Saí de Kamikochi no ônibus das 15h a caminho de Matsumoto. Não era direto; tinha que trocar para um trem local na estação de Shinshimashima (ô nomezinho difícil de dizer). Quase 2 horas pra chegar. Nesse tempo de viagem eu estava pendurada no celular tentando achar hotel ou alojamento em Tóquio para passar a noite. Não estava entendendo que estava tudo lotado nos websites que eu consultava. Quando aparecia algum hotel com quarto livre ou era quarto fumante e com preços nas alturas (mais do dobro do que eu tinha pago até então). Não é à toa que a Air France não queria pagar dois dias de alojamento pra mim.
Num desespero cheguei a procurar por hotel na cidade de Nagano. Tive essa ideia de que eu poderia dormir lá e pegar o primeiro trem bala às cinco da manhã para chegar no aeroporto em Tóquio à tempo. Mas em Nagano também estava tudo lotado. Até então, eu não sabia do feriado do dia da cultura. Eu achava simplesmente que estava sem sorte.
Na estação em Matsumoto tinha fila para comprar a passagem e eu perdi o trem das 17:20. Uma hora de espera até o próximo. Fui para a praça de alimentação comprar lago para comer mas meu estômago estava embrulhado de nervoso e não consegui comer nada.
São 3 horas e meia de trem de Matsumoto até Shinjuku em Tóquio. Eu passei 3 horas e meia procurando hotel. E não só em Shinjuku mas em outros bairros também. Nada. Só achava quarto que estava caro demais (80 mil yen pra cima) ou quarto de fumante.
Num momento de desespero postei no meu Facebook que eu precisava de ajuda. O povo achava que eu precisava nome de websites para reservar hotel. Não era isso. Um forrozeiro de Paris escreveu que eu poderia procurar por lojas de manga, que muitas dessas lojas têm cabines privadas e chuveiro e pode-se dormir. Fiquei com isso na cabeça como última alternativa, porque pra mim, manga é lugar para punheteiro e eu não queria dormir num lugar assim.
Dez e meia da noite, cheguei em Shinjuku mega cansada e sem lugar para passar a noite. Do lado de fora da estação tinha um mundo de gente na rua. Era por causa do feriado. A cidade estava uma loucura, mas eu não sabia, achava que era simplesmente um sexta de noite.
Resolvi tentar a sorte e visitar a recepção de alguns hotéis. Perdi muito tempo com isso.
Enquanto eu estava no trem, o meu celular estava carregando, mas caçando hotel em Shinjuku com o mapa aberto, a bateria do celular ia arriando rapidamente.
Eu estava trocando mensagens pelo Zap com minha mãe e com Shane. Minha mãe fazendo reza e me desejando boa sorte, e Shane me deu uns alertas para evitar certas áreas perto da estação de Shinjuku. Eu tinha achado uma loja de manga no mapa, mas estava bem na região que Shane tinha alertado para evitar.
Então vou caminhando no sentido oposto, pensei. Passei por uma área iluminada que achei bonita e fui entrando nos hotéis que achava no Google Maps.
No último hotel que entrei, acho que eram onze e pouco da noite, quando eles disseram que não tinha vaga, eu percebi que eu estava esgotada. Não tinha mais energia. A recepção era no terceiro andar, quando voltei cabisbaixa para o térreo decidi usar o banheiro e escovar os dentes. Senti uma vontade de chorar mas as lágrimas não saiam.
Se eu não estivesse tão cansada, eu poderia entrar num barzinho e ficar enrolando até altas horas e ir para o aeroporto de madrugada se tivesse trem, mas eu estava num ponto de cansaço que não conseguia mais caminhar e meu tornozelo estava reclamando bastante.
Mas ajuda chega quando a gente menos espera…
Em frente ao hotel, olhando Google Maps, vi que não tinha mais hotéis por perto. Eu teria que caminhar até Shibuya. Foi quando Shane escreveu. Ele tinha achado um quarto vago usando um website que eu não conhecia e mandou o link. Estava meio caro, mas bem mais barato que os 80 mil yen que estavam me pedindo no Booking.com. O hotel era em Shinjuku e pelo link tentei fechar a reserva. Na hora de pagar, o website fechou e eu fiquei sem saber se tinha aceito o pagamento ou não. Nesse meio tempo Shane escreve novamente que também achou vaga num hotel na frente do Aeroporto de Narita e perguntou se ele deveria fazer a reserva pra mim. No desespero, eu disse que sim, sem pensar que demoraria 90 minutos de trem para chegar lá e já tinha passado das onze e meia da noite. Eu nem sabia se tinha trem para o aeroporto nesse horário.
Assim que eu pedi para ele fazer a reserva, chega o email de confirmação da reserva em Shinjuku. Putz, e agora? Será que Shane fez a outra reserva em Narita? E a bateria do celular arriando. Eu ia escrever para Shane, mas achei melhor telefonar. Por sorte ele não tinha feito a reserva ainda. Agradeci muito a ajuda. Se não fosse por ele, eu teria dormido na rua nesse dia.
Agora descobrir onde fica esse hotel. Eram 8 km de distância. Sem condições de caminhar até lá. Vou caçar um táxi. Onde será que tem um ponto aqui por perto?
Não deu nem 5 segundos, parou um táxi em frente ao prédio onde eu estava. Um casal saltou e eu já fui fazendo sinal para o motorista.
Foi uma corrida rápida e a única vez que andei de táxi no Japão. Lá eles têm esse sistema de que o cliente não deve tocar na porta do carro. A porta abre e fecha automaticamente. Lembrar disso é meio desafio, porque a mão vai direto na maçaneta da porta.
Cheguei na recepção e estava com dedos cruzados para que eles tivessem recebido a reserva. Aí a mocinha começa a confirmar: quarto para uma pessoa, para uma noite, fumante.
Como? Fumante. Não. Você tem algum quarto para não-fumante?
Enquanto ela procurava no sistema, entrei em pânico. E se não tiver quarto não fumante? Eu não vou conseguir ficar num quarto cheirando fumaça de cigarro. Coração batendo à mil no peito. Uns 3 minutos mais tarde ela conseguiu achar um quarto pra mim. Foi o quarto mais caro da viagem toda e o menos confortável, mas não posso reclamar. Foi um alívio saber que eu não ia dormir na rua.
4 de novembro de 2023
Dormi por umas 5 horas somente. Um sono pingado. Parece que quando a gente está demasiado cansado não consegue dormir direito.
Saí 6:50 do hotel para chegar 8:30 no aeroporto e buscar minha mala grande no guarda-volumes.
Dessa vez não tinha fila nem caos para fazer check-in. Por coincidência, a moça fazendo meu check-in era a mesma de dois dias atrás. Achei que ela se lembraria de mim, pois eu provavelmente fui a única pessoa a recusar hotel de graça, mas ela não deu indicação de ter me reconhecido. Eu entendo, afinal eles lidam com muita gente. Depois que coloquei a mala na balança eu disse: então o vendaval em Amsterdã passou? Ela olhou para mim e disse: eu me lembro de você. (Eu sou inesquecível. rsrs)
Meu avião não fez a mesma rota para voltar para Paris.
Na ida, o avião sobrevoou a Europa e a Ásia. Passamos por inúmeras cordilheiras e eu ficava na janela admirando. Nunca vi tanta montanha antes. Eu não sou muito boa de geografia e achava que teria montanha na França, Suíça e Áustria. Mas era montanha sem fim e continuava sobre Hungria, Romênia. Eu estava achando a vista fascinante. Depois de sobrevoar o mar negro, tinha mais montanha e uma que chamou muito a atenção, porque era pelo menos o dobro da altura das outras. No fundão da terceira foto. Olhei o mapa e deduzi que aquele pico é o monte Ararat.



Na volta, eu não dei sorte de pegar janela e para saber onde estávamos tinha que abrir o mapa de navegação. Então vejo que estamos sobrevoando a Groenlândia. Como assim? Eu achei que iríamos voltar pela mesma rota, ou seja, por cima da Ásia e Europa, mas o avião foi pro leste? Esse avião foi para o lado errado!
Isso quer dizer que eu literalmente dei a volta ao mundo! De Paris a Paris!
Trocando mensagens com Shane, fui saber no dia seguinte que um vulcão no leste da Rússia (em Kamchatka) entrou em erupção jogando 8 km de cinzas no céu e os aviões estavam desviando e passando longe dali. Por isso meu avião foi para o lado oposto. Engraçado que o piloto nem falou nada e a mídia e noticiários também não. Mas achei um vídeo no YouTube da erupção e salvei o print ao lado.
Descobri também que no momento que eu estava checando o mapa e vendo que estávamos sobrevoando a Groenlândia, Shane estava checando a rota do meu voo.
Ele me mandou um print.
Naquele momento, o meu avião era o que estava mais ao norte de todos os outros! Tia Cris dando a volta ao mundo.


