Durante a semana 27 (de primeiro a sete de julho), enquanto o blog estava hibernando, a Dinamarca entra no final do ano letivo.
Assim como no Brasil, o ano escolar termina com o início do verão. A única diferença é que aqui o final do ano letivo não coincide com o final do ano em si. É muito estranho. Em agosto começa um novo ano escolar.
Final de ano letivo significa um monte de gente se graduando, e para eles a graduação do ensino médio (segundo grau) é a mais importante, pois aqui não existe vestibular.
Então o que acontece? O cidadão termina o segundo grau e faz aquela festa – algo parecido com a festa dos aprovados no vestibular.
No Brasil, para mostrar para todo mundo que você foi aprovado, os rapazes raspam o cabelo e no dia do resultado, o povo sai pintado na rua, lambuzado de lama e sabe-se lá o que mais.

Aqui eles colocam um chapéuzinho na cabeça, sobem em caminhões para desfilar pelas ruas fazendo algazarra. Encher a cara é de praxe, como em qualquer canto do mundo.
Pelo que entendi esse negócio do chapeuzinho é uma tradição que vem desde 1854 e a cor da tarja indica que tipo de escola a pessoa frequentou.
Uma das diferenças do Brasil, é que aqui existem vários tipos de segundo grau. Uns dão mais ênfase para matemática, outros para artes, outros para área biológica, e tem o normalzão, que é o que eles chamam de Gymnasium. (Parece com a nossa palavra para ensino ginasial, mas a correlação não é a mesma, pois ginásio no BR era da quinta à oitava série do primeiro grau e aqui é segundo grau científico.)

No início eu achava uma bobagem esse povo fazendo tanta festa só porque terminaram o segundo grau e nem sabiam se entrariam para a universidade no curso desejado, já que aqui entra no curso por nota. Mas depois eu fui conhecendo mais e mais sobre o ensino dinamarquês.
O que você diria se soubesse que aqui não existe prova durante o ensino fundamental? Nunca. Da primeira à nona série (e em algumas escolas existe uma décima série que é opcional e você só estuda as matérias que selecionar), nunca tem prova. Os professores avaliam se o aluno passa de ano baseado no que se vê durante o ano. Eu nunca ouvi falar de gente reprovando aqui.
Agora imagine esse povo todo, acostumado com mamata e que nunca fez prova na vida, quando eles chegam no segundo grau, eles tomam um baque. Tem prova e é a matéria toda do ano de uma vez só. As provas não são bimestrais. É uma só no fim do ano, e a nota que vc tirar vai te acompanhar para o resto da vida e dela dependerá seu futuro para entrar para a faculdade. Tem neguinho que vai até para psicólogo para superar essa fase, acredita?
Se eu estivesse no lugar deles, eu também sairia festejando para comemorar que finalmente terminei esse pesadelo de ensino médio.
Com relação a essas provas, eu já escutei diversas coisas. Já escutei que para algumas matérias as provas são como as de vestibular. Você tem 4 ou 5 horas para responder a tudo. Mas também já ouvi que as provas são orais.
Prova oral, acho que eu só fazia prova oral nas aulas de inglês e olhe lá. Não consigo nem imaginar o que é fazer prova horal de história, geografia, química.
Mas olha a mamata: 30 minutos antes da sua prova oral, você sorteia a pergunta que terá que responder. Nesses 30 minutos você pode usar todos os meios de comunicação para procurar a resposta: livros, internet, telefone, rezar para São Longuinho. Fica a seu critério. Claro que 30 minutos é pouco para achar uma resposta, se vc não tem a mínima idéia do conteúdo do assunto. Tem que estar preparado.
Esse estilo de prova oral é o que te segue pelo resto da vida. Nas universidades as provas todas são orais com exceção de idiomas e das técnicas: física, matémática, química, onde se resolve uma questão ali na hora, escrevendo no quadro negro – e detalhe, tudo isso com platéia, pois as provas são abertas ao “público” (os colegas).
Esse negócio de só fazer prova oral tem uma consequencia. Neguinho aqui não sabe escrever. Em compensação sabem argumentar bem. Todo dinamarquês tem palpite para tudo. Para eles é super híper importante dar a opinião deles sobre determinado assunto e dizer se concorda ou não concorda. Mas, porém, todavia… a opinião deles não pode ser muito diferente do da maioria, ou a pessoa será excluída. É uma mentalidade estranha, essa mentalidade de igualidade.
Outra coisa diferente: A maioria das provas são com auxílio. Enquanto você senta ali com suas perguntas, vc pode procurar as respostas no livro, na internet, no seu caderno de anotações.
Para nós isso parece loucura, já que no nosso Brasil dá-se importância à decoreba. Se não lembrar a resposta na hora da prova, lascou-se. Não é, não? Mas aqui ninguém se importa se o estudante se lembra disso ou daquilo de cor. Isso não interessa para eles, porque informação se acha fácil depois que se formar. Para eles é mais importante saber solucionar problemas, e por isso as escolas ensinam a raciocinar para resolver situações difíceis que ocorrem no dia à dia (enquanto no BR só se aprende isso com a prática).
Mas não fique pensando que isso é genial, pois eu vejo os recém formados que entram na minha empresa, eles não sabem nada e são uns iludidos. Pelo menos os “decoreba” brasileiros se empenham em fazer estágios relevantes e não chegam cru no mercado de trabalho.
Não sei se você sabe, mas as universidades dinamarquesas todas são gratuitas e sendo estudante, o governo paga uns salário estudante para você. Se você mora com os pais, o valor é bem pequeno, só para ajudar com gastos com livros, mas se vc saiu de casa e mora por exemplo numa república de estudantes, o valor é 4 vezes maior (mas tem que pagar 37% de imposto – aqui ninguém escapa do imposto).
Claro que todo esse gasto que o governo tem contigo não é de graça. Depois que se formar você é obrigado a trabalhar por pelo menos 2 anos no mercado dinamarquês e pagar impostos aqui que é para retribuir aquilo que foi gasto com a sua educação. E lembre-se que o imposto é gradativo, quanto mais se ganha, maior porcentagem se paga. Já vi neguinho pagando quase 72% de imposto. Eu, particularmente, acho que não vale a pena ganhar mais. Se vc quer ser rico, não deve se mudar para a Dinamarca, pois aqui se trabalha para o governo, literalmente.
Vou parar por aqui. Esse foi um gostinho da educação dina. Outra hora eu conto mais.
Cada um (o ensino brasileiro e o dinamarquês) tem seus prós e contras, aliás deve ser assim pelo mundo afora… nem tem como ajeitar tudo em todos.
Mas é bem bacana esse ensino médio diferenciado, faz sentido. Umas coisas de matemática que nunca mais vi na vida! E eu me pergunto: por que diabos eu tive que estudar aquilo?
72% de imposto?? Aí o pessoal não pede p/ ganhar mais, hein!? rs
Dá para pedir para ganhar mais, mas vale a pena? Se o imposto é gradativo?
às vezes quando tem bônus na minha empresa eu fico toda preocupada. No momento eu pago 47%, mas se eu ganhar acima de uma certa quantia por ano, aí de repente a taxa extra é 15% a mais e de 47 para 62 tem uma boa diferença!