Feijoada

Morar no estrangeiro não é fácil. Muitas vezes dá uma saudade da comidinha lá de casa.

Ontem fui jantar na casa de uma brasileira. Duas horas e meia de viagem até lá, pois ela mora em Lomma na Suécia. Ontem ela serviu uma feijoada de tirar o chapéu. Talvez a melhor feijoada que ela já fez, e ela convida para feijoada todo ano.

Achar ingredientes para feijoada pros lados de cá é bem difícil. No mercado não vende feijão, nem paio, nem carne seca, nem costelinha, nem linguiça calabreça, nem nada. Por isso, pros lados de cá, servir uma feijoada para convidados é algo muito especial. A gente quer agradar os convidades e o convidado sabe que deu trabalho, e foi caro achar ingredientes, muitos importados de longe. E na feijoada ontem tinha todos esses ingredientes que mencionei.

Eu raramente faço feijão em casa. Acho que compro feijão uma a duas vezes por ano e acabo comendo tudo como se fosse uma sopa de feijão. Algumas vezes misturo farinha de mandioca (importada da África) para fazer um tutu, outras vezes coloco um macarrão tipo conchinha dentro. O tradicional arroz com feijão eu só como quando vou na casa de alguma brasileira ou quando vou ao Brasil. Não como em casa, porque o meu não fica bom. Pelo menos não com o feijão que se acha aqui. Quando eu trago feijão do Brasil, aí é outra história, mas eu vou tão raramente ao Brasil.

Ontem eu matei a saudade de comer feijoada (apesar de eu não gostar muito de feião preto – eu prefiro feijão carioquinha ou o marrom). Repeti duas vezes e depois fiquei com o estômago mega pesado. Mas valeu a pena.

Foi provavelmente a última feijoada do ano. Normalmente é assim. Toda vez que uma brasileira faz aniversário, ela convida para uma feijoada. Eu conheço várias brasileiras, então eu como feijoada várias vezes por ano.

Normalmente sou convidada para a feijoada na Sônia em Novembro, feijoada na Anne em dezembro. Quando a Simone era viva, ela fazia feijoada em fevereiro, e como ela era do samba e capoeira, a turma levava instrumentos e se fazia uma roda de samba no meio do apartamento. Era sempre muito animado.

Em março é aniversário da Lilian, mas ela raramente serve feijão. Ela gosta de servir moqueca de peixe e fica muito boa. Esse ano eu não pude ir no aniversário dela, pois eu estava em Budapeste com o pé quebrado. Enfim.

De vez em quando, quando a Teresa convida a gente na casa dela, ela também serve feijoada. A última vez foi ano passado. E esse ano, pela primeira vez na minha vida, eu comi feijoada no dia do meu aniversário. Lá em Nice, no restaurante brasileiro. Nossa, aquela feijoada com uma caipirinha sabor maracujá estava demais.

Falando em caipirinha, nessas feijoadas todas as meninas tentam fazer caipirinha, mas nem todas têm a manha de fazer uma boa caipirinha. Ontem eu tomei a caipirinha por educação. Acho que a Anne macerou a casca do limão e ficou um sabor amargo. Uma pena, porque eu vi uma garrafa de pinga Sagatiba na mesa. Essa veio importada na bagagem, porque na Europa só se acha cachaça da marca Pitu para comprar.

Eu raramente convido gente pra vir aqui em casa. Eu não gosto de cozinhar nem de limpar cozinha, então é raro eu me animar para convidar. Mas esse ano eu resolvi convidar Teresa e Sônia para vir aqui. Elas vieram domingo da semana passada. Eu pensei em fazer um ensopado de carne, mas aí lembrei que elas evitam carne vermelha. Uma semana antes do encontro eu estava no mercado e vi umas abóboras. Pensei que eu poderia fazer camarões na moranga. E foi o que eu fiz. Ficou ótimo, mas nunca mais. Preparar as abóboras dá o maior trabalho. Sem falar que a moranga furou no fundo e não deu para colocar o creme de camarões dentro.

E a minha caipirinha? Eu achei uns limões lindos e na estante tenho meia garrafa de caninha 51. Coloquei a Pirassununga na mesa junto com duas garrafas de licores que tenho. As meninas chegam e dizem: estou de carro e não posso beber. Eu até perdi o rebolado. Agora tenho 7 limões na geladeira. Talvez eu faça uma limonada com eles.

Agora pensando…eu ainda tenho um pacote de pão de queijo da yoki que trouxe do Brasil. Eu poderia uma hora convidar umas meninas para vir aqui tomar um suco e comer pão de queijo. Mas e vontade para limpar apartamento e convidar?

Não coloquei nenhuma foto das feijoadas nem no dia do camarão na moranga aqui em casa, porque não tenho nenhuma. A gente está muito preocupada em matar a saudade de falar português e comer comida gostosa, que a gente nem pensa em tirar foto desses eventos!

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