Com frequência o banco de sangue da Dinamarca faz coletas nas empresas. Hoje veio o e-mail convidando os doadores e informando qual dia os vampiros atacarão o prédio.
Há uns anos atrás eu cheguei a cogitar se seria uma boa doar sangue, fui pesquisar se com o meu peso eu poderia ser doadora, e fazendo uma pesquisa no site do banco de sangue eu fui barrada por pura discriminação. Obviamente há regras para a doação. Pessoas que tiveram algumas doenças como hepatite, aids, câncer, não podem doar sangue. Pessoas que viajaram recentemente para áreas de risco de malária também não podem, mas acredite se quiser: se vc não é dinamarquês ou naturalizado dinamarquês, vc também não pode doar sangue na dinamarca!
E tem mais. Mesmo que vc tenha renunciado a sua nacionalidade e tenha se naturalizado dinamarquês, se vc vier de países da África, América do Sul, ou dos quintos dos infernos também não aceitam o seu sangue.
Não poder doar sangue porque não se tem a nacionalidade ideal, isso é discriminação, certo?
Mas continuando o meu dia. Eu e minhas colegas fizemos uma pausa para comer um chocolatinho e percebemos que na cozinha tinham cartazes informativos pendurados onde se podia ler como o sangue coletado é utilizado na Dinamarca. Eu não sabia, mas a maioria do sangue vai para pacientes de câncer (39%) e somente 12% vai para para hemorragias. Achei isso bem interessante. Imagino que são a maioria pacientes com leucemia? Será que no Brasil é assim também?
Então conversa vai e conversa vem, uma colega diz que estava muito triste, pois a família toda dela é de doadores, ela gosta de ajudar, mas que não pode mais doar depois que ela teve melanoma (uma espécie de câncer de pele).
Já que ela era doadora, e eu sou curiosa, aproveitei para perguntar se na Dinamarca também funciona como no Brasil, que há alertas na tv quando se precisa de sangue
“Atenção senhores doadores, o hospital de Clínicas precisa urgentemente de sangue tipo O negativo para cirurgia de emergência.”
(Ainda existem esses alertas? Ou isso também é coisa do passado?)
Ela nem entendeu minha pergunta, o que me faz pensar que esse tipo de alerta não existe por aqui. Fiquei no entanto sabendo que a iniciativa de colher sangue nas empresas se deu porque os doadores davam desculpa esfarrapada de que as coletas no banco de sangue eram sempre no horário do expediente e que não podiam sair do serviço.
Ela também encheu a boca para dizer que antigamente até ligavam para ela ir doar sangue quando tinha emergência. Naturalmente pensei que tivesse uma doadora universal na minha frente e perguntei se ela era O negativo. Ela ficou toda confusa com minha pergunta. Primeiro disse que sim. Depois disse que não, que ela é A negativo.
Mulher com sangue negativo é sempre um problema, e sabendo que ela tem 2 filhos, imediatamente perguntei se ela não teve problema na segunda gravidez.
Novamente ela achou estranha minha pergunta. (Essa mulher fez faculdade e tem educação como enfermeira!!!)
Como ela não entendeu, eu continuei: então nenhum dos seus filhos é positivo?
Ela diz: não sei.
A Dinamarca é mesmo um país estranho. Quando a tia Cris nasceu, uma das primeiras coisas que veio no meu registro foi meu tipo sanguíneo. Sei disso desde pequenininha e achei o cúmulo do absurdo que os filhos dela de 10 e 12 anos não sabem o seu tipo sanguíneo. Descobri que na DK só se testa o tipo de sangue se acontecer algo. E se acontencer algo, colocam uma plaquinha de O negativo na cama do paciente até que o resultado do laboratório fique pronto.
Só em pensar que quando eu fiz estágio no laboratório em Curitiba, a maioria das tipagens que eu fazia, eram quase todas de criancinhas. Ou é o Brasil que gasta dinheiro com tipagem sanguínea desnecessária, ou é a Dinamarca que é mão de vaca demais.
Mas ainda não acabou. Então vem o grande finale dessa conversa produtiva. Ela diz que por vários anos achou que não era filha dos seus pais, porque ambos os pais dela são tipo B. (hmmmmm)
Juro, fui obrigada a me controlar para não falar besteira. Tentei até dizer com educação de que se ambos os pais dela são tipo B, eles não podem gerar uma criança tipo A. Ela não concordou comigo. Disse que talvez o gen tenha vindo dos avós.
(Eu comentei que essa mulher estudou enfermagem?)
Cheguei a achar que ela não estava entendendo o meu sotaque e comecei a falar inglês. Como faz tempo que não falo em assuntos sanguineos, e honestamente eu nunca tinha tido uma conversa dessas em outro idioma a não ser português, eu não tinha o vocabulário necessário. Eu havia esquecido completamente a expressão ‘gen dominante’, mas tentei explicar do jeito que pude dizendo que se algum dos pais dela tivesse o gen do tipo A, que não tinha escapatória, que as células expressariam o tipo A.
Novamente veio aquele olhar estranho. Cortei o assunto, já que não estava rendendo frutos. Sem comentários. Juro que passou pela minha cabeça em insistir um pouco no assunto, afinal eu sou tia Cris sádica e não é todo dia que se encontra um bastardo completamente iludido (ou santa do pau oco), mas deixei por isso mesmo.
Tipagem sanguínea sempre me fascinou. Não digo o sistema A B O, mas todos os outros antígenos mais complicados: D fraco, Kell, Diego, Lewis, antígeno P… Se eu tivesse ficado no Brasil, eu provavelmente teria tentado trabalhar num banco de sangue.

olha, pra falar a verdade não sei nem o meu, mas vou procurar saber e tatuar no braço o meu tipo, hehehehe
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“Atenção senhores doadores, o hospital de Clínicas precisa urgentemente de sangue tipo O negativo para cirurgia de emergência.”
(Ainda existem esses alertas? Ou isso também é coisa do passado?)
faz um bom tempo que não vejo esses alertas, mas a última vez que vi foi uns 4 anos atras.
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desculpe, fiz um texto comprido, acabei fechando a janela do blog,
assim que tiver tempo coloco outro post, ok
Então faz tempo que ninguém precisa de sangue, Sr Aroldo sanguinário!
Puxa, depois dessa aula de subgrupos.. será que você suportaria a monotomia de um banco de sangue, mas ainda existem estes alertas sobre a necessidade de doadores ..
Eu que o diga.. Sabe que acredito que quando os bebês nascerem aqui, vão ter um chip
com todas informações e tipo sanguíneo..
mas fiquei decepcionada com a sua colega enfermeira, quer dizer que ela foi “adotada” com este tipo sanguíneo?? Jesus..
Bjos
Essa minha colega enfermeira é uma figura. Agora que estou no departamento faz quase 1 ano, já estou percebendo bem o tipo dela. Ela mente muito, mas ela fala suas mentiras com tanta convicção, que quem não tem conhecimento no assunto cai na lábia dela.
Eu no início caía no papo dela, até que um dia ela fez comentários sobre algo que eu tenho bastante conhecimento a respeito. Mesmo eu podendo provar com artigos científicos que ela estava equivocada, minha voz não se fez escutar. Tem gente que realmente só vê o que quer, outras só escutam o que querem.
Nesse dia eu acordei e fiquei mais esperta.
Primeiro: :O
Quanto preconceito. Sabia que tem muito aí, mas não pensei que chegasse a esse ponto!
Depois: hahahahahahaha
Gente, o que eles ensinam aí na Dinamarca??? Eu aprendi isso no Ensino Médio!
Teve um professor meu de biologia, que durante a aula (genética) falou qualquer coisa sobre os genes dominantes e recessivos…
Um dos alunos tinha olho escuro e os pais tinham olhos claros (acho que era essa a estória) e o aluno ficou possesso, falou que era um absurdo. Discutiu com o professor e parece que ele p da vida já falou que o menino não poderia ser filho dos pais dele. Entraram com um processo contra o professor. Mas ficou provado que o professor estava correto. Agora se o menino era adotado ou a mãe pulou a cerca, não sei!
E continuam a fazer as propagandas pedindo doação!
Eu não posso doar por causa do meu peso (apesar de já ter doado uma vez!). Sou doadora de medula há mais de 5 anos e nunca me chamaram.. :/
A-do-rei essa história do professor processado, olhos escuros num filho de pais com olhos claros. Coloco minhas fichas que ele é filho do leiteiro!
O que eles ensinam na Dinamarca? O único jeito de responder a essa pergunta é comparando com o ensino do Brasil entre 1991 e 1996, que é o que eu me lembro. A resposta é tão complexa, que fica para um post, quando eu tiver tempo. ok? (prometo que será de deixar os cabelos em pé!)
Fiquei curiosa!!!
Gostei de saber da sua iniciativa de ser doadora de medula. Você já pesquisou para saber como os dois processos de doação funcionam, caso te chamem?
Quando eu fui doar sangue, que me falaram da doação de medula. Eles me explicaram rapidamente, que tirariam da própria medula e é uma pequena cirurgia.
Agora que você falou, fui ler novamente. Encontrei esse site: http://www.min-saude.pt/portal/conteudos/informacoes+uteis/doacao+de+orgaos+e+transplantes/medulaossea.htm
É isso mesmo?
Sim, esse link te informa sobre os dois procedimentos, mas eles não entram em detalhes, e sendo doadora vc deve se informar do procedimento todo para não ser pega de surpresa. Pesquise um pouco mais. Se a opção usada aí é a da cirurgia, vc deve saber que não pode ir sozinha ao hospital. Tem gente que não precisa ficar hospitalizado. Muitas vezes dá para ir para casa poucas horas após a punção da medula, no entanto tem gente que fica tão agitada quando vê o equipamento usado para retirar a medula, que precisa tomar um sedativo e nesse caso não se pode dirigir até o efeito do medicamento passar (e demora para passar).
A doação por colheita periférica leva 5 ou 6 dias. Nos cinco dias antes da colheita, você vai até lá para receber uma infusão de filgrastim (um hormônio G-CSF que estimula o crescimento das células na medula). Essa infusão é na veia e demora cerca de 5 minutos para aplicar. No sexto dia você vai até lá para fazer um processo que parece diálise, onde o seu sangue vai correr por uma máquina e as células progenitoras serão colhidas. Demora umas 3 horas para fazer isso. Quase não tem perda de sangue e risco de infecção é muito baixo. Se for preciso eles podem pedir para vc voltar no dia seguinte e repetir esse processo na máquina. Efeitos colaterais são poucos e não é todo mundo que tem: dor de cabeça, ossos doloridos, desconforto das agulhas no braço durante o procedimento.
A cirurgia é mais rápida, mas por ser bem mais invasiva, eu pensei que não fosse usada como opção número um. Pelo que sei é com anestesia local. A medula é colhida da parte posterior do osso ilíaco (pélvis) – é onde se corre o menor risco de atingir nervos e vasos sanguíneos. Entendo que eles aspiram em torno de 300 ml, mas que isso só rende uns 300 microlitros de células. É bem pouco. Por isso além de aspirar eles normalmente colhem um pedacinho do tecido intacto (biópsia). Por causa da anestesia, tem gente que sente enjôo, dor de cabeça e cansaço. A punção em si deixa um hematoma bem roxo e o local fica dolorido causando desconforto. Mas o paciente vai para casa no mesmo dia e dentro de uma semana já pode voltar a fazer atividade física como antes da cirurgia. O corpo demora umas 6 semanas para repor as células aspiradas.
Explicação gigante, mas espero que tenha ajudado. Mas vc sabe, eu ando desatualizada, pode ser que o procedimento esteja modificado. Dá uma pesquisada sobre o procedimento per se, mas evite assistir a filmes no youtube onde a coleta foi mal feita. Vc só vai se impressionar e não vai ganhar nada com isso. Doação de medula é meio traumática mas não causa nenhum dano ao doador. Adorei sua iniciativa.
Links
Veja ‘the donation process’ no fim do artigo: http://www.cancer.net/patient/All+About+Cancer/Cancer.Net+Feature+Articles/Treatments%2C+Tests%2C+and+Procedures/Donating+Bone+Marrow
No mesmo site do câncer.net, outro artigo explicando antes, durante e depois do procedimento e o que vc deve perguntar ao seu médico antes da cirurgia. http://www.cancer.net/patient/All+About+Cancer/Cancer.Net+Feature+Articles/Treatments%2C+Tests%2C+and+Procedures/Bone+Marrow+Biopsy+and+Aspiration%E2%80%94What+to+Expect
E o meu favorito, wikipedia, onde tem umas fotos da agulha e de punção (eu não li o texto, no entanto): http://en.wikipedia.org/wiki/Bone_marrow_examination
Bom, eu prefiro a doação periférica. (Como eu tenho pouco peso deve ser melhor)
Mas será (que no Brasil) eu posso escolher?
Obrigada pelos links.
E muito obrigada pelo incentivo! 😀
Se no BR pode escolher? Puxa, Manu, eu não faço idéia. Se algum dia te chamarem, tente se informar se há algum lugar onde vc possa ir para fazer a doação periférica. Talvez em Curitiba?
Sabe que eu acho que aqui nem devem fazer a coleta. (Não sei se precisa de uma seringa especial.)
Mas, em Curitiba, é provável que possa escolher, sim. Espero!