Derretendo

Nunca mais vou reclamar que na Dinamarca não tem verão, que nunca fica quente, que nunca tem sol.

Tá uma onda de calor terrível. Estou derretendo. De noite, ninguém dorme. Quente demais. Não chove desde abril. A maior seca, vocês não têm ideia. Temperaturas acima de 25 graus desde abril, sem parar.

Ouvi dizer que isso não acontecia aqui desde os anos 70.

No início, eu estava achando ótimo. Me estirava no sol todos os dias, pra aproveitar, já que esse tipo de coisa costuma ser raro aqui. Mas agora, depois de 3 meses, não aguento mais verão. Gente, quando é que vai cair uma chuvinha pra refrescar?

Coitados dos agricultores. Muitos perderam toda a plantação desse ano. Sem chuva nenhuma todos esses meses.

Bom… deixa eu parar de reclamar, porque isso a gente faz o tempo todo aqui, principalmente no meu escritório, onde depois das 2 da tarde vira um verdadeiro inferno e todo mundo vai embora, porque não tem condições de se concentrar quando está tão quente que não dá nem para respirar.

Descoberta

Desde a virada do ano que eu estou à procura de um novo hobby para passar o meu tempo, para me dar um pouco de ânimo, encontrar alguma alegria, e evitar cair em depressão profunda.

Evitar depressão completamente durante o longo inverno cinzento, escuro e chuvoso da Dinamarca é fantasiar algo que não existe. A realidade é que a cada inverno a gente batalha para sobreviver, para não se deixar a abater. Luta para tentar achar uma razão para viver e não deixar pensamentos suicidas tomarem forças. Essa é a verdade.
Esse ano eu passei pela pior depressão invernal que já tive. Chegaram e me aconselhar a ir ao pronto-socorro psiquiátrico. Eu achei que não estava tão mal assim. Mas uns dias se passaram, e eu mesma cheguei a conclusão que era uma boa ideia procurar ajuda. Minha chefe até se prontificou a largar tudo aqui no trabalho e ir comigo à emergência psiquiátrica.
Acabou que não foi preciso. Consegui uma consulta de emergência e estou aqui na luta para sair do fundo do poço. Lendo muitos artigos de gente que conseguiu superar depressão.
O ruim de pedir ajuda, é que todos ficam preocupados, pensando que você vai se matar.
Ficam o tempo todo me perguntando se estou bem. Isso cansa. Isso irrita. Isso deprime ainda mais.

E também não ajuda nada que quase todo dia, durante o inverno, a gente recebe notícia de alguém que se enforcou, que se jogou na frente do trem, que tirou a roupa toda e se afogou no mar. Ainda hoje uma colega de trabalho chegou aqui contando que o coleguinha de escola da filha dela se enforcou na garagem de casa semana passada.

Ontem, durante mais uma visita ao médico, para saber se eu tinha encontrado algum psicólogo que trabalha com terapia metacognitiva (tem muito pouco psicólogo na Dinamarca, e que trabalha com terapia cognitiva ou metacognitiva então, é como encontrar agulha no palheiro… tempo de espera para a primeira consulta é de 8 meses!!!), me convenceram a procurar algo que me acalme a mente. Porque meditação, mindfulness, e tentar manter o pensamento positivo, nada disso está funcionando.
Ela, a médica, sugeriu que eu lesse um livro de Frankl, um sobrevivente do holocausto. Já encomendei o livro, mas só de pensar no tipo de problemas que ele passou, já coloca os meus problemas em outra perspectiva.
Hoje, durante minha pausa do almoço, coloquei um tênis e fui fazer uma longa caminhada e fiz uma descoberta interessante. Acho que encontrei um novo hobby ou atividade para me animar: vou, sempre que o tempo permitir, explorar a cidade, lugares que não conheço. Jardins, parques, praias, bairros antigos e novos.

Quando eu viajo, eu sempre volto energizada, e acho que agora entendi o porquê. É o fato de explorar e conhecer lugares novos, ver gente diferente, ares diferentes. No entanto eu não preciso ir pra longe para fazer isso. Há tantos lugares em Copenhague e na Dinamarca que eu não conheço.
A verdade é que eu não conheço nenhuma das cidades onde morei. Curitiba, Guarulhos, São Paulo, Copenhague. Eu vivia trancafiada dentro de casa. Era casa-escola-casa ou casa-trabalho-casa. Eu tinha preguiça de sair, ou não tinha companhia.
Acho que chegou a hora de fazer algo diferente.
Me desejem sorte nessa minha caminhada, porque eu estou precisando de uma motivação pra continuar a jornada.

Irônico

Achar produtos brasileiros na Dinamarca sempre foi um desafio. Coisinhas como polvilho, mistura pra pão de queijo, azeite de dendê, palmito… essas coisas e muitas outras com as quais estamos acostumados no Brasil, não se encontra na Europa, a não ser em lojinhas especializadas que importam.

Percebo que essas lojinhas, muitas somente online, não sobrevivem muito tempo. Mas sempre dava pra achar alguma.

Mas justamente agora, que eu convidei as meninas do meu trabalho para conhecer meu cafofo e provar uma comidinha brasileira, eu não encontro nenhuma loja. Todas as lojinhas na Dinamarca fecharam.

E o mais irônico, é que fui ao Brasil duas vezes recentemente, e não trouxe nada na bagagem, porque pensei, pra que carregar peso se posso comprar nas lojinhas lá na Dinamarca mesmo. E agora?

Estou olhando o que tem nos países mais próximos, como Alemanha, e Inglaterra, e que entregam no exterior. A maioria não entrega, e os que o fazem, custa super caro. Vou até Berlim nesse fim de semana, e em teoria poderia tentar achar um lugar lá, mas eu estou indo para um festival de forró. Ficar caçando lojinha, quando a agenda já está pra lá de lotada, não estava na minha programação. Principalmente porque Alemanha é muito atrasada em matéria de horário de funcionamente. Tudo fecha no sábado uma da tarde e só reabre na segunda-feira  – na Dinamarca era assim também 18 anos atrás quando vim pra cá, mas agora os tempos são outros… dez da noite a gente acha supermercado aberto… até aos domingos.

Morte Súbita

Morte Súbita (Sudden Death) é o nome de um filme de 1995 que gosto muito, com Van Damme. Não sei porque lembrei disso agora.

No dia 15 de dezembro foi a festa de natal da minha empresa. Vc sabe o povo aqui bebe demais. Demais. E algumas vezes se metem em encrencas. Normalmente a gente ouve boatos de encontros românticos que acontencem, e casamentos que se desfazem logo após essas festas.

Na segunda-feira seguinte, no entanto, as fofocas eram diferentes. Muito mais macabras. Chegou um email para meu departamento, dizendo o marido de uma das nossas antigas colegas morreu e que a colega estava no trabalho na sexta quando a notícia da tragédia chegou.

Todos ficamos curiosos. Eu fiquei sabendo dos acontecimentos em parcelas. Um dia alguém conta uma coisa, no outro dia alguém me mostra o artigo num jornal.

O marido dela, de 43 anos de idade, foi encontrado 9:51 da manhã, naquela sexta-feira, flutuando no mar, no porto de Nordhavn, na parte norte de Copenhague – onde eu morava antigamente.

Como o corpo foi encontrado dessa maneira, saiu uma nota num jornal online, mas não entraram em detalhes. Mencionam que a polícia vai investigar como se tivesse sido um acidente.

Uma morte assim, súbita, aguça a curiosidade da gente. E dias antes do natal. Uma tragédia para essa família.

Ouvi comentários de que o cara era irlandês. O casal tinha dois filhos e tinham se mudado recentemente para um desses apartamentos de luxo na área beira-mar de Copenhague, acho que no porto do sul, Sydhavn ou Amager, não lembro exatamente.

A gente se pergunta o que pode ter acontecido. Será que ele bebeu demais numa dessas festas de natal e caiu na água e se afogou? Mas quem tem coragem de perguntar para a colega se o marido dela dormiu em casa ou já estava desaparecido.

Será que ele se envolveu com alguma gang e foi assassinado? Será que foi suicídio? Tem muito suicida na Dinamarca, principalmente nessa época de inverno. Suicidas normalmente tiram os sapatos, e algumas vezes tiram a roupa toda, antes de pular na água. Quem tem coragem de perguntar detalhes sobre como o corpo foi encontrado?

Será que foi um acidente, num pulo na água, veio uma corrente forte e o carregou?

Li certa vez que ao se afogar o corpo vai para o fundo da água. Somente mais tarde é que flutua. Será que o cara estava desaparecido fazia dias?

Tantas perguntas. Tanta curiosidade. E nenhuma informação. Há certas coisas que a gente nunca vem a saber. Talvez essa seja uma delas.

Uma coisa é certa. Ninguém consegue imaginar a dor que essa família está passando. Perder alguém assim, de supetão, de uma maneira tão inexplicável, não deve ser nada fácil.

O enterro será dia 28. Fizemos uma vaquinha para comprar flores. É pouca coisa, mas é de coração.

Diazinho

Ainda bem que a maioria dos nossos dias são dias bons e produtivos. Mas há aqueles dias em que dá vontade de sumir do mapa. Incrível a quantidade de coisas (ruins) que podem acontecer num dia só.

Pense num indivíduo que durmiu mal de noite. O despertador tocou 5:30 da manhã para chegar à academia 6:10 para fazer pela primeira vez na vida cross-fit (que foi mais um tipo de circuito, mas tudo bem).

Já na primeira rodada do circuito, a pessoa se machuca, um tipo de distensão muscular. Lá vai o treinador buscar gelo. 20 minutos ali deitada no chão, enquanto o povo continua com o treinamento (e justamente agora que eu estava tão motivada para começar).

Então volto para casa mancando. Nesse dia estavam agendados tanto um pintor quanto um pessoal especializado em consertar eletrodomésticos para ir no apartamento ver uns problemas. Chega a pintora, assim que ela lixa o local antes de começar a pintar, começa a pingar água. É uma infiltração. Agora tenho dois baldes no meio do meu quarto e aguardando a administradora mandar a pessoa correta para ver o problema.

Enquanto eu aguardo o povo dos eletrodomésticos virem olhar a geladeira e o fogão, ambos com problema, me deitei para colocar mais gelo na perna.

Toca o telefone e eu atendo sem nem olhar o número porque achei que fosse a pessoa dizendo que estava a caminho. Eis que é uma mensagem eletrônica, e eu desligo na hora.

Por um acaso, eu vou ver o quanto de telefone e internet eu já tinha usado esse mês e ver minha conta, quando vejo que terei que pagar 45 coroas (uns 20 reais) só porque eu atendi aquele telefonema por 3 segundos. Um telefonema via satélite com número internacional começando com +881.

Imediatamente telefonei para minha companhia telefônica perguntando como pode ser que eu tenho que pagar tudo isso (que é o equivalente a 50% do valor que eu pago por mês para ter telefone e internet) só por ter atendido um telefonema. E eles me explicaram que é golpe, e que muita gente tem que pagar mais de mil coroas. Que eu dei sorte. Dessa vez eles iam reembolsar esse valor da minha conta mas que não fariam novamente, e eu deveria prestar atenção.

Depois que eu atendi o primeiro telefonema, estão me ligando de +881 o tempo todo. E não adianta bloquear, porque cada vez é de um número diferente. E eu não posso desligar o infeliz do celular porque estou esperando esse monte de gente que vai consertar os problemas no apartamento. Aff, ninguém merece.

Então, com duas horas de atraso (e eu já tinha perdido 4 horas do meu horário de trabalho), chega o cara da cozinha e sem pressa nenhuma faz a avaliação dele. Eu achei que ele ia consertar os troços, mas não. Veio somente para pegar o número de série do refrigerador e do fogão. Me explicou que a geladeira terá que ser trocada, e que o fogão ele vai avaliar se é mais barato trocar a placa de vidro ou se comprar um no fogão.

E para finalizar o dia… enquanto eu arrumo o quarto com aqueles dois baldes, vejo que tem mofo no meu colchão. Eu não tinha reparado isso antes, porque normalmente saio de casa quando está escuro e só volto de noite. Nunca estou em casa de dia. Mas hoje, com toda aquela luz entrando pela janela, deu para ver direitinho. 

Lavei a capa do colchão, mas mesmo assim não pareceu que removeu nenhuma das manchas. Mas eu estou mais preocupada com a minha saúde, em estar dormindo em coisa mofada. Vamos ver como esse dia vai evoluir. São apenas uma da tarde e o dia continua. Dá até medo!!

Atualização: para acabar o dia com chave de ouro, entro no ônibus e me agarro numa barra que estava desparafusada e ela bate com tudo no meu rosto. Fiquei com medo até que deixaria uma marca roxa. 

Ufa, sobrevivi o dia de ontem. Hoje está bem melhor… acordei com barulho de goteira nos baldes e com torcicolo. Já marquei massagista. 

Entro em contato com a administradora do apartamento, e o cidadão está de férias até o fim do mês. Será que vou ter que dormir com goteira no quarto por mais duas semanas? Afff

Falsificado

Gente do céu, mas esses chineses falsificam de tudo mesmo.

Esse mês eu estou fazendo Bikram Hot Yoga e o suadouro é uma coisa de louco. Para quem não conhece, essa forma de yoga é praticada numa sala aquecida a 40 – 41 graus com umidade entre 40% e 60%, por 90 minutos, mas é indicado entrar na sala e se aclimatar 10 a 15 minutos antes, e depois da prática, ficamos ali deitados um pouco fazendo um Savasana (corpo morto) para que o corpo descanse um pouco. Então são quase duas horas de suadouro intenso, e a gente perde muitos minerais.

Eu não sou fã desses produtos como Gatorade, então me indicaram duas coisas. Água com limão e sal, ou tomar água de coco, que naturalmente contem eletrólitos. No próprio estúdio de yoga eles vendem água de coco em caixinha, mas por um preço exorbitante, claro. 25 coroas por 200 ml.

Vi uma menina com uma embalagem de 1 litro de água de coco, e ela me disse que comprou no quiosque tailandês na rua das prostitutas, e pagou 30 coroas. Não achei caro, mas também não consegui encontrar esse bendito quiosque.
Fui então no japonês e achei uma caixinha de 200 ml por 10 coroas. Vim toda contente para casa.

Ontem, depois do meu exercício, resolvi provar a água de coco e que decepção. Primeiro achei que o negócio estava adocicado demais, e tinha gosto de coco, mas não necessariamente de água de coco.
Foi aí que olhei a tradução: Produto da China. Ingredientes: água, açúcar, leite de coco 2%.
Fala sério! E os meus eletrólitos!?

Nesse dia comprei também uma caixinha de caldo de cana. Agora estou até com medo de provar. Deve ser feita com água de chuva, açúcar e mato selvagem. Jesus.

Nota: provei o caldo de cana, ou melhor, suco de cana. Esse mundo está todo virado. Suco de cana sem açúcar e água de coco doce. Nunca mais caio nessa cilada!

Queimou

Eu e essas tapiocas… Já me queimei na frigideira várias vezes, mas hoje foi de matar. Faz mais de uma hora que estou tentando resfriar a queimadura.

Telefonei pra minha chefe, dizendo que não sei se vou conseguir ir hoje. Até agora não formou bolha, mas se não aliviar nada, vou ligar pra minha enfermeira.

Como aconteceu? Distraída, preocupada com a hora, agarrei a frigideira meio errado, o dedo grudou numa área que estava pelando de quente e pronto. Um segundo de descuido foi suficiente.

Esfria em baixo de água corrente, aplica gel de aloe na área afetada e põe o dedo de molho num pote com água fria, toma uma dose cavalar de analgésicos…. Mas até agora não diminuiu muito a dor.

Li que queimaduras de primeiro e segundo grau são propensas a pegar infecção por tétano. Fiquei preocupada, uma pq dessa eu não sabia e outra pq faz dez anos que tomei vacina antitetânica. Deve ser retomada de cinco em cinco, não é isso?

Aff, como dói.

PS: Descobri um bom modo de resfriar o dedo. Abre a janela e bota o dedo pra fora. Verão na Dinamarca, 16 graus. Perfeito para resfriamento de dedo queimado. Kkk

Spam

Haja paciência para aquelas mensagens indesejadas. Raramente eu recebo spam em português. Sempre vinha em inglês ou, de vez em quando, em dinamarquês. Mas depois que eu comprei uma passagem pela tal de LATAM, tenho recebido horrores de spam em português. É aí que a gente vê. Um site oficial, bem conceituado, vendendo endereço de email para companhias de marketing. 

Acho que hoje recebi umas 28 mensagens de Oi, Tim, Estadão, Inglês Fluente, Empirius, e sabe-se mais o que. Que canseira isso.

Mudança

No post Sobrevivendo eu estava comentando que, depois de dividir apartamento com dois rapazes, morar com duas moças também não é uma coisa fenomenal. Na verdade, morar com elas está sendo ainda pior.

Com os meninos não tinha ninguém pegando no meu pé, tentando me controlar, nem fazendo barulho constante. As moças falam alto, têm muitos dias de folga ou começam a trabalhar depois das 10 da manhã e podem, por isso, ficar acordadas até tarde fazendo barulho. Meu quarto é logo atrás da televisão, e é inacreditável a altura do som no meu quarto, mesmo o volume da tv não estando tão alto. E a televisão fica ligada quase que o dia todo até altas horas da noite.

A mania de limpeza é outra coisa louca. Ter o apartamento limpo é uma coisa, ser neurótica por limpeza e querer limpar tudo mais de duas vezes por semana, é doentio.

Sem falar que querem controlar minha vida. Se eu quiser que uma amiga venha pernoitar, eu tenho que pedir permissão. Se eu for passar o fim de semana fora, querem saber se estarei fora. Me sinto como adolescente novamente, que tinha que dar satisfação da minha vida para meus avós o tempo todo.

Tudo isso fez com que eu ficasse bem cansada dessas moças e me empurrou para fazer uma loucura.

Literalmente, da noite pro dia, eu encontrei um outro apartamento localizado nessa mesma região onde tenho morado, porque é pertíssimo do trabalho. Telefonei de manhã, na hora do almoço fui ver o apartamento, no dia seguinte o contrato estava pronto, e uma semana depois está tudo pronto para mudança. Recebo as chaves daqui a dois dias.

O apartamento não é perfeito, e é super, híper, mega caro, mas aceitei, para que eu possa morar sozinha e ter paz. Eu não sirvo para compartilhar apartamento.

Meu contrato será de um ano no mínimo e nesse ano vou ter que fazer umas economias e reavaliar meus gastos. Vamos ver como tudo vai se ajeitar. Para mim, no momento, o importante é ter paz.

E enquanto isso, Carsten e eu colocamos a casa à venda. Já foram tiradas as fotos, e o técnico vem fazer a inspeção obligatória no mesmo horário em que eu pego as chaves do meu novo cafofo.

Acho que tudo vai entrar nos eixos… de uma forma ou de outra. Cruze os dedos por mim!

Fim de um ano louco

Quando eu comecei a dançar forró eu precisava de alguma coisa boa na minha vida. Sempre gostei de dançar, mas jamais pensei que me entregaria de corpo e alma para a dança.

No Brasil, aquela época que eu morava pra bandas daí, a gente dançava tudo com dois passos pra cá, dois passos pra lá, e tava bom demais. Mas as danças todas evoluíram bastante, e agora estão cheias de passos complicados, voltinhas, piruetas e afins.

Eu tinha feito uma promessa para mim mesma, de que eu devotaria um ano inteiro para a dança, viajando para dançar com gente que dança bem, para eu conhecer gente nova e melhorar a minha dança.

Em 52 semanas (um ano) participei de 23 eventos de dança, sem contar os eventos menores daqui de Copenhague.

Gastei horrores, mas foi uma questão de prioridade. Ao invés de ir a um restaurante, cinema, ou comprar uma coisa pra mim, eu decidi que gastaria meu dinheiro com experiências novas e me divertiria.

Chega daquela vida de ficar só socada dentro de casa. Chega de ficar chateada por estar doente. Chega de sentir pena de mim mesma pq talvez eu tenha feito escolhas erradas na minha vida e demorei tempo demais até tomar uma decisão para mudar. Nós somos responsáveis pelas nossas escolhas, inclusive a escolha de ser feliz.

Essas foram as viagens e eventos grandes dos quais eu participei:

  1. Lisboa (Portugal) – Dezembro 2015 – Festival O Baião Vai
  2. Edimburgo (Escócia) – Ano Novo – Festival Hogmanay
  3. Copenhague (Dinamarca) – Janeiro – Festival de kizomba Royal Copenhagen
  4. Oslo (Noruega) – Janeiro – Evento de forró
  5. Berlim (Alemanha) – Janeiro – Festival de forró Psiu! 2016
  6. Londres (Inglaterra) – Fevereiro – Festival de forró Forró London 2016
  7. Oslo (Noruega) – Março – Evento de forró “esquenta Ai Que Bom!”
  8. Paris (França) – Março – Festival de forró Ai Que Bom! 2016
  9. Hamburgo (Alemanha) – Abril – Evento de forró
  10. Copenhague (Dinamarca) – Abril – Festival do Forró Copenhague
  11. Berlim (Alemanha) – Junho – Aniversário do Tome Forró Berlim
  12. Estocolmo (Suécia) – Julho – Festival de forró Alegria do Norte 2016
  13. Copenhague (Dinamarca) – Agosto – Festival de kizomba
  14. Barcelona (Espanha) – Setembro – Festival de forró Pisa na Fulô 2016
  15. Copenhague (Dinamarca) – Setembro – Evento de forró com Calango Trio
  16. Amsterdã (Holanda) – Setembro – Festival de forró Amsterdam 2016
  17. Colônia (Alemanha) – Outubro – Festival de forró de Colônia 2016
  18. Berlim (Alemanha) – Outubro – Evento do Tome Forró com os 3 do Nordeste
  19. Berlim (Alemanha) – Outubro – Evento de forró com os Conterrâneos
  20. Aachen (Alemanha) – Novembro – Festival de forró de Aachen 2016
  21. Aarhus (Dinamarca) – Novembro – Evento de kizomba e forró
  22. Hamburgo (Alemanha) – Novembro – Evento de forró com os Luso Baião
  23. Copenhague (Dinamarca) – Dezembro – Evento de forró com Zeu Azevedo
  24. Lisboa (Portugal) – Dezembro – Festival de forró O Baião in Lisboa 2016
  25. Ilha da Madeira (Portugal) – Festividades de fim de ano

Percebi que viajo bastante para a Alemanha. Talvez no ano que vem eu precise de novos ares. Quem sabe ir mais para a França. Tem muito forró por lá. E participar de uns festivais no Brasil. Talvez Nata Forrozeira, Fenfit, Rootstock. Veremos.

Esse ano vai acabar com uma viagem para a ilha da Madeira para passear, aproveitar a natureza e ver os fogos de artifício, que são uns dos mais bonitos do mundo. Estão no Guinness Book of Records.

O ano também vai encerrar uma grande etapa da minha vida. Não só vou reavaliar se eu vou continuar dançando forró, mas também é o fim do meu casamento. Um relacionamento de 16 anos. É um ciclo que se fecha.

Começar um casamento / relacionamento não acontece de uma hora pra outra, então para terminá-lo, também não é assim de supetão. Temos que colocar a casa em ordem antes de vendê-la. Estou procurando por um apartamento perto do meu trabalho, das minhas amigas e das atividades sociais da cidade.

Viver no campo foi muito bom, no período que eu estava precisando de paz e silêncio. Agora estou na fase de querer ver vida, luzes, sons.

As pessoas que sabem que Carsten e eu resolvemos nos separar têm me perguntado se eu estou bem. Sim, eu estou bem. Demorei 8 anos para tomar essa decisão, e agora não volto atrás. É o melhor para mim, e um dia Carsten vai ver que também será o melhor para ele.

Estamos terminando tudo com muita amizade e respeito. Nada de brigas, nada de discórdia. Talvez um pouco de tristeza, porque não é uma decisão fácil, mas assim é a vida. Dias melhores virão.

Boas festas de fim de ano para todos e até o ano que vem, com novas histórias, novas descobertas e se Deus quiser, muitas alegrias.

Barcelona

Por causa do forró estou quebrando todas as minhas promessas. Em 2008 eu fui a Barcelona com várias amigas. Passamos uma semana lá, e depois disso, eu jurei que não voltaria naquela cidade.

Não me entenda mal. A cidade é muito bonita. Há muita coisa interessante para ver. O clima é gostoso, as pessoas me trataram bem, e até encontramos uma churrascaria brasileira. Os problemas foram a comida e a falta de segurança da cidade.

Não sei que tipos de temperos ou aditivos eles usam na comida, mas tudo pesava no estômago. Depois de três dias na cidade eu já não aguentava mais. Tinha fome mas não tinha vontade de comer nada, porque sabia que iria doer no estômago. Acabamos comendo em McDonalds e fast foods de shopping centers para tentar encontrar uma comida que não pesasse.

Quanto à segurança. Como tem batedor de carteira nessa cidade. Nas outras capitais da Europa, a gente pode fazer caminhadas tranquilas pela cidade, mas em Barcelona isso não é possível. Uma caminhada de 100 metros é um estresse. Deve-se ter olhos nas costas para não ser roubado. Todos os gringos que eu conheço tiveram algo roubado durante uma viagem para Barcelona e acabaram passando parte da viagem na delegacia de polícia, tentando falar espanhol, e fazendo boletim de ocorrência.

Meu conselho para quem vai a Barcelona: para evitar ser roubado, o melhor é ser um pouco neurótico e achar que todo mundo é batedor de carteira.

Mas o forró… eu viajo daqui a uma semana, para participar do festival em Barcelona. Confesso que já estou meio ansiosa, pensando se vou passar pelo mesmo sofrimento com a comida, como da última vez.

Veremos.

Reflexão

Tenho pensado muito em como a sociedade funciona, em como continuamos sendo escravos, como os relacionamentos humanos são superficiais e de como nós nos exaurimos tentando mostrar sermos algo que não somos, para sermos aceitos por essa sociedade que padroniza tudo, até mesmo a maneira de pensar.

 

Jasona

Para quem não leu as postagens sobre a minha dupla cidadania, vou contar rapidamente. Finalmente virei dinamarquesa de verdade e semana passada chegou meu passaporte. Ele chegou justamente no dia em que eu estava em Berlim, passeando pela Alexander Platz e lembrando do filme Bourne Identity.

Com todas essas viagens que tenho feito, tenho em casa, espalhado sobre minha escrivaninha, dinheiro de vários países diferentes. Quando juntei a esse dinheiro o passaporte novo, eu me lembrei de uma cena do filme, onde aparece o passaporte verde brasileiro no topo dos outros, dinheiro de vários países e, claro, uma arma.

De brincadeira, tirei uma foto, incluindo o antigo passaporte verde, e postei no Face, dizendo que estava me sentindo como Jason Bourne… que eu tinha recebido minha “nova identidade” e que agora só me faltava aprender a lutar.

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Rapidamente vieram vários comentários, e não sei porque, ninguém se ligou na minha nova cidadania, mas estavam todos preocupados com a arma na foto. Alguns dizendo que eu estou maluca em postar uma foto de arma no Face.

E eu pensei. Que exagero. Para começar é uma arma de brinquedo. Segundo é uma brincadeira e não estou apontando a arma para ninguém nem ameaçando ninguém. Tem várias fotos no Face de crianças com seus pais, segurando armas de brinquedo, e eu não vejo ninguém comentando que “você está louco em postar uma foto de arma”.

Nossa senhora, onde foi parar o senso de humor das pessoas?

A foto e os comentários ficaram no meu Face por uma semana. Não tive nenhum problema com a administração do Facebook, não bloquearam o meu perfil, mesmo assim eu resolvi deletar o post e a foto, por causa dos comentários.

Uma pena, pois também havia comentários muito bons e divertidos, com gente me oferecendo aulas de capoeira, jiu-jítsu e afins. Outros dizendo que agora meu nome é  Jasona Bourna!

Hospital público

Para quem quer ter uma idéia do tratamento nos hospitais públicos da Dinamarca.

Ontem de noite, domingo, telefonei para o Rigshospitalet, onde fiz minha cirurgia, para dizer que eu tinha sintomas de trombose. Perguntei se era para eu ir para o hospital imediatamente ou esperar para falar com meu clínico geral na manhã seguinte.

O médico do hospital queria que eu fosse diagnosticada ainda naquela noite, mas eles não podiam me ajudar por duas razões: eles são do departamento de ginecologia e o Rigshospitalet não é o hospital da minha região.

Me mandaram ligar para a central de médicos de plantão, que me encaminhou para o pronto-socorro do hospital Hillerød – 30 minutos de carro de casa – já que eles fecharam o meu hospital local para combinar tudo num “super” hospital regional (uma palhaçada, na minha opinião).

Quase duas horas aguardando atendimento mais duas horas aguardando o resultado de um teste de tempo de coagulação

Duas da manhã, a médica ou residente de plantão me diz que meu tempo de coagulação está elevado, e baseado nos meus sintomas, ela não pode nem confirmar nem excluir a possibilidade de um coágulo estar alojado na perna. Que era para eu ir para casa e voltar no dia seguinte para fazer uma sonografia.

Se não era para fazer o teste confirmatório na mesma noite, para quê me mandar para o pronto-socorro no meio da noite?

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10:15 da manhã cheguei de volta ao hospital. Nesse momento são 11:05, estou sentada na sala de espera, onde tem, sem brincadeira, gente roncando e babando na cadeira, e eu continuo esperando pela sonografia.

O pior é saber que depois do procedimento tenho que voltar no pronto-socorro e esperar horas até que um médico tenha tempo para olhar o resultado e me dar uma resposta.

Convalescença

Convalescença, essa é uma palavra que não escuto há anos, mas que descreve tão bem esse período no qual me encontro.

Foi hoje de manhã, enquanto eu praticava francês com um correspondente, que eu escutei a palavra: convalescence (tem que falar fazendo biquinho, senão não funciona!).

Eu estava com medo da cirurgia, mas o desafio maior é o pós-operatório. Parece que cada dia aparece uma coisa diferente que a gente tem que superar.

No primeiro dia o cansaço e as dores são as piores.
No meu caso também causava um desconforto o fato de sentir vontade constante de urinar, mesmo eu estando com catéter.

Em seguida a gente tem que lidar com o povo que começa a mandar mensagem, telefonar e quer visitar. Tudo isso é exaustivo.

Então vem a fome e o fato de que tudo que se coloca na boca dá náusea. Até mesmo cheiro de comida e de flores causa ânsia de vômito.

Era para eu ter ido embora para casa no primeiro dia, mas por causa de uma pequena hemorragia, me mantiveram sob supervisão. E também pelo fato de que eu tinha tantas dores que não consegui ficar de pé no primeiro dia. O ideal seria começar a caminhar algumas horas após a operação.  

Quando finalmente todo mundo foi embora, 10 da noite, pois na DK eles não deixam a família dormir no quarto como normalmente se faz no Brasil, eu achei que iria poder descansar, mas não. Meu sono foi interrompido várias vezes pela enfermeira que veio medir minha pressão no meio da noite.

Eu tive muita sorte que no meu quarto o outro leito estava vazio e eu fiquei sozinha. Sabe, hospital público a gente não tem direito a quarto privativo.

Mas a alegria durou pouco. 6:30 da manhã chega a minha colega de quarto, ela, com neném rescém nascido e a família toda. Ô meu pai, dái-me paciência! Eles não calavam a boca, e eu muito cansada, só queria dormir.

7:15 levaram ela para a sala de operação. Pensei comigo mesmo, talvez só tragam essa mulher de volta 5 da tarde.

Finalmente, silêncio, achei que ia poder dormir um pouco, mas veio o médico me explicar como foi a cirurgia e como seria daqui pra frente. Disse que foram 3 horas de cirurgia e que tiraram parte de 3 órgãos, mas aquilo que eles tinham combinado comigo de fazer, isso eles não fizeram porque ficaram com medo que fosse me dar uma infecção generalizada.
O lado bom dessa notícia é que eu não precisaria passar 10 dias em casa com catéter.
O lado ruim, é que vou ter que continuar tomando hormônio para controlar os pedaços de endometriose que eles não retiraram. Ô vida.
E logo depois dessa notícia, ele me dá a bomba, de que só iriam me dar 1 semana de licença do trabalho. Que eles achavam que eu tinha que voltar à vida normal o mais rápido possível, que ficar deitada em casa aumenta as chances de complicações.

Caramba. Uma semana de repouso só, depois de cirurgia no abdômen? Tem gente que recebe 2 ou 3 semanas por muito menos que isso!!! Sem comentários. Indignação é a palavra que descreve meus sentimentos.  

Depois ele mandou tirar o meu catéter e controlar se minha urina ainda tinha sangue. Disse que eu poderia ir para casa quando estivesse pronta.

O problema é que esse “pronta” quer dizer quando os movimentos peristálticos estiverem sido restabelecidos. Essa é a bosta de ir para hospital numa língua estrangeira. A gente não entende metade do que eles falam, pois aqui se fala muito nas entrelinhas, e estrangeiro tem dificuldade de entender esse tipo de coisa.
A enfermeira vivia dizendo que eu mesmo controlaria, decidiria, quanto tempo passar no hospital. Tenho certeza de que isso é outra mensagem entrelinhas que eu não entendi, afinal custa uma fortuna por noite por leito de hospital e eles estão cortando gastos. Bom…

Fizemos mais uma tentativa para eu me levantar da cama, e foi tudo bem. Comecei então a caminhar de pouquinho em pouquinho.

Enquanto estou eu lá, recém levantada, trazem a mulher da cama do lado de volta. Não eram nem 11 da manhã ainda. A cirurgia dela foi híper rápida.
Eu estava muito cansada e só queria me deitar novamente, mas não tinha paciência para todo o barulho que aquela família fazia.
Mas Deus é pai. Ela foi liberada ao meio dia, e meia hora mais tarde eles estavam deixando o hospital e eu pude finalmente descansar.

E mais um dia se passou, com mais visitas, mais mensagens, mais enjôos e vômitos – pois me deram morfina ao invés de codeína, e a tia Cris não tolera a primeira muito bem.

Eu acabei dormindo mais uma noite no hospital, por causa da greve do intestino.

No meu último dia no hospital acordei com dores horríveis tanto no abdômen quanto nos ombros. Depois de uma laparoscopia, acumulam-se gases no corpo, e se o intestino não estiver funcionando, a pressão gerada é um troço fenomenal e chega até a área dos ombros e pescoço. Eu mal conseguia ficar ereta, tamanha era a dor. Estava de mau humor, pedindo para eles me darem algum remédio que fizesse o intestino pegar no tranco, mas a coitada da enfermeira dizendo que a única coisa a fazer era caminhar e beber muito líquido. E ela vinha atrás de mim o tempo todo, dizendo para eu caminhar e perguntando se eu já estava conseguindo liberar os gases, e eu estava com vontade de esgoelar aquela garota.

Uns poucos minutos mais tarde veio o primeiro pum. Em português bem claro: eu nunca antes tinha ficado tão contente em soltar um peidinho. Foi alívio imediato. A dor nos ombros passou, a dor no ventre passou, e eu estava até sorrindo.
Fui para o corredor e a enfermeira disse: você está sorrindo. Conseguiu peidar, não foi? E eu disse sim, posso ir para casa agora?

Enquanto aguardava Carsten ir me buscar, eu ia tomar um banho antes de ir embora, mas não tinha água quente no chuveiro do meu quarto.

Suja de álcool iodado, descabelada e cansada, vim para casa. Aqui a luta continua, mas estou me recuperando bem. Ou pelo menos eu acho que estou me recuperando bem.
Veremos daqui a uns dias. 🙂