Forró no Brasil – Itaúnas, chegada

Pela primeira vez, meu objetivo com a viagem ao Brasil não foi visitar nem família nem amigos, mas ir dançar forró e descobrir a diferença entre dançar aqui na Europa e aí no Brasil.

Meu primeiro destino era a vila de Itaúnas no Espírito Santo, onde ocorre maior festival do forró do mundo, o FENFIT (Festival Nacional de Forró de Itaúnas), que está na sua 17ª edição. São praticamente 8 dias de festival, e na vila, o forró rola, literalmente, 24 horas por dia. Tem que escolher qual evento de forró vai perder para poder dormir, comer, tomar banho, ir à praia, etc.

Deixa eu explicar como funciona. O festival ocorre no Bar do Forró, com show das bandas concorrentes do Fenfit e de pelo menos 3 bandas famosas/conhecidas. Vai das 10 da noite até 6 da manhã.

Seis da manhã o povo vai andando do Bar do Forró para a Padaria, que é um boteco onde o forró continua das seis até de noite (ou com música ao vivo ou com DJ). Ali é o point da galera pois fica bem na saída de que vai pra praia. Tem que passar quase que obrigatoriamente por ali. É um lugar para ver e ser visto.

Lá por umas 5 da tarde começa o forró no Café Brasil e vai até 11 da noite. Já por aí dá pra ver que não dá pra fazer tudo. Os eventos se intercalam. Fora isso tem outros eventos de forró avulsos durante o dia, como aulas de forró no Café Brasil, aula com instrumentos, show ao vivo em algumas pousadas de noite ou no Buraco do Tatu, que é o concorrente do Bar do Forró (detalhe, as duas casas são vizinhas, e se a música não estiver alta o suficiente, dá para escutar o show um do outro. Loucura).

A minha chegada foi mais ou menos assim: Cheguei em Guarulhos e já tomei o avião para Vitória, onde passei um dia descansando e caminhando pela praia. No dia seguinte, quando encontrei os forrozeiros que iam comigo na van para Itaúnas, ouvi dizer que estava rolando o maior forró em Vitória e que o povo já fez um esquenta lá mesmo. Pena, perdi, mas eu estava demasiado cansada da viagem e com jetlag.

De Vitória até Itaúnas foram cinco horas de viagem, sendo que uma hora foi só para percorrer os 20 km de estrada de chão antes de chegar na vila. Tinha chovido muito, tinha muito buraco e poças enormes de água. A van chocalhou tanto que eu cheguei a pensar que na próxima vez vou tomar um remédio para enjoo. Pensei, coitados dos instrumentos dos músicos, vindo nessa buraqueira. Mas acho que o que garante a preservação da vila e da natureza ali, é esse difícil acesso.

Em Itaúnas não tem nada, lá é um lugar para descansar, passear pelas dunas e pela praia, fazer atividades no rio, para os aventureiros, fazer atividades na restinga ou fazer um passeio até a praia da Costa Dourada no sul da Bahia (15 km de distância).

Mas, porém, todavia, durante o Fenfit, a vila recebe milhares de pessoas. Tanta gente que me orientaram a levar tudo que eu precisava, desde remédios até produtos de higiene, porque nos dias finais do evento, às vezes acaba remédio na farmácia, produtos no mercadinho e até comida em restaurantes.

A vila em si não é muito bonita. As ruas todas de areia batida (ou no caso do dia que cheguei e uns dois dias em seguida, de poças de água e lama). Levei mala de rodinha, mas sofri. Aconselho viajar de mochilão pra lá.

Tudo é muito simples. Não tem supermercado, não tem hospital. Se precisar, tem que voltar os 20 km de terra e ir para Conceição da Barra. Em Itaúnas tem dois mercadinhos e duas farmácias bem básicas, e só. E uma igrejinha, caso precise de um momento de reflexão, mas acredito que até lá dentro dá para ouvir o forró, porque toca forró em todos os cantos da vila.

Cheguei na sexta dia 14, e confesso que estava desanimada, com toda aquela chuva, aquela lama, o fato de estar sozinha e pior, me sentindo sozinha. O festival começaria oficialmente no dia seguinte, mas já na sexta dava pra ir dançar no Café Brasil. Eu acabei que não fui a lugar algum.

No dia seguinte fui fazer um reconhecimento do lugar, mas confesso que aquela lama em todas as ruas dificultava a locomoção.

Acabei não indo até as dunas e praia por causa da chuva. Depois de comer um prato feito (que era a coisa mais barata, pois tudo lá estava imensamente caro, e as porções eram para duas pessoas no mínimo e custava de 50 reais pra cima) fui fazer minha aula particular de forró. Claro, aproveitei para fazer uma aula com um professor local, para aprender uns passos novos e corrigir erros.

Acabei que comprei um pacote de 4 horas de aulas, e fiz aulas em 3 dias consecutivos. Não farei mais esse erro, porque nos dias de sol, eu tinha que voltar mais cedo da praia para ir para a aula. Sem falar no cansaço de subir e descer duna para chegar na praia. Já começava a aula me sentindo morta.

As coisas começaram a melhorar quando o sol apareceu e depois disso foi a semana inteira de sol. As ruas secaram, ficou bem melhor para andar. Comecei a encontrar o pessoal. Tinha muito forrozeiro da Europa em Itaúnas. Muita gente conhecida, me senti praticamente em casa. E obviamente, conheci gente nova.

Depois disso não me senti mais sozinha. Estava até muito contente por tem momentos só para mim, de poder fazer tudo o que eu queria na hora que eu queria.

Na Padaria, vi uma menina vendendo quadros e ímã de geladeira com frases extraídas das letras de forrós famosos. Achei um que me serviu muito bem: “Se avexe não, amanha pode acontecer tudo, inclusive nada”.

Eu vou continar a narração sobre minhas aventuras em Itaúnas nos próximos posts. Abaixo coloco as poucas fotos que tirei lá. E peço desculpas, pois não levei câmera, e as fotografias que tirei com o celular ficaram todas sem foco, embaçadas. Uma pena. Mais um motivo para voltar um dia para Itaúnas, rsrs.

O festival

Quando eu falo que danço forró, eu normalmente me deparo com 3 reações:

  • dos dinamarqueses que não sabem o que é
  • dos brasileiros que acham que forró é só safadeza, coisa de pobre e música de baixo nível
  • de forrozeiros europeus que estão acostumados a dançar há mais de 5 anos e que sabem que forró pé-de-serra são músicas de alta qualidade, e a comunidade do forró é muito respeitadora e o povo vai para dançar

Claro que há toda uma história do forró, mas as coisas evoluem.

13116122_1107097632686771_808947367431888781_oEu nunca pensei que uma dança mudaria tanto a minha vida.

Em seis meses minha dança melhorou bastante e eu não só danço e vou nos festivais, mas também faço parte do grupo de organização de um festival na Europa.

Claro que o nosso festival não foi tão grande como o de Paris ou Stuttgart, mas também não foi tão pequeno assim. Ficamos muito contentes de ver tanta gente. Vieram 21 nacionalidades.

Segue abaixo alguns vídeos das festas durante o nosso festival.

Vídeo do esquenta festival, gravado no barzinho onde a gente normalmente dança

 

Festa de sábado

 

Vídeo de agradecimento, com imagens da festa de domingo

Trio

Sabe aquela fofoca boa que eu prometi do festival de forró de Paris? Pois é, eu fiquei me enrolando para escrever, e até que foi bom, pois agora há pouco algo aconteceu que tornou a história muito mais atrativa e eu estou contentíssima.

Eu não sei se vocês gostam de forró pé de serra, mas eu gosto muito, e gosto demais das músicas do Trio Dona Zefa.

bichoDepois que eu já tinha comprado o passaporte para participar do festival, foi que anunciaram que tanto o grupo Bicho de Pé (que eu tb adoro) e o Trio Dona Zefa tocariam nas festas. Eu fiquei radiante!

Os dois shows do Bicho de Pé foram animadíssimos. Dancei demais e até dancei uma com o sanfoneiro deles, rapaz simpático com óculos da armação branca. Ele falou assim, antes do show, só sei dançar dois pra lá e dois pra cá. E eu disse: é o forró das antigas. Está bom demais.

No último dia, foi a vez do Trio Dona Zefa. Eu tinha chegado cedo nessa noite e estava arrastando as chinelas com um menino brasileiro quando eu reconheci o vocalista entrando. Lembro que eu pensei, nossa, mas eles estão entrando assim pelas portas da frente? E depois não pensei mais nisso.

Depois da dança, eu parei num cantinho para descansar, e de repente vejo o vocalista na minha frente, bem pertinho. Eu disse: Oi, tudo bem?. Ele disse: Tudo. Me deu dois beijinhos, perguntou meu nome e disse: Prazer, Danilo.

Achei muito simpático e isso animou o meu dia. Digo, minha noite.

Depois é dança pra cá, dança pra lá. E quando eu não estava dançando, ou eu estava na frente do palco, ou num cantinho ali do lado, cantando junto, no embalo das canções. Foi então, no meio de uma música, que o Danilo fez um aceno para mim lá do palco. Eu acho que eu fiz cara de susto, porque ele ficou com uma expressão estranha no rosto, mas é que eu fiquei assustada que lá de cima ele estava me vendo. Eu sempre achei, que com aquele monte de luz sobre eles, que não dava para ver nada. Mas me enganei. Do palco dá para acompanhar a movimentação toda.
Puxa vida. Teria sido tão legal se eu tivesse retribuído o aceno.

Depois do show eles estavam autografando CDs. Fui tentar comprar um CD para guardar de recordação, mas já tinha vendido tudo. Paciência. Ao invés do CD, vou guardar de recordação as experiências dessa noite, porque o show deles foi fenomenal. Dancei muito. E depois do show até perguntei para o sanfoneiro deles, o Tom, se ele só tocava forró ou se dançava também.

Acho que ele não escutou direito o que eu falei e de repente ele também me deu dois beijinhos e disse: Tom. E eu repeti a pergunta, porém ele respondeu que não sabia dançar. Pena né.

E uns dias se passaram, até que o Trio compartilhou um vídeo do show no Facebook e eu mandei uma mensagem dizendo que o show tinha sido maravilhoso e foi pena que os CDs tinham se esgotado rápido, pq eu queria ter trazido um pra casa. E brinquei perguntando se eles não mandavam um CD para mim na Dinamarca.

Eis que hoje, 12 dias mais tarde, eu recebo uma mensagem do Trio Dona Zefa dizendo para eu mandar meu endereço para o produtor deles, que eles vão me mandar um CD de presente! Achei fantástico! Alegrou o meu dia e até o meu coração está radiante. Não pq eles vão me dar um CD de presente, mas pela simpatia deles usarem o tempo deles para me escrever uma mensagem particular. Foi realmente muito querido da parte deles.

E eu que pensei que essa história não acabaria com final feliz, por causa da minha cara de susto, mas me enganei. O final foi muito melhor do que o imaginado. Essa é uma lembrança que vou guardar comigo por muitos anos. E tudo graças ao forró. #Se não fosse o forró o que seria de mim, Deus meu… o que seria de mim?#

E o forró continua

E eu continuo na minha maratona de forró. Não que eu esteja dançando bem, mas eu acho que é animado.

De vez em quando eu danço com uns caras que fazem passos e piruetas que eu não consigo acompanhar, mas tudo bem. O que vale é a experiência. Quem sabe uma hora dessas eu consiga acompanhar esses passos loucos que eles fazem, que mais parece coisa de gafieira ou de jiu-jitso do que forró.

Forrozeira

Há uns anos atrás eu escrevi no blog sobre os meus hobbies, de como eu me interesso por algo, me dedico a isso de corpo e alma, e depois mudo para algo novo.

Nos últimos dois a três anos eu tenho me dedicado ao aprendizado de línguas, mas agora acho que chegou o momento de me dedicar a algo diferente: dança.
Foi no final do mês de agosto que eu descobri que o forró finalmente chegou na Dinamarca. Forró chegou na Europa há mais ou menos 10 anos, mas nos países lá pra baixo, como França, Alemanha, Portugal. Aqui na DK ele só chegou no ano passado e há muito pouca gente que sabe dançar. Na verdade, a maioria do povo que dança forró em Copenhague são estrangeiros: uns brazucas, um espanhol, um búlgaro, uma francesa, e assim por diante.
Mesmo a comunidade de forró de Copenhagen sendo pequena, o pessoal é muito gente boa e nos encontramos frequentemente.
E foi assim que eu descobri que na Europa toda há festivais de forró, onde gente de inúmeros países se reúne para fazer workshops e compartilhar experiências.

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O primeiro festival que participei foi há duas semanas em Lisboa, Portugal, de 11 a 13 de dezembro. Foi ótimo e os portugas dançam muito bem. Fiquei impressionada com a qualidade do festival. Mas é algo bem puxado, uma verdadeira maratona. Aulas das 11 da manhã e festa até 4 da matina, por 3 dias consecutivos, e às vezes até mais.

Conheci muita gente em Lisboa. Gente da Alemanha, gente de Paris, da Suíça, e agora estamos mantendo contato.

Meu próximo festival será no final de janeiro em Berlin. Dessa vez eu não irei sozinha (viajei completamente só para Portugal) mas vamos num grupo grande, representando Copenhague. Acho que será bacana.

Depois de passar quase 14 anos sem dançar, eu tinha me esquecido de como eu gosto de um arrasta-pé!
Estou tão contente de voltar a dançar, que resolvi checar uns outros estilos novos de dança, como a Kizomba. Mas o post de hoje é sobre forró, e forró de alta qualidade – nada daquelas músicas pé-de-chinelo tocadas por grupos como Calcinha Preta (socorro!), mas músicas de grupos como Luso Baião, Bicho de Pé, e assim por diante.

Manterei vocês atualizados da minha nova vida de forrozeira, que promete ser agitada. Minha próxima parada será Oslo, Noruega, para um workshop meados de janeiro. Em seguida o festival Psiu! de Berlin. Depois será um festival por mês: Forró London em fevereiro e o Ai Que Bom, de Paris nas férias da páscoa. E tome forró!
Abaixo uma foto minha tirada no Club Mambo, onde me aventurei a dançar bachata com um conhecido brazuca.

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