento, o seguro contra incêndio é dividido por todos e vem na taxa do condomínio, assim como coleta de lixo e gastos com remoção de neve das calçadas.

Quem mora em casa é responsável por limpar a neve da calçada na frente da sua casa e espalhar sal. Se alguém cair e quebrar a perna na frente da sua casa por causa de neve ou gelo, você é responsável.

Os gastos com moradia são em torno de 50 mil mais hipoteca da casa ou aluguel, que facilmente pode acrescentar de 60 a 100 mil coroas (ou mais) a esse valor.

Pense que tem gente que ganha menos de 20 mil coroas por mês, ou seja menos de  240 mil por ano (aqui não existe 13º salário). Desse valor é descontado no mínimo 37% de imposto de renda, 8% contribuição à saúde pública e 1% aposentadoria pública.

Depois de pagar todas as despesas, no final do mês, talvez não sobre dinheiro para ir ao supermercado ou transporte.
Na DK o empregador não paga vale-transporte nem vale-refeição.

Quando vier para cá, se não tiver trabalho garantido, pode ser difícil de sobreviver. Pense nisso.

Dupla – parte 3

E esse resultado que nunca chega. Pensei que receberia uma resposta dentro de 3 meses, mas nada.

Foi somente ontem que recebi a carta eletrônica do ministério. Vou até o website e não consigo abrir a mensagem, mas felizmente consigo abrir o anexo. Estava datado 19 de abril.

Como assim? Datado 19 de abril e eu só recebo a carta no dia 12 de maio? Depois dizem que é somente no Brasil que as coisas demoram.

O anexo diz que desde 22 de abril eu tenho a cidadania dinamarquesa. Aleluia!
E pede que eu preencha o formulário abaixo e envie para eles assinado.

São 7 perguntas sem pé nem cabeça, pois tudo que me perguntam está no meu registro geral. Eles poderiam simplesmente ter lido o meu registro com a prefeitura.
Perguntam se sou casada, qual a data do casamento ou divórcio. Se tenho filhos, onde moram, qual o RG deles, e se os filhos são de casamentos na Dinamarca ou no exterior.

Dizem que depois que eu enviar essa informação, eles vão me encaminhar um comprovante da cidadania. E agora? Falta informação. É para mandar o formulário por carta, email, pombo-correio? Quando posso fazer meu passaporte? Preciso de mais alguma coisa?

Ô gente que gosta de dar informação pela metade e mudar constantemente de ideia.

(idéia sem acento, nova regra ortográfica… eu não consigo, sinto muito!)

Dupla – parte 2

Finalmente eu tinha na minha mão quase toda a papelada necessária para dar entrada no pedido de naturalização. Só faltava um atestado da prefeitura, confirmando que eu não tinha dívidas com o estado e que não estava recebendo nenhum tipo de benefício público.

Quando o atestado chegou na minha casa, uns dias depois, eu só precisava ir até a polícia, pagar uma taxa de 1000 coroas (parece que tudo aqui custa mil coroas, impressionante!) e aguardar. Mas eu fiquei me enrolando.

Enrolei por quase 2 anos!

Foi só no final de 2014 que eu decidi de vez. Ter a cidadania me traria alguns benefícios: direito de voto, direito ao passaporte europeu que me dá direito de morar em qualquer país da União Européia, direito de morar fora da Dinamarca por mais de 6 meses e depois poder voltar sem ter que recomeçar o processo de imigração, direito de estudar na universidade sem ter que pagar uma taxa abusiva por ser imigrante fora do EU, e assim vai.

Em dezembro de 2014, numa loucura, resolvi voltar até a prefeitura para pedir um novo atestado. A prefeitura fecha 5 da tarde. O trem parou na estação 4:52 e eu tinha que caminhar uns 800 metros para chegar no prédio. Eu corri feito uma louca. Cheguei no balcão de atendimento não conseguia nem respirar, quanto mais falar.

A atendente foi muito simpática. Tão simpática que ela, para minha surpresa, fez a declaração na hora!

No dia seguinte eu fui até a polícia. Paguei a taxa, deixei todos os documentos e eles me disseram que me convidariam para uma entrevista.

No dia da entrevista, tive uma conversa muito boa com a policial. Ela queria avaliar se eu realmente falava dinamarquês, qual meu interesse em me tornar cidadã dinamarquesa, qual minha história, se tenho trabalho, etc.

Foi tudo muito bem. O próximo passo seria ter meu nome aprovado pelo parlamento e incluído numa proposta de lei. Essa votação ocorre duas vezes por ano, uma em abril e outra em outubro.

Quando o mês de abril chegou e eu vi que meu nome não estava na lista, não me desesperei. Pensei que muita gente estava enviando solicitação de naturalização, agora que a Dinamarca aceita dupla cidadania.

Então esperei tranquilamente até outubro de 2015.

Juro que não é brincadeira, mas 10 dias antes da votação, um projeto de lei é aprovado, onde o ministério novamente muda de idéia e diz que aquela prova mais fácil de história e cultura não era mais aceita, que somente quem tivesse feito a prova difícil é que seria elegível (e quem fez a fácil tinha que fazer a prova novamente, e claro, pagar nova taxa), e essa decisão era retroativa até junho de 2014 e todos os processos em andamento deveriam ser reavaliados.

Eu pensei que não seria um problema para mim, já que eu tinha feito a “mardita” prova, mas o meu caso foi adiado, porque demora para reavaliar.

Puxa vida, agora tinha que aguardar até abril de 2016?

Por sorte o parlamento abriu uma votação extraordinária no final de janeiro e no dia 27 de janeiro eu vi o meu nome na proposta de lei para naturalização.

Agora é só aguardar o resultado.

Dupla – parte 1

Novidades do reino.

Ontem recebi uma mensagem eletrônica do ministério da integração. Eu imaginei que fosse sobre a minha solicitação de cidadania, e era.. Ô coisinha complicada requerer e obter a naturalização dinamarquesa.

Há vários requisitos que devem ser preenchidos pelo candidato e o governo muda de idéia o tempo todo, principalmente em relação:

  • à quantidade de anos que a pessoa deve morar na Dinamarca para ser elegível
  • ao nível de fluência em dinamarquês e nota final na prova do idioma
  • ao nível da prova sobre cultura e história dinamarquesa

Apesar de eu ser elegível para a cidadania dinamarquesa desde 2008, eu sempre descartei essa possibilidade, porque a Dinamarca não aceitava dupla cidadania e eu teria que abdicar da minha brasileira.

Outro motivo que me deixava irada era o fato de que o candidato deve passar num teste de história e cultura dinamarquesa que tem uma fama medonha.

  • O teste tem 40 perguntas e o candidato deve responder no mínimo 35 perguntas corretamente para passar.
  • Os estrangeiros devem responder todas essas perguntas corretamente, mas os próprios dinamarqueses que tentavam a prova, reprovavam. Parece injusto que os estrangeiros devem ter esse conhecimento, quando a população local não o tem.
  • Muita gente reprovava e tinha que pagar novamente a taxa para refazer a prova – e o preço da prova não é barato. São quase 1000 coroas, sem falar que vc tem que pedir um dia de folga no trabalho, porque a prova é no meio do dia.

Tudo isso me impedia a ver o lado positivo em pedir cidadania.

Até que um dia, conversando com uma doida brasileira que eu conheço, ela me disse que gostou muito de ler o material de preparação para a prova. Que foi interessante. E o comentário dela ficou na minha cabeça

Então, uns 5 anos atrás, quando recomeçou a discussão de que o parlamento votaria uma proposta da Dinamarca aceitar dupla cidadania, eu resolvi estudar para fazer a diaba da prova.

O material é distribuído gratuitamente. O que eu fiz, foi pagar um website com perguntas das provas anteriores, para que eu me preparasse da melhor maneira. Não me arrependi disso. Usei somente 5 semanas para me preparar e passei na prova na primeira tentativa.

Honestamente, a prova não é tão difícil assim. Eu acho que o pessoal não se prepara direito, ou ficam nervosos demais porque são 40 perguntas mas muito pouco tempo para responder tudo.

Lembro que no dia que fiz a prova, logo antes de começar, o monitor nos deu a informação de que o ministério tinha mudado de idéia, e que daquele dia em diante, a prova seria bem mais fácil. Justamente aquele dia seria o último dia da prova difícil. Puxa vida, isso é notícia que se dê bem antes de começar a prova?

Paciência.

Perseguida

Lembra do post sobre o IBGE? Na verdade, sobre o Danmarks Statistik. Eles estão me perseguindo, porque eu não terminei de preencher o questionário.

Estava escrito que a participação era voluntária, mas eles têm telefonado constantemente e mandado email, a um ponto que eu chego a considerar ofensivo.

Me telefonaram bem na hora que eu estava saindo para o ponta-pé inicial do festival de forró de Copenhague. Eu cheia de estresse e trabalho, a caminho de ir buscar os professores no aeroporto, e eles me enchendo. Eu disse que eu não tinha tempo no momento e que não terminei o questionário por tal e tal motivo (aproveitei para meter o pau no sistema mal organizado deles).

Ela me perguntou se podia me ligar na semana seguinte, e eu falei que estaria me recuperando de uma operação e que não queria ser incomodada. Então, dias depois da operação, começam a chegar emails.

E dois dias atrás me telefonaram perguntando se eu tinha 3 a 5 minutos. Falei que se fosse só 3 minutos eu podia ajudar, senão, que me parassem de importunar. Se a participação é voluntária, eles devem aceitar que a pessoa mudou de idéia.

Haja paciência.

Se algum dia chegar alguma carta para mim do DK Statistik, eu não vou nem abrir!

Música lusa

Foi um desconhecido, proveniente da terrinha, que me abordou no Facebook e numa troca de mensagens ele me mandou o link para essa canção, que eu gostei muito. A melodia me passa tranquilidade.

 

Passado

Ainda estou no hospital. Fiz a sonografia e não acharam nenhum coágulo. Agora sentada de volta no pronto-socorro esperando algum médico vir falar comigo e me mandar para casa.

Pelo menos vieram me perguntar se eu queria algo para comer e beber, e a enfermeira me trouxe um sanduíche e um suquinho.
Só depois da primeira mordida é que eu vi que o sanduba está vencido faz dois dias!
Produzido dia 28 de abril, consumir até dia 31, mas hoje é 2 de maio.

Isso é um verdadeiro perigo para a saúde!

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Enquanto escrevo isso vem a mesma enfermeira me dizer que o médico vai me ver em seguida. Eu aproveitei para dizer que eles deveriam checar a geladeira, pois o sanduíche está vencido, e ela deu de ombros.
Esse é o tratamento que se recebe no primeiro mundo, onde se paga um dos impostos mais caros do mundo.

PS.: Horas depois, quando finalmente um médico teve tempo para me ver e me mandar para casa, o Carsten entregou o sanduíche vencido para ele, como uma forma de formalizar a reclamação. O médico disse que iria tomar providências, que isso não pode acontecer num hospital.

Hospital público

Para quem quer ter uma idéia do tratamento nos hospitais públicos da Dinamarca.

Ontem de noite, domingo, telefonei para o Rigshospitalet, onde fiz minha cirurgia, para dizer que eu tinha sintomas de trombose. Perguntei se era para eu ir para o hospital imediatamente ou esperar para falar com meu clínico geral na manhã seguinte.

O médico do hospital queria que eu fosse diagnosticada ainda naquela noite, mas eles não podiam me ajudar por duas razões: eles são do departamento de ginecologia e o Rigshospitalet não é o hospital da minha região.

Me mandaram ligar para a central de médicos de plantão, que me encaminhou para o pronto-socorro do hospital Hillerød – 30 minutos de carro de casa – já que eles fecharam o meu hospital local para combinar tudo num “super” hospital regional (uma palhaçada, na minha opinião).

Quase duas horas aguardando atendimento mais duas horas aguardando o resultado de um teste de tempo de coagulação

Duas da manhã, a médica ou residente de plantão me diz que meu tempo de coagulação está elevado, e baseado nos meus sintomas, ela não pode nem confirmar nem excluir a possibilidade de um coágulo estar alojado na perna. Que era para eu ir para casa e voltar no dia seguinte para fazer uma sonografia.

Se não era para fazer o teste confirmatório na mesma noite, para quê me mandar para o pronto-socorro no meio da noite?

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10:15 da manhã cheguei de volta ao hospital. Nesse momento são 11:05, estou sentada na sala de espera, onde tem, sem brincadeira, gente roncando e babando na cadeira, e eu continuo esperando pela sonografia.

O pior é saber que depois do procedimento tenho que voltar no pronto-socorro e esperar horas até que um médico tenha tempo para olhar o resultado e me dar uma resposta.

Convalescença

Convalescença, essa é uma palavra que não escuto há anos, mas que descreve tão bem esse período no qual me encontro.

Foi hoje de manhã, enquanto eu praticava francês com um correspondente, que eu escutei a palavra: convalescence (tem que falar fazendo biquinho, senão não funciona!).

Eu estava com medo da cirurgia, mas o desafio maior é o pós-operatório. Parece que cada dia aparece uma coisa diferente que a gente tem que superar.

No primeiro dia o cansaço e as dores são as piores.
No meu caso também causava um desconforto o fato de sentir vontade constante de urinar, mesmo eu estando com catéter.

Em seguida a gente tem que lidar com o povo que começa a mandar mensagem, telefonar e quer visitar. Tudo isso é exaustivo.

Então vem a fome e o fato de que tudo que se coloca na boca dá náusea. Até mesmo cheiro de comida e de flores causa ânsia de vômito.

Era para eu ter ido embora para casa no primeiro dia, mas por causa de uma pequena hemorragia, me mantiveram sob supervisão. E também pelo fato de que eu tinha tantas dores que não consegui ficar de pé no primeiro dia. O ideal seria começar a caminhar algumas horas após a operação.  

Quando finalmente todo mundo foi embora, 10 da noite, pois na DK eles não deixam a família dormir no quarto como normalmente se faz no Brasil, eu achei que iria poder descansar, mas não. Meu sono foi interrompido várias vezes pela enfermeira que veio medir minha pressão no meio da noite.

Eu tive muita sorte que no meu quarto o outro leito estava vazio e eu fiquei sozinha. Sabe, hospital público a gente não tem direito a quarto privativo.

Mas a alegria durou pouco. 6:30 da manhã chega a minha colega de quarto, ela, com neném rescém nascido e a família toda. Ô meu pai, dái-me paciência! Eles não calavam a boca, e eu muito cansada, só queria dormir.

7:15 levaram ela para a sala de operação. Pensei comigo mesmo, talvez só tragam essa mulher de volta 5 da tarde.

Finalmente, silêncio, achei que ia poder dormir um pouco, mas veio o médico me explicar como foi a cirurgia e como seria daqui pra frente. Disse que foram 3 horas de cirurgia e que tiraram parte de 3 órgãos, mas aquilo que eles tinham combinado comigo de fazer, isso eles não fizeram porque ficaram com medo que fosse me dar uma infecção generalizada.
O lado bom dessa notícia é que eu não precisaria passar 10 dias em casa com catéter.
O lado ruim, é que vou ter que continuar tomando hormônio para controlar os pedaços de endometriose que eles não retiraram. Ô vida.
E logo depois dessa notícia, ele me dá a bomba, de que só iriam me dar 1 semana de licença do trabalho. Que eles achavam que eu tinha que voltar à vida normal o mais rápido possível, que ficar deitada em casa aumenta as chances de complicações.

Caramba. Uma semana de repouso só, depois de cirurgia no abdômen? Tem gente que recebe 2 ou 3 semanas por muito menos que isso!!! Sem comentários. Indignação é a palavra que descreve meus sentimentos.  

Depois ele mandou tirar o meu catéter e controlar se minha urina ainda tinha sangue. Disse que eu poderia ir para casa quando estivesse pronta.

O problema é que esse “pronta” quer dizer quando os movimentos peristálticos estiverem sido restabelecidos. Essa é a bosta de ir para hospital numa língua estrangeira. A gente não entende metade do que eles falam, pois aqui se fala muito nas entrelinhas, e estrangeiro tem dificuldade de entender esse tipo de coisa.
A enfermeira vivia dizendo que eu mesmo controlaria, decidiria, quanto tempo passar no hospital. Tenho certeza de que isso é outra mensagem entrelinhas que eu não entendi, afinal custa uma fortuna por noite por leito de hospital e eles estão cortando gastos. Bom…

Fizemos mais uma tentativa para eu me levantar da cama, e foi tudo bem. Comecei então a caminhar de pouquinho em pouquinho.

Enquanto estou eu lá, recém levantada, trazem a mulher da cama do lado de volta. Não eram nem 11 da manhã ainda. A cirurgia dela foi híper rápida.
Eu estava muito cansada e só queria me deitar novamente, mas não tinha paciência para todo o barulho que aquela família fazia.
Mas Deus é pai. Ela foi liberada ao meio dia, e meia hora mais tarde eles estavam deixando o hospital e eu pude finalmente descansar.

E mais um dia se passou, com mais visitas, mais mensagens, mais enjôos e vômitos – pois me deram morfina ao invés de codeína, e a tia Cris não tolera a primeira muito bem.

Eu acabei dormindo mais uma noite no hospital, por causa da greve do intestino.

No meu último dia no hospital acordei com dores horríveis tanto no abdômen quanto nos ombros. Depois de uma laparoscopia, acumulam-se gases no corpo, e se o intestino não estiver funcionando, a pressão gerada é um troço fenomenal e chega até a área dos ombros e pescoço. Eu mal conseguia ficar ereta, tamanha era a dor. Estava de mau humor, pedindo para eles me darem algum remédio que fizesse o intestino pegar no tranco, mas a coitada da enfermeira dizendo que a única coisa a fazer era caminhar e beber muito líquido. E ela vinha atrás de mim o tempo todo, dizendo para eu caminhar e perguntando se eu já estava conseguindo liberar os gases, e eu estava com vontade de esgoelar aquela garota.

Uns poucos minutos mais tarde veio o primeiro pum. Em português bem claro: eu nunca antes tinha ficado tão contente em soltar um peidinho. Foi alívio imediato. A dor nos ombros passou, a dor no ventre passou, e eu estava até sorrindo.
Fui para o corredor e a enfermeira disse: você está sorrindo. Conseguiu peidar, não foi? E eu disse sim, posso ir para casa agora?

Enquanto aguardava Carsten ir me buscar, eu ia tomar um banho antes de ir embora, mas não tinha água quente no chuveiro do meu quarto.

Suja de álcool iodado, descabelada e cansada, vim para casa. Aqui a luta continua, mas estou me recuperando bem. Ou pelo menos eu acho que estou me recuperando bem.
Veremos daqui a uns dias. 🙂

O procedimento

Andando, eu entrei na sala de operação. Eu nunca tinha sido operada antes, e a única referência que tinha eram filmes e vídeos simulando uma operação. Eu esperava um quarto branco, cama ou maca reta. Mas não foi nada disso.

A minha primeira reação foi à temperatura da sala. Estava gelada. Eu diria que abaixo de 16 graus. Comecei a tremer imediatamente.

Meu segundo choque foi ver a “cama”. Era, sem brincadeira, uma cadeira ginecológica.
E eu esperava que a sala seria toda branca, mas era azul.

Me fizeram deitar naquela cadeira congelada. Eu tremia feito vara verde. Bem nesse momento me bateu um medo muito grande e rolaram umas lágrimas.

Para me acalmar, colocaram um arzinho quente no meu peito para me esquentar um pouco, enquanto elas me embrulhavam num plástico duro, acho que para me imobilizar.

Antes de me colocarem para dormir, perguntaram se eu tinha problema no joelho, porque eles iriam levantar minhas pernas para o ar durante a cirurgia. Fizeram um teste e eu pude ter uma idéia da posição “confortável” na qual eu estaria deitada durante o procedimento.

2016-04-30 11_17_52-O procedimento _ Cris.dk

Chegou a hora de me colocar para dormir. Disseram pense numa coisa boa e durma bem. Eu pensei em forró e todos as pessoas bacanas que conheci.

De repente escuto um povo gritando e sinto duas pessoas, uma de cada lado, me chacoalhando. Isso é a técnica para acordar o povo da narcose.
Caramba, a gente acorda até assustada com os berros que eles dão. Novamente, eu achei que seria como nos filmes, que a gente acorda naturalmente.

A enfermeira veio em seguida, disse que me levariam para o quarto dentro de uma hora e me ofereceu água e suco.

Eu perguntei que horas eram.
Eram 16:30.

Primeiro dia

Durante o fim de semana que antecedeu a minha operação, eu estava organizando o primeiro festival de forró de Copenhague, que foi um sucesso, mas muito cansativo. Lembro que eu brinquei com uma das nossas voluntárias dizendo que iria direto do forró para o hospital.
Vontade de fazer isso não faltou, mas não deu. Eu estava cansada demais e realmente tinha que descansar pelo menos um dia antes da operação, por isso no domingo dia 24 eu nem apareci no festival. Pena, porque eu queria ter visto os locais e a palestra sobre as origens do forró – que foi algo inédito que nenhum outro festival fez.

2016-04-30 11_21_12-Primeiro dia _ Cris.dk

No domingo de tardezinha, como especificado na carta que eu recebi, eu liguei para o hospital para saber que horas seria minha operação. Tomei um baita susto quando me disseram que eu deveria estar lá 6:30 da manhã. Isso para mim queria dizer que eu tinha que me levantar 4 da manhã, para esvaziar o intestino, raspar meus pelos corporais e tomar banho como eles me instruíram, e ainda pegar 50 minutos de estrada até o centro de Copenhague.

Do lado de fora do hospital eu me despedi do Carsten. Não tinha porque ele ficar esperando, já que ninguém sabia dizer quantas horas de cirurgia seriam. Cheguei no ambulatório com 10 minutos de atraso e não tinha ninguém lá. Nesse horário a enfermeira já estava me telefonando, para verificar se eu havia esquecido o dia da cirurgia. Esquecido eu não tinha, mas eu estava tão atordoada, que não li direito em que ala do hospital eu deveria me apresentar e eu estava no lugar errado.

Subi até o quinto andar e a enfermeira, muito querida, me disse que ia me colocar na salinha. (Isso traduzindo do dinamarquês) Eu pensei que fosse uma salinha de espera, mas na verdade era um quarto e ela mandou eu colocar as roupas do hospital e me deitar na cama. Esse foi o primeiro choque. Se ela tivesse dito quarto, eu já estaria preparada psicologicamente.
Em seguida ela me deu uma pulseira de identificação e uns medicamentos e disse que iriam me levar até o sala de operação em breve.
Quando chega o povo que ia me levar até a operação, eles pegam meu prontuário para checar nome e número de identidade, e eu vejo que não é o meu prontuário que está sobre minha cama, mas a de uma Kristina Mette Jensen. Pelo amor de D.
Eu já estava nervosa com todo esse procedimento, e começa assim, com um erro banal.

Bom. Acharam o prontuário correto e o homem empurrou minha cama até o andar da operação. Me senti como numa corrida do Ayrton Senna… corre; pára; sai da frente; ei você, saia do elevador, não está vendo que está reservado?; bip-bip, fonfom!

A minha última conversa com os médicos antes da cirurgia foi algo deprimente. Eu acho que eles são obrigados a informar tudo o que pode dar errado, e isso deu uma sensação tão ruim. Honestamente isso poderia ser evitado. A única coisa que eu pude responder foi: Vamos torcer para que dê tudo certo?

E daqui pra frente foi tudo muito, mas MUITO diferente do que eu tinha imaginado…

Ressonante…

Tive que interromper o post, pois o médico veio falar comigo sobre meu estado e o que vai acontecer daqui pra frente. A enfermeira veio tirar o catéter e agora fica no meu pé me lembrando que eu tenho que beber bastante água que é para fazer meu primeiro xixi depois da cirurgia.

Bom, mas continuando a saga.
A ressonância tinha sido marcada para início de dezembro e a médica ficou de me telefonar uns dias depois para me explicar o resultado.

Eis que mexendo uns pauzinhos, consegui fazer a ressonância em setembro, mas isso não adiantou de nada, pois a médica só podia falar comigo em dezembro. Paciência. O jeito é aguardar.

Em dezembro veio então a notícia de que eu tinha que operar, porque uma das endometrioses estava prestes a bloquear a passagem de urina dos rins para a bexiga.

Lembro que fiquei muito chocada com a notícia. Não conseguia nem me concentrar no que a médica estava me falando. Ainda para ajudar a mulher era norueguesa e estava falando norueguês comigo (ou com um sotaque norueguês muito forte, e a tia Cris aqui não fala norueguês, só dinamarquês, né!

No dia da consulta eles me deram uma data para a cirurgia, seria na terceira semana de março. Achei que era um longo tempo de espera e era uma data logo antes da páscoa, e eu não queria passar a páscoa doente, me recuperando de cirurgia.
Me disseram que eu poderia avaliar se a data era boa e se não fosse, eu poderia telefonar para o hospital e pedir uma nova data.

Lembro que dia 20 de dezembro eu telefonei e pedi para adiar a cirurgia. O que foi uma decisáo acertada, pois em março, no dia da operação, eu estava com uma gripe fenomenal. Lembro que fiquei de cama por quase 3 semanas.

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E o tempo passou, e nada de eu receber nova carta com nova data de cirurgia. Liguei para o hospital tanto em janeiro quanto em fevereiro para saber se tinha alguma novidade, mas nada. Passou tanto tempo que eu nem me lembro quando a bendita carta chegou, mas eu lembro da minha reação quando vi que a cirurgia seria dia 25 de abril. Pensei PUTZ GRILLA.

25 de abril era o dia seguinte do festival de forró de Copenhague e eu faço parte da organização e sei a trabalheira e o cansaço que é.
A data não era ideal, mas eu aceitei de qualquer maneira, pois não queria adiar o inevitável ainda mais, especialmente porque as endometrioses continuam crescendo enquanto eu espero pela operação…