Crônica

O marido de uma das minhas amigas escreveu uma crônica bem bacana sobre um acontecimento recente, e porque eu achei genial, pedi permissão para compartilhar a história aqui no blog.

Como só escutei a história uma vez e ainda em inglês, eu espero que eu consiga retratar bem os acontecimentos:

Ele, um americano vivendo na Dinamarca há mais de 20 anos, professor na universidade aqui há mais de dez anos. O reitor da universidade o nomeia para receber a Cruz de Cavaleiro da Ordem de Dannebrog.

Esses nomes pomposos, coisa de país com monarquia. Vc pergunta que nome é esse, eu digo, é algo que parece com a Ordem da Távola Redonda.

A cruz parece uma medalha e muito poucas pessoas recebem essa condecoração. Quem a recebe tem a chance de uma entrevista particular com a rainha. Fiquei também sabendo que quando se morre, não se pode nem ser enterrado com a cruz ou passar para os filhos como recordação, mas deve-se devolvê-la. Nunca vi disso. Então não é dado, é emprestado? Bom, deixa isso prá lá.

Ele não queria aceitar a condecoração, uma, por ser estrangeiro e outra, por ser judeu. Achava que não seria adequado aceitar uma condecoração de um país cristão. Então ele perguntou a minha amiga, sua esposa, sua opinião. Ela disse: Olha, você é estrangeiro aqui nesse país, e se a Dinamarca quer te dar alguma coisa, você aceita!

Ele resolveu seguir o conselho que lhe foi dado. No dia que a cruz chegou, chegou também um convite oficial para a entrevista com a rainha. Dizia o convite que ele deveria usar a sua melhor roupa para o encontro com a realeza.

O terno, blusa e gravata estavam em ordem, pois minha amiga os tinha comprado não fazia muito tempo. Os sapatos, ele pensou em usar um par que tinha comprado há muitos anos para uma ocasião especial e que só tinha usado uma vez.

Foi ao sótão para buscar os sapatos e reparou que o couro estava ainda muito bem. Nem parecia que tinha ficado num sótão sofrendo com calor e frio intenso por vários anos.

Na hora de sair de casa, chamou um táxi. Normalmente ele só anda de bicicleta, mas dessa vez não queria se sujar.

Chegando no castelo, ao descer do carro, notou que os sapatos estavam meio estranhos. Caminhando mais um pouco reparou que a sola começou a se despedaçar. Pensou em voltar para casa para trocar os sapatos, mas agora já não havia mais tempo para isso.

Na entrada, ajeitaram a cruz no terno dele dizendo que não era para colocar na lapela do terno, pois não era uma medalha de natação. Depois de pregar a cruz devidamente, o fotógrafo real tirou sua foto.

Foi então encaminhado para uma sala de espera, onde várias outras pessoas também aguardavam pela audiência com a rainha.

Ele ficou sentadinho quietinho. Pelo chão havia um rastro de pedaços de borracha que iam em direção ao seu assento.

Um cidadão vestido em traje oficial ou farda, estava caminhando pelo salão e se deparou com um pedação de sola de sapato. Simplesmente pegou a espada ou cajado e deu uma cutucada no borrachão, que rolou salão afora foi parar num canto da sala.

Meu amigo ficava imóvel, de cabeça baixa, torcendo para que ninguém percebesse que o rastro de sola de sapato ia diretamente para ele.

Enquanto estava esperando por sua vez, se lembrou que ele costumava ter pesadelos onde ele perdia os sapatos. Definitivamente hoje parecia que o sonho estava virando realidade.

Chegou sua vez. Abriram a porta para ele entrar. Ele cumprimentou a rainha fazendo uma brincadeira: Sei que Sua Majestade está acostumada a entender dinamarquês falado com sotaque. (Meu amigo, como a maioria dos americanos que conheço aqui, fala dinamarquês com sotaque bem carregado e ele fez uma referência ao marido da rainha, que é francês e também carrega no sotaque na hora de falar o dinamarquês).

Então ele disse que estava muito grato que o reino da Dinamarca financia as pesquisas dele com herbicidas e de como o projeto é importante para a agricultura do país.

No final da conversa ele felicita a rainha pelo jubileu de 40 anos de reinado que estava por vir.

Na despedida ele não sabia como proceder, pois na hora de entrar na sala da rainha as portas tinham sido abertas para ele, mas agora ele não sabia se alguém abriria a porta para ele sair. Não sabendo o que fazer, ele perguntou para a rainha mesmo:

– Eu é que tenho que abrir aporta?
Ela disse que sim.
– E onde fica a porta?
Ali para a direita.

Ele abriu a porta e foi embora e ficou torcendo para que a rainha não notasse o rastro de borracha que ainda estava se espalhando pelo chão.

No final, disse que o dia correu tão bem que não estava achando incômodo andar sem as solas do sapato.

Junto com essa crônica estava a foto dele com a cruz pendurada no peito. Minha amiga me pergunta quanto eu acho que a foto custou. Como tudo na DK é caríssimo, eu arrisquei umas 200 coroas (70 reais). Ela disse que custou 900 coroas (300 reais), porque é o fotógrafo real. E tem mais, não é nem permitido scanear e colocar em algum site da internet. Só porque é o fotógrafo real.

Fotógrafo real, que nada. De onde eu venho isso tem outro nome.

Pega ladrão!

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6 Responses to Crônica

  1. Manoela diz:

    hahahahah… poxa! 300 reais…
    Aconteceu dessa com a vó. Mas eu percebi que o solado estava se desfazendo antes de sairmos.

  2. Manoela diz:

    É, dos anos 70 são os recentes! hahah

  3. Aroldo, pé de repolho diz:

    Gostei do conto chines, hehehe
    mas se fosse eu, ahhhh, tadinha da rainha
    antes de sair soltava um peido, aqueles bem silencioso, mais conhecido como peido amigo, onde vc vai ele te segue. hehehe

    hehe

  4. Pingback: Rainha 8.0 | Cris.dk

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