Diazinho

Ainda bem que a maioria dos nossos dias são dias bons e produtivos. Mas há aqueles dias em que dá vontade de sumir do mapa. Incrível a quantidade de coisas (ruins) que podem acontecer num dia só.

Pense num indivíduo que durmiu mal de noite. O despertador tocou 5:30 da manhã para chegar à academia 6:10 para fazer pela primeira vez na vida cross-fit (que foi mais um tipo de circuito, mas tudo bem).

Já na primeira rodada do circuito, a pessoa se machuca, um tipo de distensão muscular. Lá vai o treinador buscar gelo. 20 minutos ali deitada no chão, enquanto o povo continua com o treinamento (e justamente agora que eu estava tão motivada para começar).

Então volto para casa mancando. Nesse dia estavam agendados tanto um pintor quanto um pessoal especializado em consertar eletrodomésticos para ir no apartamento ver uns problemas. Chega a pintora, assim que ela lixa o local antes de começar a pintar, começa a pingar água. É uma infiltração. Agora tenho dois baldes no meio do meu quarto e aguardando a administradora mandar a pessoa correta para ver o problema.

Enquanto eu aguardo o povo dos eletrodomésticos virem olhar a geladeira e o fogão, ambos com problema, me deitei para colocar mais gelo na perna.

Toca o telefone e eu atendo sem nem olhar o número porque achei que fosse a pessoa dizendo que estava a caminho. Eis que é uma mensagem eletrônica, e eu desligo na hora.

Por um acaso, eu vou ver o quanto de telefone e internet eu já tinha usado esse mês e ver minha conta, quando vejo que terei que pagar 45 coroas (uns 20 reais) só porque eu atendi aquele telefonema por 3 segundos. Um telefonema via satélite com número internacional começando com +881.

Imediatamente telefonei para minha companhia telefônica perguntando como pode ser que eu tenho que pagar tudo isso (que é o equivalente a 50% do valor que eu pago por mês para ter telefone e internet) só por ter atendido um telefonema. E eles me explicaram que é golpe, e que muita gente tem que pagar mais de mil coroas. Que eu dei sorte. Dessa vez eles iam reembolsar esse valor da minha conta mas que não fariam novamente, e eu deveria prestar atenção.

Depois que eu atendi o primeiro telefonema, estão me ligando de +881 o tempo todo. E não adianta bloquear, porque cada vez é de um número diferente. E eu não posso desligar o infeliz do celular porque estou esperando esse monte de gente que vai consertar os problemas no apartamento. Aff, ninguém merece.

Então, com duas horas de atraso (e eu já tinha perdido 4 horas do meu horário de trabalho), chega o cara da cozinha e sem pressa nenhuma faz a avaliação dele. Eu achei que ele ia consertar os troços, mas não. Veio somente para pegar o número de série do refrigerador e do fogão. Me explicou que a geladeira terá que ser trocada, e que o fogão ele vai avaliar se é mais barato trocar a placa de vidro ou se comprar um no fogão.

E para finalizar o dia… enquanto eu arrumo o quarto com aqueles dois baldes, vejo que tem mofo no meu colchão. Eu não tinha reparado isso antes, porque normalmente saio de casa quando está escuro e só volto de noite. Nunca estou em casa de dia. Mas hoje, com toda aquela luz entrando pela janela, deu para ver direitinho. 

Lavei a capa do colchão, mas mesmo assim não pareceu que removeu nenhuma das manchas. Mas eu estou mais preocupada com a minha saúde, em estar dormindo em coisa mofada. Vamos ver como esse dia vai evoluir. São apenas uma da tarde e o dia continua. Dá até medo!!

Atualização: para acabar o dia com chave de ouro, entro no ônibus e me agarro numa barra que estava desparafusada e ela bate com tudo no meu rosto. Fiquei com medo até que deixaria uma marca roxa. 

Ufa, sobrevivi o dia de ontem. Hoje está bem melhor… acordei com barulho de goteira nos baldes e com torcicolo. Já marquei massagista. 

Entro em contato com a administradora do apartamento, e o cidadão está de férias até o fim do mês. Será que vou ter que dormir com goteira no quarto por mais duas semanas? Afff

Natal? Já?

Gente, ontem foi 31 de outubro, dia de Halloween. Aqui na Dinamarca têm algumas pessoas que comemoraram e estão ensinando as crianças a bater de porta em porta para pedir doces. O que está faltando é ensinar as crianças que não é em toda porta que se pode bater, pois tem gente (como eu) que não gosta dessas coisas.

Certa vez, eu ouvi de um amigo americano, que pros lados de lá, há regras. O Halloween se comemora num horário fixo, por exemplo entre 17 e 19 horas e as crianças só batem na porta de quem decorou a casa e está com a luz do lado de fora da casa acesa, para indicar que “Trick or Treaters” são bem-vindos.

Aqui na DK dá até uma agonia, pois eles podem bater na sua porta a qualquer horário, especialmente se o halloween cair num fim de semana. É uma irritação, especialmente porque em fevereiro há uma outra comemoração aqui, bem no domingo de carnaval, que é o Fastelavn, onde as crianças também se fantasiam e saem batendo de porta em porta. Eu acho que duas vezes ao ano é demais.

Bom, mas não era nada disso que eu ia dizer.
Ontem, para não ficar em casa ouvindo baterem na minha porta, fui pro shopping. Achei que iria ver decoração de halloween mas me surpreendi. O shopping já tinha decorado para o natal, em pleno outubro!
Acho cedo demais.
Entendo que o mês de novembro é um tédio na DK. Anoitece cedo, amanhece tarde, faz frio e tempo cinza ou chove quase todos os dias. É bem deprimente e as luzes dos enfeites de natal ajudam, dão uma alegrada, mas peloamordedeus, cansa demais isso. Quando chega dezembro eu não tenho nem vontade de decorar a minha casa porque já estou cansada de ver decoração de natal. Fala sério.

Está assim no Brasil também? As lojas já estão vendendo decoração de natal?

Aff

Tantos planos para essa sexta-feira, estava contando os minutos para o show de jazz do French Jazz Festival. Já começou mal. Não conseguia encontrar o local. Quando vi um cidadão usando uma daquelas boinas típicas francesas, perguntei se ele estava indo pro jazz e ele disse que sim. E lá fomos nós procurar o local no meio de vários galpões e armazéns abandonados.

Nossa sorte foi que encontramos outro casal de franceses e eles nos ajudaram.

O local bem alternativo, antigo armazém transformado em casa de shows, como muitos dos locais ali perto da estação central no Halmtorvet.

Eu fui junto com um pessoal do Internations, que é um site para expatriados. Nove participantes, mas não achei ninguém, num lugar minúsculo onde só havia 50 pessoas.

Me sentei sozinha e assim me senti durante o show. Solitária.

O show começou com 30 minutos de atraso, o que é inaceitável na Dinamarca, onde tudo começa no horário, inclusive concertos. Máximo de atraso tolerado são 15 minutos.

Durante o show umas francesas atrás de mim não fechavam a matraca. Meu, quer conversar, vai pro barzinho, não vem prum show de jazz. Já me irritei.

O jazz era de qualidade, mas comecei a me enfezar com a quantidade de improvisação.

A gota d’água foi quando umas brasileiras se levantaram e se puseram a conversar alto na porta do evento. Dava um eco enorme dentro do local e estava atrapalhando.

Eu pensei, não estou aproveitando isso. Coloquei minha jaqueta e fui embora.

Chegando na estação de trem, resolvi usar o banheiro. Custa 5 coroas. Nós temos moedas de 1, 2, 5, 10 e 20. A bendita da máquina só aceitava de 5, 10 ou 20. Mas eu só tinha moedas de 1 e 2.

Honestamente, eu acho que um a máquina de moedas tem que aceitar as moedas vigentes! Tive que ir até o McDonald’s só pra trocar as merdas das moedas.

Nessas alturas minha irritação já estava chegando na marca vermelha.

Meu próximo evento da noite era um encontro com os latinos da minha empresa, era a despedida de uma colega que vai trocar de trabalho e íamos tomar uns mojitos.

Pensei bem. Esse povo é muito gente boa, mas quando desabam a falar espanhol rápido, eu não entendo bulhufas. Ainda se estão todos “borrachos” quando eu chegar, aí sim que vou me sentir um peixe fora d’água. Resolvi mandar um torpedo dizendo que não estava me sentindo bem e desejando uma boa festa.

Vim pra casa e estou desabafando aqui para me acalmar.

Vou assistir a um filme no Netflix, e tentar descansar, porque amanhã começo a colocar a decoração de halloween. Carsten vem me ajudar.

Sim está super cedo para colocar decoração de halloween mas, como eu viajo para o brasil em alguns dias e só volto na véspera da minha festa de Halloween, tenho que deixar tudo engatilhado.

Pronto, já estou me sentindo mais calma. Vou dormir que eu ganho mais.

Falsificado

Gente do céu, mas esses chineses falsificam de tudo mesmo.

Esse mês eu estou fazendo Bikram Hot Yoga e o suadouro é uma coisa de louco. Para quem não conhece, essa forma de yoga é praticada numa sala aquecida a 40 – 41 graus com umidade entre 40% e 60%, por 90 minutos, mas é indicado entrar na sala e se aclimatar 10 a 15 minutos antes, e depois da prática, ficamos ali deitados um pouco fazendo um Savasana (corpo morto) para que o corpo descanse um pouco. Então são quase duas horas de suadouro intenso, e a gente perde muitos minerais.

Eu não sou fã desses produtos como Gatorade, então me indicaram duas coisas. Água com limão e sal, ou tomar água de coco, que naturalmente contem eletrólitos. No próprio estúdio de yoga eles vendem água de coco em caixinha, mas por um preço exorbitante, claro. 25 coroas por 200 ml.

Vi uma menina com uma embalagem de 1 litro de água de coco, e ela me disse que comprou no quiosque tailandês na rua das prostitutas, e pagou 30 coroas. Não achei caro, mas também não consegui encontrar esse bendito quiosque.
Fui então no japonês e achei uma caixinha de 200 ml por 10 coroas. Vim toda contente para casa.

Ontem, depois do meu exercício, resolvi provar a água de coco e que decepção. Primeiro achei que o negócio estava adocicado demais, e tinha gosto de coco, mas não necessariamente de água de coco.
Foi aí que olhei a tradução: Produto da China. Ingredientes: água, açúcar, leite de coco 2%.
Fala sério! E os meus eletrólitos!?

Nesse dia comprei também uma caixinha de caldo de cana. Agora estou até com medo de provar. Deve ser feita com água de chuva, açúcar e mato selvagem. Jesus.

Nota: provei o caldo de cana, ou melhor, suco de cana. Esse mundo está todo virado. Suco de cana sem açúcar e água de coco doce. Nunca mais caio nessa cilada!

Queimou

Eu e essas tapiocas… Já me queimei na frigideira várias vezes, mas hoje foi de matar. Faz mais de uma hora que estou tentando resfriar a queimadura.

Telefonei pra minha chefe, dizendo que não sei se vou conseguir ir hoje. Até agora não formou bolha, mas se não aliviar nada, vou ligar pra minha enfermeira.

Como aconteceu? Distraída, preocupada com a hora, agarrei a frigideira meio errado, o dedo grudou numa área que estava pelando de quente e pronto. Um segundo de descuido foi suficiente.

Esfria em baixo de água corrente, aplica gel de aloe na área afetada e põe o dedo de molho num pote com água fria, toma uma dose cavalar de analgésicos…. Mas até agora não diminuiu muito a dor.

Li que queimaduras de primeiro e segundo grau são propensas a pegar infecção por tétano. Fiquei preocupada, uma pq dessa eu não sabia e outra pq faz dez anos que tomei vacina antitetânica. Deve ser retomada de cinco em cinco, não é isso?

Aff, como dói.

PS: Descobri um bom modo de resfriar o dedo. Abre a janela e bota o dedo pra fora. Verão na Dinamarca, 16 graus. Perfeito para resfriamento de dedo queimado. Kkk

Spam

Haja paciência para aquelas mensagens indesejadas. Raramente eu recebo spam em português. Sempre vinha em inglês ou, de vez em quando, em dinamarquês. Mas depois que eu comprei uma passagem pela tal de LATAM, tenho recebido horrores de spam em português. É aí que a gente vê. Um site oficial, bem conceituado, vendendo endereço de email para companhias de marketing. 

Acho que hoje recebi umas 28 mensagens de Oi, Tim, Estadão, Inglês Fluente, Empirius, e sabe-se mais o que. Que canseira isso.

Mudança

No post Sobrevivendo eu estava comentando que, depois de dividir apartamento com dois rapazes, morar com duas moças também não é uma coisa fenomenal. Na verdade, morar com elas está sendo ainda pior.

Com os meninos não tinha ninguém pegando no meu pé, tentando me controlar, nem fazendo barulho constante. As moças falam alto, têm muitos dias de folga ou começam a trabalhar depois das 10 da manhã e podem, por isso, ficar acordadas até tarde fazendo barulho. Meu quarto é logo atrás da televisão, e é inacreditável a altura do som no meu quarto, mesmo o volume da tv não estando tão alto. E a televisão fica ligada quase que o dia todo até altas horas da noite.

A mania de limpeza é outra coisa louca. Ter o apartamento limpo é uma coisa, ser neurótica por limpeza e querer limpar tudo mais de duas vezes por semana, é doentio.

Sem falar que querem controlar minha vida. Se eu quiser que uma amiga venha pernoitar, eu tenho que pedir permissão. Se eu for passar o fim de semana fora, querem saber se estarei fora. Me sinto como adolescente novamente, que tinha que dar satisfação da minha vida para meus avós o tempo todo.

Tudo isso fez com que eu ficasse bem cansada dessas moças e me empurrou para fazer uma loucura.

Literalmente, da noite pro dia, eu encontrei um outro apartamento localizado nessa mesma região onde tenho morado, porque é pertíssimo do trabalho. Telefonei de manhã, na hora do almoço fui ver o apartamento, no dia seguinte o contrato estava pronto, e uma semana depois está tudo pronto para mudança. Recebo as chaves daqui a dois dias.

O apartamento não é perfeito, e é super, híper, mega caro, mas aceitei, para que eu possa morar sozinha e ter paz. Eu não sirvo para compartilhar apartamento.

Meu contrato será de um ano no mínimo e nesse ano vou ter que fazer umas economias e reavaliar meus gastos. Vamos ver como tudo vai se ajeitar. Para mim, no momento, o importante é ter paz.

E enquanto isso, Carsten e eu colocamos a casa à venda. Já foram tiradas as fotos, e o técnico vem fazer a inspeção obligatória no mesmo horário em que eu pego as chaves do meu novo cafofo.

Acho que tudo vai entrar nos eixos… de uma forma ou de outra. Cruze os dedos por mim!

Fim de um ano louco

Quando eu comecei a dançar forró eu precisava de alguma coisa boa na minha vida. Sempre gostei de dançar, mas jamais pensei que me entregaria de corpo e alma para a dança.

No Brasil, aquela época que eu morava pra bandas daí, a gente dançava tudo com dois passos pra cá, dois passos pra lá, e tava bom demais. Mas as danças todas evoluíram bastante, e agora estão cheias de passos complicados, voltinhas, piruetas e afins.

Eu tinha feito uma promessa para mim mesma, de que eu devotaria um ano inteiro para a dança, viajando para dançar com gente que dança bem, para eu conhecer gente nova e melhorar a minha dança.

Em 52 semanas (um ano) participei de 23 eventos grandes de dança. São eventos que duram pelo menos 3 dias. E isso sem contar os eventos menores aqui em Copenhague.

Gastei horrores, mas foi uma questão de prioridade. Ao invés de ir a um restaurante, cinema, ou comprar uma coisa pra mim, eu decidi que gastaria meu dinheiro com experiências novas e me divertiria.

Chega daquela vida de ficar só socada dentro de casa. Chega de ficar chateada por estar doente e ter que passar por operações. Chega de sentir pena de mim mesma pq talvez eu tenha feito escolhas erradas na minha vida e demorei tempo demais até tomar uma decisão para mudar.

Essas foram as viagens e eventos grandes dos quais eu participei nesse período:

  1. Lisboa (Portugal) – Festival de forró O Baião Vai 2015
  2. Edimburgo (Escócia) – Festival Hogmanay
  3. Copenhague (Dinamarca) – Festival de kizomba Royal Copenhagen
  4. Oslo (Noruega) – Evento de forró
  5. Berlim (Alemanha) – Festival de forró Psiu! 2016
  6. Londres (Inglaterra) – Festival de forró Forró London 2016
  7. Oslo (Noruega) – Evento de forró “esquenta Ai Que Bom!”
  8. Paris (França) – Festival de forró Ai Que Bom! 2016
  9. Hamburgo (Alemanha) – Evento de forró
  10. Copenhague (Dinamarca) – Festival do Forró Copenhague
  11. Berlim (Alemanha) – Aniversário do Tome Forró Berlim
  12. Estocolmo (Suécia) – Festival de forró Alegria do Norte 2016
  13. Copenhague (Dinamarca) – Festival de kizomba
  14. Barcelona (Espanha) – Festival de forró Pisa na Fulô 2016
  15. Copenhague (Dinamarca) – Evento de forró com Calango Trio
  16. Amsterdã (Holanda) – Festival de forró Amsterdam 2016
  17. Colônia (Alemanha) – Festival de forró de Colônia 2016
  18. Berlim (Alemanha) – Evento do Tome Forró com os 3 do Nordeste
  19. Berlim (Alemanha) – Evento de forró com os Conterrâneos
  20. Aachen (Alemanha) – Festival de forró de Aachen 2016
  21. Aarhus (Dinamarca) – Evento de kizomba e forró
  22. Hamburgo (Alemanha) – Evento de forró com os Luso Baião
  23. Copenhague (Dinamarca) – Evento de forró com Zeu Azevedo
  24. Lisboa (Portugal) – Festival de forró O Baião Vai 2016
  25. Ilha da Madeira (Portugal) – Festividades de fim de ano

Percebi que viajo bastante para a Alemanhã. Talvez no ano que vem eu precise de novos ares. Quem sabe ir mais para a França. Tem muito forró por lá. E participar de uns festivais no Brasil. Talvez Nata Forrozeira, Fenfit, Rootstock. Veremos.

Esse ano vai acabar com uma viagem para a ilha da Madeira para passear, aproveitar a natureza e ver os fogos de artifício, que são uns dos mais bonitos do mundo. Estão no Guinness Book of Records.

O ano também vai encerrar uma grande etapa da minha vida. Não só vou reavaliar se eu vou continuar dançando forró, mas também é o fim do meu casamento. Um relacionamento de 16 anos. É um ciclo que se fecha.

Começar um casamento / relacionamento não acontece de uma hora pra outra, então para terminá-lo, também não é assim de supetão. Temos que colocar a casa em ordem antes de vendê-la. Estou procurando por um apartamento perto do meu trabalho, das minhas amigas e das atividades sociais da cidade.

Viver no campo foi muito bom, no período que eu estava precisando de paz e silêncio. Agora estou na fase de querer ver vida, luzes, sons.

As pessoas que sabem que Carsten e eu resolvemos nos separar têm me perguntado se eu estou bem. Sim, eu estou bem. Demorei 8 anos para tomar essa decisão, e agora não volto atrás. É o melhor para mim, e um dia Carsten vai ver que também será o melhor para ele.

Estamos terminando tudo com muita amizade e respeito. Nada de brigas, nada de discórdia. Talvez um pouco de tristeza, porque não é uma decisão fácil, mas assim é a vida. Mas dias melhores virão.

Boas festas de fim de ano para todos e até o ano que vem, com novas histórias, novas descobertas e se Deus quiser, muitas alegrias.

Barcelona

Por causa do forró estou quebrando todas as minhas promessas. Em 2008 eu fui a Barcelona com várias amigas. Passamos uma semana lá, e depois disso, eu jurei que não voltaria naquela cidade.

Não me entenda mal. A cidade é muito bonita. Há muita coisa interessante para ver. O clima é gostoso, as pessoas me trataram bem, e até encontramos uma churrascaria brasileira. Os problemas foram a comida e a falta de segurança da cidade.

Não sei que tipos de temperos ou aditivos eles usam na comida, mas tudo pesava no estômago. Depois de três dias na cidade eu já não aguentava mais. Tinha fome mas não tinha vontade de comer nada, porque sabia que iria doer no estômago. Acabamos comendo em McDonalds e fast foods de shopping centers para tentar encontrar uma comida que não pesasse.

Quanto à segurança. Como tem batedor de carteira nessa cidade. Nas outras capitais da Europa, a gente pode fazer caminhadas tranquilas pela cidade, mas em Barcelona isso não é possível. Uma caminhada de 100 metros é um estresse. Deve-se ter olhos nas costas para não ser roubado. Todos os gringos que eu conheço tiveram algo roubado durante uma viagem para Barcelona e acabaram passando parte da viagem na delegacia de polícia, tentando falar espanhol, e fazendo boletim de ocorrência.

Meu conselho para quem vai a Barcelona: para evitar ser roubado, o melhor é ser um pouco neurótico e achar que todo mundo é batedor de carteira.

Mas o forró… eu viajo daqui a uma semana, para participar do festival em Barcelona. Confesso que já estou meio ansiosa, pensando se vou passar pelo mesmo sofrimento com a comida, como da última vez.

Veremos.

Reflexão

Tenho pensado muito em como a sociedade funciona, em como continuamos sendo escravos, como os relacionamentos humanos são superficiais e de como nós nos exaurimos tentando mostrar sermos algo que não somos, para sermos aceitos por essa sociedade que padroniza tudo, até mesmo a maneira de pensar.

 

Cruzamentos 

Essa é a semana dos doidos cruzando o trilho do trem. Sem brincadeira, nas últimas 24 horas, vi três. Os dois de ontem foram em estações diferentes, no meio do dia,  e foram meninos jovens… e a gente sabe bem as bobagens que o povo faz durante a juventude. Mas o de hoje, bateu recorde e foi o que me fez decidir que um ato doido desses merecia uma postagem no blog.

O trem está chegando na estação e esse maluco pula no trilho, de bicicleta!

O maquinista enfiou a mão na buzina!

Juro que pensei que eu iria presenciar um dos atropelamentos de trem, que são comuns aqui, devido ao alto número de suicídios na Escandinávia.

Pensei, não vai dar tempo dele jogar a bicicleta na plataforma e dele pular em seguida.

Mas felizmente, ele conseguiu alcançar uma escadinha no fim da plataforma.

Uma loucura, um tormento para quem testemunhou.

Ainda se, para justificar esse ato, ele estivesse atrasado para pegar o trem,  e o único jeito fosse cruzar pelos trilhos, ainda daria para entender. Mas não. Depois de subir na plataforma ele andou bem devagar no sentido de uns homens, que tinham ar de serem desabrigados e moradores de rua, para conversar. Pode isso?

Gente doida.

Coitados desses maquinistas. Não é à toa que eles precisam de terapia e a companhia tem dificuldade de contratar gente.

Jasona

Para quem não leu as postagens sobre a minha dupla cidadania, vou contar rapidamente. Finalmente virei dinamarquesa de verdade e semana passada chegou meu passaporte. Ele chegou justamente no dia em que eu estava em Berlim, passeando pela Alexander Platz e lembrando do filme Bourne Identity.

Com todas essas viagens que tenho feito, tenho em casa, espalhado sobre minha escrivaninha, dinheiro de vários países diferentes. Quando juntei a esse dinheiro o passaporte novo, eu me lembrei de uma cena do filme, onde aparece o passaporte verde brasileiro no topo dos outros, dinheiro de vários países e, claro, uma arma.

De brincadeira, tirei uma foto, incluindo o antigo passaporte verde, e postei no Face, dizendo que estava me sentindo como Jason Bourne… que eu tinha recebido minha “nova identidade” e que agora só me faltava aprender a lutar.

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Rapidamente vieram vários comentários, e não sei porque, ninguém se ligou na minha nova cidadania, mas estavam todos preocupados com a arma na foto. Alguns dizendo que eu estou maluca em postar uma foto de arma no Face.

E eu pensei. Que exagero. Para começar é uma arma de brinquedo. Segundo é uma brincadeira e não estou apontando a arma para ninguém nem ameaçando ninguém. Tem várias fotos no Face de crianças com seus pais, segurando armas de brinquedo, e eu não vejo ninguém comentando que “você está louco em postar uma foto de arma”.

Nossa senhora, onde foi parar o senso de humor das pessoas?

A foto e os comentários ficaram no meu Face por uma semana. Não tive nenhum problema com a administração do Facebook, não bloquearam o meu perfil, mesmo assim eu resolvi deletar o post e a foto, por causa dos comentários.

Uma pena, pois também havia comentários muito bons e divertidos, com gente me oferecendo aulas de capoeira, jiu-jítsu e afins. Outros dizendo que agora meu nome é  Jasona Bourna!

Hospital público

Para quem quer ter uma idéia do tratamento nos hospitais públicos da Dinamarca.

Ontem de noite, domingo, telefonei para o Rigshospitalet, onde fiz minha cirurgia, para dizer que eu tinha sintomas de trombose. Perguntei se era para eu ir para o hospital imediatamente ou esperar para falar com meu clínico geral na manhã seguinte.

O médico do hospital queria que eu fosse diagnosticada ainda naquela noite, mas eles não podiam me ajudar por duas razões: eles são do departamento de ginecologia e o Rigshospitalet não é o hospital da minha região.

Me mandaram ligar para a central de médicos de plantão, que me encaminhou para o pronto-socorro do hospital Hillerød – 30 minutos de carro de casa – já que eles fecharam o meu hospital local para combinar tudo num “super” hospital regional (uma palhaçada, na minha opinião).

Quase duas horas aguardando atendimento mais duas horas aguardando o resultado de um teste de tempo de coagulação

Duas da manhã, a médica ou residente de plantão me diz que meu tempo de coagulação está elevado, e baseado nos meus sintomas, ela não pode nem confirmar nem excluir a possibilidade de um coágulo estar alojado na perna. Que era para eu ir para casa e voltar no dia seguinte para fazer uma sonografia.

Se não era para fazer o teste confirmatório na mesma noite, para quê me mandar para o pronto-socorro no meio da noite?

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10:15 da manhã cheguei de volta ao hospital. Nesse momento são 11:05, estou sentada na sala de espera, onde tem, sem brincadeira, gente roncando e babando na cadeira, e eu continuo esperando pela sonografia.

O pior é saber que depois do procedimento tenho que voltar no pronto-socorro e esperar horas até que um médico tenha tempo para olhar o resultado e me dar uma resposta.

Convalescença

Convalescença, essa é uma palavra que não escuto há anos, mas que descreve tão bem esse período no qual me encontro.

Foi hoje de manhã, enquanto eu praticava francês com um correspondente, que eu escutei a palavra: convalescence (tem que falar fazendo biquinho, senão não funciona!).

Eu estava com medo da cirurgia, mas o desafio maior é o pós-operatório. Parece que cada dia aparece uma coisa diferente que a gente tem que superar.

No primeiro dia o cansaço e as dores são as piores.
No meu caso também causava um desconforto o fato de sentir vontade constante de urinar, mesmo eu estando com catéter.

Em seguida a gente tem que lidar com o povo que começa a mandar mensagem, telefonar e quer visitar. Tudo isso é exaustivo.

Então vem a fome e o fato de que tudo que se coloca na boca dá náusea. Até mesmo cheiro de comida e de flores causa ânsia de vômito.

Era para eu ter ido embora para casa no primeiro dia, mas por causa de uma pequena hemorragia, me mantiveram sob supervisão. E também pelo fato de que eu tinha tantas dores que não consegui ficar de pé no primeiro dia. O ideal seria começar a caminhar algumas horas após a operação.  

Quando finalmente todo mundo foi embora, 10 da noite, pois na DK eles não deixam a família dormir no quarto como normalmente se faz no Brasil, eu achei que iria poder descansar, mas não. Meu sono foi interrompido várias vezes pela enfermeira que veio medir minha pressão no meio da noite.

Eu tive muita sorte que no meu quarto o outro leito estava vazio e eu fiquei sozinha. Sabe, hospital público a gente não tem direito a quarto privativo.

Mas a alegria durou pouco. 6:30 da manhã chega a minha colega de quarto, ela, com neném rescém nascido e a família toda. Ô meu pai, dái-me paciência! Eles não calavam a boca, e eu muito cansada, só queria dormir.

7:15 levaram ela para a sala de operação. Pensei comigo mesmo, talvez só tragam essa mulher de volta 5 da tarde.

Finalmente, silêncio, achei que ia poder dormir um pouco, mas veio o médico me explicar como foi a cirurgia e como seria daqui pra frente. Disse que foram 3 horas de cirurgia e que tiraram parte de 3 órgãos, mas aquilo que eles tinham combinado comigo de fazer, isso eles não fizeram porque ficaram com medo que fosse me dar uma infecção generalizada.
O lado bom dessa notícia é que eu não precisaria passar 10 dias em casa com catéter.
O lado ruim, é que vou ter que continuar tomando hormônio para controlar os pedaços de endometriose que eles não retiraram. Ô vida.
E logo depois dessa notícia, ele me dá a bomba, de que só iriam me dar 1 semana de licença do trabalho. Que eles achavam que eu tinha que voltar à vida normal o mais rápido possível, que ficar deitada em casa aumenta as chances de complicações.

Caramba. Uma semana de repouso só, depois de cirurgia no abdômen? Tem gente que recebe 2 ou 3 semanas por muito menos que isso!!! Sem comentários. Indignação é a palavra que descreve meus sentimentos.  

Depois ele mandou tirar o meu catéter e controlar se minha urina ainda tinha sangue. Disse que eu poderia ir para casa quando estivesse pronta.

O problema é que esse “pronta” quer dizer quando os movimentos peristálticos estiverem sido restabelecidos. Essa é a bosta de ir para hospital numa língua estrangeira. A gente não entende metade do que eles falam, pois aqui se fala muito nas entrelinhas, e estrangeiro tem dificuldade de entender esse tipo de coisa.
A enfermeira vivia dizendo que eu mesmo controlaria, decidiria, quanto tempo passar no hospital. Tenho certeza de que isso é outra mensagem entrelinhas que eu não entendi, afinal custa uma fortuna por noite por leito de hospital e eles estão cortando gastos. Bom…

Fizemos mais uma tentativa para eu me levantar da cama, e foi tudo bem. Comecei então a caminhar de pouquinho em pouquinho.

Enquanto estou eu lá, recém levantada, trazem a mulher da cama do lado de volta. Não eram nem 11 da manhã ainda. A cirurgia dela foi híper rápida.
Eu estava muito cansada e só queria me deitar novamente, mas não tinha paciência para todo o barulho que aquela família fazia.
Mas Deus é pai. Ela foi liberada ao meio dia, e meia hora mais tarde eles estavam deixando o hospital e eu pude finalmente descansar.

E mais um dia se passou, com mais visitas, mais mensagens, mais enjôos e vômitos – pois me deram morfina ao invés de codeína, e a tia Cris não tolera a primeira muito bem.

Eu acabei dormindo mais uma noite no hospital, por causa da greve do intestino.

No meu último dia no hospital acordei com dores horríveis tanto no abdômen quanto nos ombros. Depois de uma laparoscopia, acumulam-se gases no corpo, e se o intestino não estiver funcionando, a pressão gerada é um troço fenomenal e chega até a área dos ombros e pescoço. Eu mal conseguia ficar ereta, tamanha era a dor. Estava de mau humor, pedindo para eles me darem algum remédio que fizesse o intestino pegar no tranco, mas a coitada da enfermeira dizendo que a única coisa a fazer era caminhar e beber muito líquido. E ela vinha atrás de mim o tempo todo, dizendo para eu caminhar e perguntando se eu já estava conseguindo liberar os gases, e eu estava com vontade de esgoelar aquela garota.

Uns poucos minutos mais tarde veio o primeiro pum. Em português bem claro: eu nunca antes tinha ficado tão contente em soltar um peidinho. Foi alívio imediato. A dor nos ombros passou, a dor no ventre passou, e eu estava até sorrindo.
Fui para o corredor e a enfermeira disse: você está sorrindo. Conseguiu peidar, não foi? E eu disse sim, posso ir para casa agora?

Enquanto aguardava Carsten ir me buscar, eu ia tomar um banho antes de ir embora, mas não tinha água quente no chuveiro do meu quarto.

Suja de álcool iodado, descabelada e cansada, vim para casa. Aqui a luta continua, mas estou me recuperando bem. Ou pelo menos eu acho que estou me recuperando bem.
Veremos daqui a uns dias. 🙂

O procedimento

Andando, eu entrei na sala de operação. Eu nunca tinha sido operada antes, e a única referência que tinha eram filmes e vídeos simulando uma operação. Eu esperava um quarto branco, cama ou maca reta. Mas não foi nada disso.

A minha primeira reação foi à temperatura da sala. Estava gelada. Eu diria que abaixo de 16 graus. Comecei a tremer imediatamente.

Meu segundo choque foi ver a “cama”. Era, sem brincadeira, uma cadeira ginecológica.
E eu esperava que a sala seria toda branca, mas era azul.

Me fizeram deitar naquela cadeira congelada. Eu tremia feito vara verde. Bem nesse momento me bateu um medo muito grande e rolaram umas lágrimas.

Para me acalmar, colocaram um arzinho quente no meu peito para me esquentar um pouco, enquanto elas me embrulhavam num plástico duro, acho que para me imobilizar.

Antes de me colocarem para dormir, perguntaram se eu tinha problema no joelho, porque eles iriam levantar minhas pernas para o ar durante a cirurgia. Fizeram um teste e eu pude ter uma idéia da posição “confortável” na qual eu estaria deitada durante o procedimento.

2016-04-30 11_17_52-O procedimento _ Cris.dk

Chegou a hora de me colocar para dormir. Disseram pense numa coisa boa e durma bem. Eu pensei em forró e todos as pessoas bacanas que conheci.

De repente escuto um povo gritando e sinto duas pessoas, uma de cada lado, me chacoalhando. Isso é a técnica para acordar o povo da narcose.
Caramba, a gente acorda até assustada com os berros que eles dão. Novamente, eu achei que seria como nos filmes, que a gente acorda naturalmente.

A enfermeira veio em seguida, disse que me levariam para o quarto dentro de uma hora e me ofereceu água e suco.

Eu perguntei que horas eram.
Eram 16:30.