Suposições

Conhece aquele tipo de gente que só escuta o que quer escutar? Nunca passou por isso? Sorte sua. Aqui na Dinamarca a gente sempre encontra um desse tipo, especialmente se vc é estrangeiro. Mas o episódio de hoje bateu recorde.

Meu amigo alemão mandou uma lembrancinha e eu fui buscar o pacote no correio 24 horas. Sim, eu disse correio 24 horas. Essa foi uma das soluções que os correios daqui inventaram para entregar pacotes de quem nunca está em casa em horário comercial. Correio 24 horas é uma máquina com gavetas de diversos tamanhos para acomodar os pacotes. Vários bairros e cidadezinhas receberam um correio 24 horas. Quando o seu pacote é “entregue”, ou vc recebe duas senhas no seu celular ou email, ou eles deixam um código de barras na sua caixa de correio e com ele vc vai buscar o pacote na máquina.

Døgnposten

Essa foi a primeira vez que fui buscar pacote usando código de barras (sempre usei senhas antes). Eis que coloco o código de barras no leitor, a máquina pede então que eu coloque meu cartão de identidade na máquina para comprovar que eu sou realmente eu, e plim-plim, a  portinha de uma das gavetas se abriu.

Puxei meu pacote e vi que tinha outro pacote lá dentro. Ainda pensei, esse alemão está doido, mandou dois pacotes ao mesmo tempo? Mas olhando o destinatário do segundo pacote, vejo que não é para mim. Por engano o pacote de outra pessoa ainda estava na máquina e o carteiro não o viu quando colocou o meu pacote na gaveta.

O selo dos correios dizia que aquele pacote tinha sido entregue no dia 15 de dezembro e normalmente se tem apenas 15 dias para buscar o seu pacote. Ou seja, já tinha passado da data e seria devolvido para o remetente.

Vi que era um pacote de firma. Havia duas etiquetas na caixa. Uma do Canadá para uma fábrica farmacêutica, e outra da loja varejista para a pessoa, a tal de Karin. Seja o que for, se fosse eu quem tivesse encomendado esse pacote, eu gostaria de recebê-lo.

Eu e essa minha mania de querer ajudar a todos… Entrei no site das páginas amarelas e pelo endereço eu achei o telefone. Ligo para Karin mas quem atende é um homem.

(Falando em dinamarquês)
– Alô, meu nome é Cristiane, estou procurando a Karin
– *#@$*&%… (juro, não entendi nada do que esse homem respondeu)
– Eu encontro a Karin?
(Aí ele responde em inglês com um sotaque estranho, e eu cheguei até a pensar que esse homem não falava dinamarquês, por isso continuei em inglês. Ele diz:)
– Você ligou errado, não conheço
– não conhece Karin?
– Você ligou errado, aqui é Dinamarca
– Ainda bem que é Dinamarca, porque eu estou ligando para a rua Dronning V.
– Ah, é aqui
– E vc não conhece a Karin? eu perguntei
– Ah sim, está aqui, um segundo.
– ????

Pode isso? O cara é dinamarquês e supôs que um estrangeiro que fala dinamarquês ligando para a casa dele é engano. E eu estava dando o nome completo da Karin. Ele nem sequer parou para me escutar. Sem comentários.

Mas ainda bem que eu não desisti. Quando ela atendeu eu continuei falando dinamarquês e ela não teve problema nenhum para me entender, e olha que eu falo com sotaque! Essa moça ficou tão aliviada que o pacote foi encontrado que me contou a história toda. Na noite véspera de natal, estava a maior geada, ela foi até a máquina e a portinha da gaveta estava emperrada. Ela disse que escutava clicar mas nada de abrir a porta para ela pegar o pacote.

Disse que telefonou para o serviço de assistência e a resposta foi que eles não poderiam fazer nada, que ela tinha que aguardar o pacote retornar para o remetente e então conversar com a firma novamente e pedir para eles remeterem novamente.

Ela liga para a firma remetente várias vezes e nada, eles não tinham recebido o pacote de volta. Mas claro, se o pacote ainda estava na máquina.

Foi uma satisfação saber que a minha decisão de telefonar para ela foi a melhor decisão que eu poderia ter tomado. E eu perguntei o que ficaria melhor para ela, se eu entregasse o pacote para a agência do correio ou se ela viesse aqui em casa buscá-lo. Ela vem buscar o bendito aqui em casa amanhã. E hoje eu vou dormir satisfeita por ter tido a oportunidade de ajudar alguém.

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2 Responses to Suposições

  1. Gabriela diz:

    Pessoas complicadas tem em todo lugar mesmo, hahaha… No dia do Natal fui ao supermercado às 11:30 da manhã comprar um único ingrediente que faltava para o almoço e adivinha? Estava lotado! Peguei o produto e fui até a fila de no máximo 10 unidades que estava entulhado de pessoas, não sabia onde começava e onde terminava. Tinha um senhor parado no meio daquilo tudo com um carrinho no corredor, então eu perguntei à ele se ele estava na fila e ele me respondeu “sorrindo”: “O que você acha?” Eu nunca dei barraco em público, sempre faço de tudo para o ser a mais discreta possível, mas esse dia… Enfim, o que custava para ele dizer: “Sim” ou “Não”, da mesma forma o homem no telefone ao ouvir Karin, o que custava simplesmente chamá-la? Seres humanos!

    • Cris diz:

      Jura que o homem estava de carrinho na fila do caixa rápido? Puxa, e eu sempre pensei que ali fosse para quem estivesse com a cestinha. Mas tem muita gente folgada nesse mundo!

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