O que me motivou a viajar para o Japão foi a vontade de fazer a trilha do Kumano Kodo. Foi em 2019 que descobri sobre essa peregrinação. Aqui na Europa se fala muito do Caminho de Santiago de Compostela, que é protegido pela Unesco. Tem gente que anda os 800 km do Caminho várias vezes nessa vida.
Pois eu descobri que Kumano Kodo e Caminho de Santiago estão conectados via Unesco e quem completa as duas peregrinações, recebe um certificado de peregrino especial.
Quando comecei a me preparar para a viagem em 2019, li que a trilha do Kumano é difícil, e foi aí que resolvi me juntar a um grupo. Pensei que eu precisaria de ajuda para fazer essa caminhada.
Eu estava prestes a comprar a passagem em março de 2020, mas no último momento resolvi esperar não sei o quê. Foi a sorte. Uns dias depois começou o rebuliço da pandemia e o Japão ficou fechado para turistas por mais de 2 anos. Algumas pessoas fazendo o passeio comigo tinham comprado a passagem antes da pandemia e tiveram que esperar até agora. Essa era a situação da minha companheira de quarto.
Eu me arrependo um pouco de ter me juntado a um grupo. Eu achava que seria uma caminhada difícil, mas no fim das contas não foi. Talvez algumas partes da trilha sejam difíceis, no entanto os 40 km que caminhamos em grupo, eu achei fácil. A dificuldade maior era quando tinha muita subida ou escadarias. A maioria do meu grupo estava na faixa etária acima dos 60 anos, e subir morro foi um pouco pesado para elas, principalmente a minha companheira de quarto. Pra piorar a situação, a mochila dela estava tão pesada, parecia que tinha uma âncora de navio lá dentro. Nosso guia carregou a mochila dela a trilha inteira no primeiro dia de peregrinação (mas também, acho que ela deu uns 100 dólares de caixinha pra ele no final da viagem, como agradecimento).
Vamos lá… A saída foi de Kyoto. Pegamos um trem no sentido de Wakayama. A vista do mar era linda e o trem tinha uns janelões para ver a vista panorâmica. Claro que eu estava sentada do lado errado do trem! Três horas de viagem até Kii-Tanabe, onde eu peguei meu passaporte de peregrino e onde comi pela primeira vez daquelas bandejas cheias de comida (sopa miso, arroz, picles, tempura de camarão, salada, ovo mal cozido, molhinho que acho era para molhar o camarão). De bebida eles sempre dão gratuitamente um copo d’água e uma xícara pequena de chá verde.
A trilha começa no posto de informação do Kumano Kodo e no poste número 1. A peregrinação é para visitar centenas de templos. Então esses nomes estrangeiros que vou escrever, são todos os nomes dos templos. Na primeira etapa foram 5 km de Takijiri-oji até Takahara-kumano. Subida de 400 metros somente. Fizemos em 2 horas.

Quando chegou nos 371 metros de altitude, o povo estava contente e tiramos uma foto. A caminhada era por entre as raízes de árvores ou umas samambaias. As árvores de cedro eram tão retinhas e altas. Eu nunca tinha visto nada igual. Normalmente árvore de floresta é contorcida ou torta. O caminho é na floresta fechada. Foram poucos os lugares onde tinha vista das montanhas.
No final da trilha, a guia disse que demoraria 1 hora de táxi para chegar no hotel. Achei melhor usar o banheiro e perguntei onde era. Pois não é que enquanto estou no banheiro, o outro guia decide tirar uma foto de grupo?! Foi a foto mais bonita da viagem. Mas cadê tia Cris nessa foto? Ninguém sentiu minha falta. Fiquei mordida de raiva. Disseram depois que me procuraram e não sabiam onde eu estava. Ué, como não? Eu tinha acabado de perguntar pra guia onde era o banheiro. Quando saí do banheiro, já estavam todos dentro do furgão me aguardando para ir embora.
Essa foi nossa primeira noite num ryokan (alojamento tradicional japonês). E nesse ryokan, além de uma bela vista, tinha fonte natural de água quente vulcânica (onsen), onde a gente tomava banho, porque nos quartos não tinha chuveiro.
Primeiro, tirem os sapatos e coloquem os chinelos. Depois, se prepara para o jantar.
Não deu tempo para tomar banho e tirar a craca do corpo antes do jantar. Seis e meia da tarde em ponto, todos sentados na mesa. A quantidade de pratos e potes sobre a mesa era incrível.
O jantar foi estilo Kaiseki (refeição servida em múltiplos pratos, coisa bem tradicional japonesa). Como tudo era estranho ou novidade, eles fizeram um “mapa” das comidas na nossa frente e qual a ordem de comer, do número 1 ao número 9, 10, 11… era comida que não acabava mais.
Começava com um drink de ameixa feito com água vulcânica do onsen. Dizem que água vulcânica faz bem pra digestão. Depois os picles, sopa de batata, tofu com sal, sashimi, shabu-shabu de carne de porco (que eles tiveram que nos ensinar a como cozinhar no potinho de água fervente), sopa de peixe, macarrão com algas marinhas, peixe do rio grelhado no palito (que foi uma aventura comer usando dois pauzinhos e como tinha espinha nesse peixe!). O número 10 era arroz, mais picles, mais sopa. Número 11 era sobremesa. Pudim de amêndoa.
Eles servem água e chá verde, mas com tanta comida, eu pedi uma garrafinha de saque quente, para ajudar a digerir tudo isso.
Depois fui tomar banho no onsen com as outras mulheres peladas. Vi que tinha “banheira” dentro, mas também tinha fora, para ficar de molho observando as estrelas. Como tinha muito mulher do lado de fora, eu resolvi ficar do lado de dentro onde só estava eu e minha companeira de quarto.
O bom desses onsen público é que tem uma área para secar o cabelo e passar hidratante. No meu último dia consegui tirar uma foto quando não tinha ninguém lá dentro.
Fomos depois dormir na cama mais desconfortável da viagem. Um futon no chão.
