Eu descrevi uns dias atrás que a primeira trilha com o grupo nos Alpes seria a trilha do dia 6. O nosso guia trocou todo o itinerário por causa do tempo e das gôndolas e teleféricos fechando antes do previsto.
A caminhada começou com temperatura de 12 graus. Até aí beleza. Eu estava preparada para até 8 graus. O que me preocupava era se o tornozelo ia aguentar.
Porém o tornozelo foi a minha última preocupação nesse dia.
Uns 200 metros depois de sairmos da gôndola, a australiana que tinha nascido na Suíça (nome dela é Esther) começou a sentir falta de ar. Eu era a última do grupo, bem lá atrás, mas quando ela parou para recuperar a respiração eu fiquei preocupada. Ela disse que o caminho estava muito inclinado. Foi aí que eu percebi que ela não conseguiria fazer nenhuma das caminhadas. Aqueles 200 metros estavam no plano. A gente não tinha subido nada ainda e mais tarde teríamos que subir 400 metros em rochas. Sem nenhum preparo físico fica praticamente impossível acompanhar um grupo numa subida dessas. Ela não estava conseguindo acompanhar no plano.
Eu vi tudo. Ela ia atrasar a gente demais e a previsão era que iria começar a chover pesado dali a uns 80 minutos.
Por sorte, depois da planície teve uma descida. O guia percebeu que Esther estava devagar demais, mas ele só falou para ela não perder tanto tempo recuperando o fôlego, e voltou lá pra frente do grupo. Eu continuei andando atrás dela. Foi aí que ela disse: “eu não estou conseguindo me equilibrar” e começou a despender para o lado direito do corpo.
Eu segurei na mochila dela e disse: eu estou te segurando. Não se preocupe. E fui descendo grudada nela, segurando para ela não cair.
Estávamos andando tão devagar, que todo mundo já tinha saído de vista. O guia voltou e aí ele percebeu que algo não estava bem. E ele passou a segurar Esther pelo braço.
Chegamos numa junção onde o resto do grupo estava esperando fazia 40 minutos, coitados, passando frio. Passou um carro e o guia pediu para o carro levá-la de volta para a gôndola. Outras australianas foram junto.
No final do dia vem uma foto. Esther estava no hospital. Passou a noite lá. Ela tinha sofrido um pequeno derrame. Olha que perigo.
O médico falou que ela não poderia ir em altitude ou fazer as caminhadas. Entao Esther não fez nenhum dos passeios conosco.
A boa notícia é que eu consegui fazer todas as trilhas, até mesmo a de 17 km, e o meu tornozelo não reclamou.
Quem reclamou foi o quadriceps da perna esquerda. Acho que para proteger o tornozelo direito, eu estava usando demais a perna esquerda. Chegou uma hora, numa descidona, que o músculo disse assim pra mim: ou você começa a usar a outra perna, ou amanhã eu faço greve!
Nesse dia que a perna reclamou, foi a trilha mais difícil de toda a viagem. Mas isso eu conto outra hora… Viagem cheia de emoções essa.