Cadeirante

48 horas em uma cadeira de rodas. Olha, ser cadeirante requer muita energia.

Eu peguei bem a manha de manobrar a cadeira, com exceção das curvas em velocidade. Vou dizer, andar de cadeira cansa bastante o braço e o pescoço. Tem que ter força no triceps. Não sei se uma cadeira de rodas pode ser feita sobre medida para o tamanho da pessoa, para não cansar tanto o pescoço?

Se você não me segue no FB ou no Insta, deve estar se perguntando o que aconteceu.

Eu estou em Budapeste na Hungria. Viajei sozinha mas calhou que minha amiga Teresa estava na cidade. No primeiro dia, ficamos de nos encontrar de tardezinha para ver uma exposição sobre o pintor Van Gogh e depois jantar num restaurante brasileiro. No meio da tarde, horas antes de dar o horário do nosso encontro, nossos caminhos se cruzaram por acaso. Eu estava na frente de uma ponte linda e do meu lado parou um ônibus de turismo. Olhei para dentro do ônibus, e quem vejo? Teresa!

Aliás, meu primeiro dia em Budapeste foi cheio de encontros brasileiros. Muito turista brasileiro aqui. Esbarrei num pessoal do Rio; conversei com um casal de Cascavel que tirou um monte de fotos minha, parecia até um book fotográfico. 

No meu segundo dia de viagem, achei que não encontraria Teresa. Ela tinha planos de ir para uma das cidades vizinhas daqui e eu fui ver a área do outro lado do rio (Budapeste é dividida pelo rio Danúbio, de um lado fica Peste, do outro, Buda).

Quando Teresa escreveu para me perguntar se eu queria ir comer um goulash juntas, eu disse que sim. Nos empanturramos de comida e vinho. Eu estava pronta para pegar um taxi e voltar para meu hotel, mas Teresa perguntou se eu queria caminhar um pouco. Estava uma noite muito agradável, então, apesar do cansaço, eu disse que sim. Estávamos muito perto daquela ponte linda e do castelo do Buda. Então fomos naquela direção.

Os prédios estavam todos iluminados. Lindo de ver. Eu pensei que poderíamos pegar o teleférico para subir o morro. Dizia que o preço era 2000 forints para subir e 4000 ida e volta. Eram nove e pouco da noite e o teleférico só funcionava até às dez. Pensei, pegamos só de ida e depois pra descer o santo ajuda.

Na hora de comprar o bilhete só de ida, a mulher no guiche se recusou a nos vender só ida, dizendo que tínhamos que comprar ida e volta. Eu, esquentadinha do jeito que sou, achei um absurdo que a placa dizia que dava para comprar só de ida, mas a mulher não queria vender. Foi aí, enquanto eu falava pra Teresa que ‘as escadas estão para aquele lado’ que meu pé se enfiou num buraco na calçada, fez creque, torceu feio e eu caí e não consegui mais me levantar.

Umas garotas asiáticas pararam para perguntar se precisávamos de ajuda e se ofereceram para telefonar para uma ambulância, mas eu estava com tanta dor, não conseguia pensar direito. Teresa muito preocupada, queria me levar para me sentar num banco, mas eu não conseguia colocar o peso no pé. Eu não conseguia dar nem um passo.

Vi muitos táxis passando e pedi para Teresa pegar um para me levar para o meu hotel. Eu não queria ir para um pronto socorro, porque estava cansada demais e eu sei que em hospital demora horas e horas (ainda mais de noite no feriado de sexta-feira santa). Também tinha esperança que o problema era somente uma torção e que no dia seguinte, após repouso, estaria melhor. Me despedi de Teresa, porque ela estava em outro hotel longe do meu e porque eu não queria estragar ainda mais o passeio dela. Ela iria embora no dia seguinte, enquanto eu ficaria o resto da semana pros lados de cá.

Quando entrei no taxi, cheguei a perguntar se ele conhecia algum hospital mas achei estranho que o taxista disse que não conhecia. Voltei pro hotel, como eu não conseguia andar, me arrumaram uma cadeira de rodas e gelo para o tornozelo.

O pessoal da recepção estava muito preocupado, achando que eu tinha quebrado o pé e mandaram o time médico me telefonar. Quando a mulher disse que o preço inicial para chamar uma ambulância era 650 euros, eu quase cai de costas.

Minutos mais tarde liga a recepção dizendo que poderiam chamar a ambulância normal e que daí não custaria nada. Eu disse que queria descansar um pouco antes de me decidir e se eu me sentisse pior, que eu entraria em contato com eles. 

Quando acordei de manhã vi que não havia nenhuma melhora. Muito inchado, pé meio dormente, não dava para mover o pé nem colocar peso nele. Fiquei com medo de que estivesse quebrado.

Liguei para meu seguro saúde viagem (que tenho há uns dez anos e nunca precisei usar antes), e eles me mandaram tomar um táxi e ir para o hospital universitário. Chegando lá, ninguém falava inglês. Pra piorar, parecia que ninguém queria me atender. A primeira coisa que perguntaram não foi qual o problema, mas qual era meu endereço.

Usando tradutor no telefone para comunicar, descobri que os hospitais em Budapeste têm jurisdição e só podem atender quem mora na região deles. O meu hotel estava fora da jurisdição desse hospital. Então volta ligar para meu seguro e explicar. Me mandaram então para o hospital militar. Lá me atenderam, mas também foi essa palhaçada de perguntar o endereço do hotel várias vezes para checar a jurisdição.

Cinco horas mais tarde, raio X de 4 partes do corpo, disse o médico de plantão que nada estava quebrado, mas que poderia levar 4 a 6 semanas para eu voltar a andar. Me recomendou comprar ma bota ortopédica, mas como tudo está fechado por causa do feriado da páscoa, somente daqui 3 dias que vou poder comprar. Nem muletas não me deram. Se não fosse a cadeira de rodas do hotel, não sei o que seria de mim.

Pude observar as dificuldades de um cadeirante. De repente as comidas do buffet do café da manhã estavam altas demais para eu alcançar. As pessoas se metem na frente da cadeira. Colocam umas lixeiras enormes na frente do botão do elevador e fica difícil chegar perto o suficiente com a cadeira para apertar o botão. Foram várias dificuldades até agora. Mas algumas pessoas ficam mais atenciosas. Fazem questão de te dar bom dia, perguntam se podem ajudar. Foi uma experiência interessante.

Eu poderia ter cancelado todo o resto da viagem e voltar para casa, mas eu estou tão precisada de sair daquele meu apartamento e da Dinamarca. Mesmo socada no hotel aqui é melhor do que ficar socada no meu apartamento. Então vou continuar viagem (mas avaliando de um dia pro outro, como estou me sentindo).

Na terça eu continuo viagem. Vou de trem para a Bratislava na Slovakia. São duas horinhas de viagem daqui. Passo um dia lá e depois sigo de ônibus para Viena na Áustria (60 minutos de viagem). Tudo muito perto. Visitar três países em 10 dias, viajando baratinho de trem e ônibus. Por que não? Eu já tinha planejado e pago todo esse passeio. Só que o plano era fazer caminhadas e mais caminhadas. Agora não consigo andar nem meio metro, não vou poder aproveitar tanto quanto eu queria. Mas vamos ver no que vai dar. 

Pelo menos no momento meu quarto de hotel tem uma bela vista do rio Danúbio. Aproveito para descansar.

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4 Responses to Cadeirante

  1. Manu diz:

    Foi uma bela arte, hein!

    Como foram os passeios depois disso?

    Imagino toda a dificuldade de um cadeirante, infelizmente quase tudo é projetado apenas para quem tem 100% de mobilidade…
    No Brasil, nem andar nas ruas é possível…

    • Cristiane diz:

      Foi mesmo uma bela arte.
      Não deu para fazer quase nada depois disso. Eu não conseguia andar.

      Não vi mais nada de Budapeste. Em Bratislava eu caminhei por 2 km, bem devagar. Deu para ver alguma coisa, mas não vi o castelo, já que era escadaria por todo lado e eu não conseguia subir nem descer escadas. Em compensação, em Bratislava eu vi a atriz Jamie Lee Curtis. Passei por ela duas vezes e passeio por um pessoal gravando uma cena de filme na frente da catedral.

      Em Vienna eu usei daqueles ônibus de turismo. Deu para ter uma noção da cidade mas não vi nada do centro histórico, já que eram ruas para pedestres. Meu pé já não estava aguentando. No final eu mal via a hora de voltar pra casa. Mas foi bom estar longe da Dinamarca por uns dias, longe do frio. Lá em Vienna estava 26 graus. Uma maravilha! Enquanto aqui a temperatura continua em torno de 2 graus. Ninguém merece, kkkkk.

      • Manu diz:

        Não acredito que ainda andou 2 km com o pé desse jeito!!! :O
        Tô chocada, passada!

        Que inusitado: Bratislava – Jamie Lee Curtis
        Você é um imã de famosos ou a Europa é tipo Paranaguá e todo mundo se esbarra? 😛

        Pelo menos mudou de ares (e ares mais quentinhos, rs), já é muito bom!!

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