Outro rumo

Às vezes a gente acha que a vida anda tumultuada, e a gente mal vê a hora das coisas tomarem outro rumo. Eu estava me sentindo assim.

Me mudei faz uma semana, e estou naquele período de adaptação:
outra localização
outros barulhos
outros vizinhos
redondezas que devem ser descobertas.

Fora isso, a gente vai descobrindo os pequenos inconvenientes no apartamento novo:
torneira que pinga sem parar
fiação desencapada
pentelhação para instalar uma máquina de lavar roupas
empresa que não quer entregar o guarda-roupas porque acha que eu moro longe
e assim vai.

Essa multitude de probleminhas roubam minha energia e mal tenho conseguido me concentrar nos meus estudos e no meu trabalho. Estava simplesmente esperando a vida tomar outro rumo quando, ontem, escutei duas histórias que me fizeram repensar minha situação.

Burrada

Semana passada, o telefone da minha colega tocou no meio da tarde. Era seu amigo de anos, chamando para ajudar numa emergência. Ele tinha se envolvido num acidente na estrada, ou melhor, ele tinha causado um acidente de engavetamento.

Minha colega, Helle, foi chamada para dar depoimento para a polícia no local do acidente. Ela contou que ao se aproximar do acidente, viu que tinha um cavalo na pista.

Foto do acidente na semana passada, publicada no jornal local

Olha a situação: o amigo dela, que vou chamar de João, tem doença de Parkinson avançada. A doença dele chegou num ponto que ele mal consegue se comunicar; ninguém entende o que ele fala, e por isso ele telefonou para Helle, para ajudar a explicar para a polícia o que aconteceu.
Na verdade, João não tem condições de dirigir, mas ele pediu o carro da vizinha emprestado. A vizinha emprestou o carro porque se sentiu forçada a aceitar o pedido de empréstimo.

A gente acha que somente no Brasil tem o famoso “jeitinho brasileiro”, mas escuta essa: a vizinha dele tem menos de 24 anos e custa muito caro para jovens com carteira de motorista recente fazer seguro de carro (que é obrigatório na Dinamarca). Para pagar menos no seguro, João se ofereceu a fazer o seguro em seu nome, fazendo de conta que o carro era dele. Então no dia que ele pediu o carro emprestado, a vizinha deve ter sentido que devia um grande favor para João e lhe emprestou o carro. Grande erro.

Não sei como o acidente aconteceu, mas ele fez tombar um trailer transportando dois cavalos. Um dos cavalos teve muitos ferimentos e teve que ser sacrificado. O carro deu perda total. Pelo menos o carro tem seguro que vai pagar por todos os danos a terceiros, inclusive a perda do cavalo (que eu imagino é um animal que custa uma fortuna).

Bombástico

Escrevi para minha amigona, Elise, para saber se ela estava se sentindo melhor. Uma irritação no estômago a aflige e endoscopia – que não deve ser nada agradável – terá que ser feita.
Ela me respondeu dizendo que a endoscopia vai ter que esperar, porque semana passada eles foram evacuados do prédio onde moram por causa de um carro-bomba.

Foto publicada no jornal local sobre o incidente do carro-bomba

Fiquei de cara. Em torno das 10 da noite, mais de 300 pessoas foram evacuadas porque numa luta de gangues ouve tiroteio e uma tentativa de matar um desses infelizes. Colocaram uma bomba no carro do bandido e ele largou o carro com a bomba bem na frente do prédio de Elise.

Por 12 horas as pessoas evacuadas ficaram num prédio empresarial ali próximo, até a situação se normalizar. Minha amiga disse que estava um frio do cão. Eu me lembro. Foi no dia que me mudei. A temperatura estava 4 graus abaixo de zero. Eu imagino que, até decidirem onde colocar 300 pessoas evacuadas, esse pessoal deve ter ficado na rua, no frio, aguardando instruções da polícia.

Por causa dessa situação de emergência, colocando tanta gente junta, não foi possível fazer distanciamento físico entre os evacuados e agora todos devem fazer o teste do covid.

Outro rumo

Eu aqui chateada com torneira pingando e barulho de garotada que atrapalha o meu sono. Eu devo ser agradecida por estar no quentinho, à salvo, sem precisar ser evacuada no frio por causa de tiroteio e de bomba, e sem precisar explicar para a polícia o porquê de um cavalo solto no meio da estrada.

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11 Responses to Outro rumo

  1. Cabeça Disneyssauro diz:

    Meu caneco, cavalinho FDP tiri ri tcha ra rá, hehehe
    Adoro dormir com barulho de chuva, de ventilador, ar condicionado, tv ligada, vizinhos brigando, carro bombo explodindo, hehehe, não sei pq mas gosto.

  2. Cabeça Disneyssauro diz:

    Lembro quando me mudei do centro para bairro, foi um choque, um bando de criança na bagunça até tarde da noite correndo na rua, já me acostumei, mas no começo foi muito difícil.

    • Cristiane diz:

      Eu acho que estou na mesma situação. Criançada correndo e gritando no corredor, música alta, e assim vai. O vizinho de cima gosta de arrastar móveis bem na hora que eu costumo me deitar. Vai demorar um pouco até que eu me acostume ou ache uma rotina que funcione.

  3. Cabeça Disneyssauro diz:

    Acho que João pensava que o carro era dele também, ou ele é muito radical ou péssimo motorista, hehehe, se fosse a garota mandava comer capim (emprestar carro nunca). kkkkk, imagine (pense comigo), João pegou o carro emprestado para colocar a tal bomba na frente do prédio da tua amiga, mas sofreu acidente e pegaram outro carro, acho que ele faz parte dessa gangue Parkinson.

  4. Gabriela Sakuno diz:

    Tô mesma fase Cris.

    Tudo parece que está de pernas pro ar… Meus documentos, meu trabalho, até o apartamento que estou morando, é ok mas a barulheira que é a noite me custa a conseguir dormir.

    Mas sabe o que eu ouvi falar esses dias, de que há 4 fases que passamos quando entramos em sintonia com o Universo: a primeira é a fase de que tudo parece estar uma confusão, e até achamos que está tudo “dando errado”. A segunda fase é quando começamos a refletir mais e assim temos mais momentos introspetivos. A terceira fase é quando a paz começa a invadir nossos sentimentos, independente de tudo estar caótico, ainda sentimentos uma positividade que nos deixar mais calmos e confiantes no Universo. E enfim, a quarta fase é quando TUDO começa a fluir positivamente e naturalmente e então recebemos o que manifestamos, magicamente.

    Saber disso me deixou mais otimista e confiante de que tudo vai dar certo.

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