Foguetão

Réveillon do ano passado eu passei em Singapura, e os fogos de artifício lá na virada do ano são fenomenais.

Eu não contei isso no blog, mas eu estava animada para ver os fogos. Desde que passei o réveillon de 2017 na ilha da Madeira e vi os fogos mais bonitos da minha vida, eu tenho vontade de repetir a dose. Então eu tinha altas expectativas para os fogos de Singapura.

Saí do hotel antes das onze da noite.  Meu amigo, Roy, disse que um bom lugar para ver os fogos seria na Marina Bay, mas do outro lado da ponte. Pensei, se eu chegar em torno das 11 da noite, terei tempo para achar um lugar.

Que ingenuidade minha.

O desafio já começou na estação do metrô. Acho que olhei errado e peguei uma linha de metrô que não ia até o outro lado da ponte. Tive que descer numa estação do lado de cá e eu teria que caminhar uns 20 minutos.

Quando cheguei na estação, fiquei chocada com a quantidade de gente na rua. A maioria não eram turistas nem locais, mas trabalhadores de origem indiana que foram para Singapura juntar dinheiro fazendo trabalho braçal em construção e limpeza. Eu nunca tinha visto nada igual. Era uma multidão maior do que do carnaval de rua de Salvador. Não dava para se mexer. Eu ainda tentei ver se dava para chegar do outro lado da ponte andando, mas estava tudo bloqueado pela polícia. Já tinha gente demais.

Eu acabei achando um cantinho e fiquei ali esperando dar meia noite. Quando os fogos começaram, percebi que eu estava num lugar ruim. Os fogos eram bem mais pra direita e um prédio bem alto estava tampando a visão.

Que falta de sorte.

Não vi nada e por isso resolvi voltar para a estação do metrô enquanto ainda estavam soltando fogos e a multidão estava lá tirando fotos. 

Que furada aquele réveillon. Eu deveria ter ficado no hotel, curtindo o calorzinho na sacada.

Aí esse ano, eu achei que daria mais sorte. Fui para Madrid, onde ouvi dizer que tem fogos bem bonitos na virada, na praça “Sol”.

Peguei um quartinho num albergue que ficava meia quadra da praça. Muito bem localizado.

Caminhei muito durante o dia explorando a cidade. Eu estava embasbacada. Como Madrid é bonita. Eu não sabia. Eu tinha uma raiva de Madrid, por causa da viagem de dezembro de 2007 com Carsten.

Naquela viagem demos uma falta de sorte e não vimos nada. Choveu o tempo todo e ficamos numa área residencial longe de tudo. Naquela época não tinha smartphone para ajudar a gente achar os lugares bonitos da cidade. A gente andava com um mapa na mão tentando achar os lugares para ver. Quando íamos perguntar informação na rua, as pessoas não paravam para ajudar. Elas saiam correndo, nem deixavam a gente perguntar. Dava a impressão de que tinham medo de ser assaltados ou simplesmente não queriam contato com turistas. Foi muito desagradável.

Isso, mais a chuva, combinado com o fato de que a gente não conseguia achar restaurante para comer (porque na época era permitido fumar dentro dos lugares –  imagine a nuvem de fumaça dentro de um lugar pequenininho fechado) fez com que a viagem fosse um fiasco. Eu nunca mais tive vontade de voltar em Madrid.

Mas esse ano dei o braço a torcer.

Valeu a pena ter voltado. Madrid num dia ensolarado é linda. Caminhei muito e tirei muita foto. Com as pernas cansadas,  voltei para o albergue para descansar e coloquei o despertador para 23:30.

Levantei, coloquei um monte de roupas, pois a temperatura estava abaixo de zero.

Cheguei lá embaixo na entrada do prédio e achei estranho que não tinha ninguém. Uma família de brasileiros estavam indignados com algo e perguntei o que aconteceu.

Aí eles apontaram para um bloqueio feito pela polícia.

A polícia bloqueou 40 metros da rua. Colocaram uma grade que começava 5 metros a esquerda do hotel e terminava uns 30 metros para a direita. Eles bloquearam aquele pedaço para evitar que mais pessoas entrassem na via principal que ia dar na praça.

Ou seja, não me deixaram entrar na rua principal, que era o lugar onde eu ia ver os fogos.

Apontaram para o outro lado do bloqueio e disseram que eu poderia para aquele lado, na rua secundária. Com o rabo entre as pernas e cabisbaixa, eu fui.

Na hora de passar a barragem, eu perguntei para o policial “quando eu voltar, você vai me deixar entrar aqui novamente?”. Ele deu a entender que sim.

A rua secundária estava tão abarrotada de gente que não dava nem para respirar. Era um empurra-empurra. Gente tentando passar a qualquer custo.

Fiquei com um pouco de medo, pois me lembrei do que aconteceu no Halloween de 2022 em Seul, onde 159 pessoas morreram pisoteadas por causa de um pânico que surgiu de repente numa rua abarrotada de gente.

Assim que passou meia noite, os fogos começaram mas não dava para ver nada de onde eu estava. Olhando para a frente, tinha um hotel com janelões de vidro e alguns fogos refletiam nele. Foi o que eu vi, reflexo de fogos.

Depois de um minuto, eu resolvi aceitar que mais uma vez meu réveillon foi uma furada e, me expremendo entre a multidão, voltei para a cerca onde estava o policial.

Eu falei, meu hotel é ali. Ele disse “não”, me deu as costas e foi caminhando para o camburão. Aquilo me enfureceu e eu gritei “Yo vivo aí”.

Ele deu meia volta e eu disse novamente que eu moro aí e mostrei a chave do hotel.

Ele me mandou parar de gritar. Eu nem tinha percebido que ainda estava gritando.

Foi uma conversa que durou alguns minutos e eu me segurando para não chamar aquele fdp por algum palavrão.

E meu réveillon foi assim: não vi fogos nenhum, gritei com um policial, e quase fui presa.

Agora chega, né. Ano que vem vou passar o ano novo na minha cama com tampão de ouvido.

Esta entrada foi publicada em Desabafos, Viagens. ligação permanente.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *