Titânico

Como vocês sabem eu leio o Copenhagen Post, um jornal para estrangeiros. Esse jornal escreve uns artigos diferentes, como artigos falando de acontecimentos históricos ou curiosidades sobre a Dinamarca.

Semana passada veio um artigo sobre uma passageira do navio Titanic.

Hoje tive tempo de ler o texto com calma e achei muitíssimo interessante.

Há poucas semanas atrás o naufrágio do Titanic completou 100 anos. Imagino que devem até ter feito um Globo Reporter sobre o assunto. Ainda existe Globo Reporter nas sextas-feiras?

A história é a seguinte: O artigo fala de uma sobrevivente do naufrágio que era dinamarquesa e diz que a história dela inspirou James Cameron, o diretor do filme Titanic de 1997, a incluir o personagem Rose no filme. Rose, aquela velhinha que narra a história e que no final do filme joga o colar no mar.

Eu não sabia, mas 231 dos passageiros do Titanic eram nórdicos (123 suecos, 63 finlandeses, 31 noruegueses e 14 dinamarqueses).

Dentre esses dinamarqueses estava uma moça de 19 anos que trabalhava como empregada doméstica na mesma cidade onde seu pai era açougueiro. Ela recebeu autorização do pai para tentar uma nova vida na terra prometida junto com seu tio.

Ela comprou uma passagem na terceira classe que custou em torno de 7 libras (uns 30 reais e eu acredito que isso era uma verdadeira fortuna naquela época).

Carla Jensen (deve ser parente do Carsten, se bem que metade da Dinamarca tem esse mesmo sobrenome) estava viajando junto com seu tio, seu irmão e seu noivo, mas eles ficaram numa cabine na proa do navio, enquanto a cabine dela era na popa.

No momento da colisão Carla estava dormindo e só soube que o inafundável Titanic estava afundando quando foi acordada por seu tio.

Eu achei o texto da entrevista original de Carla Jensen e vou traduzir para vocês:

“Eu dividi cabine com três outras moças, duas inglesas e uma sueca. Nós nos recolhemos cedo no dia 14 de abril porque os passageiros da terceira classe tinham que deixar o deque às 22 horas o mais tardar. Nós acordamos com um estrondo meia hora depois, mas voltamos a dormir depois disso.

Meia-noite e meia bateram na porta e o meu tio disse: “É melhor você colocar um casaco e vir comigo para o convés”… então eu coloquei o meu casaco sobre a camisola e fui para o deque.

Nós tínhamos batido num iceberg e tinha música no salão da primeira classe. Não havia pânico algum, nem mesmo quando os botes salva-vidas foram baixados. Ninguém com pressa para entrar neles. Mulheres e crianças entraram nos botes primeiro. Carla viajava na terceira classe, e entrou num dos últimos botes salva-vidas, o de número 16. Assim que ela entrou no barco seu tio disse: “Agora você pode esperar aqui até que a gente venha”.

Depois que baixaram os botes na água e estávamos a uma boa distância do Titanic, nós podíamos ouvir que a orquestra ainda estava tocando.

Alguém disse que era o salmo Nearer My God to Thee (Aproxime meu Deus de ti). Eu não conhecia esse salmo, já que era um salmo inglês. Havia 6 membros da tripulação para remar o barco. O mar estava completamente calmo, sem ondas, como um espelho. Nós estávamos cercados de outros barcos salva-vidas e tinham muitos icebergs ao redor de nós.

Então a catástrofe aconteceu. Ninguém esperava por isso. Com medo nós escutamos um barulhão difícil de descrever, seguido de gritos de 1000 pessoas vindo do navio gigante, que se partiu em dois e ambas as partes se ergueram e depois afundaram. Nós estávamos petrificados e vimos tudo acontecer. O que era pior que os gritos era o silêncio que se formou logo depois, foi terrível.”

Carla Christine Nielsine Andersen-Jensen

Reparou como o nome dela é comprido? Se fôssemos traduzir seria o mesmo que dizer Carla Cristina Nelci dos Santos-Silva.

O bote onde Carla estava foi socorrido pelo navio Carpathia. Ela disse:

“Eles nos receberam bem, nós recebemos cobertores, comida e bebida quente, mas as horas abordo foram horríveis. Algumas mulheres sentaram simplesmente e olhavam vagamente para o nada, outras andavam para cima e para baixo sem descanso e gritavam os nomes dos maridos, outras deitaram e simplesmente choravam.”

Carla foi a única que sobreviveu. Seu tio, irmão e noivo não tiveram a mesma sorte. Chegando em Nova York ela foi internada no hospital, donde enviou um telegrama para o pai dizendo que sobreviveu. Ele respondeu mandando que ela voltasse imediatamente para a Dinamarca.

A empresa White Star Line deu um bilhete de segunda classe para ela voltar para casa no navio Adriatic. Depois dessa viagem Carla nunca mais deixou a Dinamarca.

Durante a sua vida ela deu inúmeras entrevistas para jornais, revistas e rádio. E em todas as entrevistas ela sempre manteve que o Titanic se dividiu em dois antes de afundar.

Por muitos anos cientistas estavam certos de que isso não tinha acontecido (em outras palavras, chamando o relato de sobreviventes de mentirosos). Mas depois que o navio foi encontrado, eles podiam ver com os próprios olhos que navio estava em dois pedaços no fundo do mar.

De acordo com os artigos, Carla raramente falava do que aconteceu naquela noite com os seus conhecidos.

Logo antes de morrer em 1980, Carla deu sua última entrevista e um jornal dinamarquês publicou uma matéria completa com a história e uma foto dela segurando a camisolinha que usou naquela noite.

O Copenhagen Post escreveu que todo ano na data do naufrágio Carla vestia sua camisola e ficava acordada até o alvorecer do dia 15 de abril, assim como fez em 1912.

Carla faleceu em 1980 e desejava ser enterrada vestindo a camisola do naufrágio e assim foi feito.

Foi sugerido que James Cameron, o diretor do filme Titanic de 1997, se inspirou na fotografia e história de Carla para bolar o personagem Rose, especialmente aquela cena onde ela aparece no final do filme no deque vestindo camisola e joga o colar no mar.

Engraçado, o artigo no jornal é sobre Carla Jensen, mas eles não mostraram nenhuma foto dela. Será que essas fotos ainda estão sob direitos autorais?

A primeira foto do artigo mostra uma pintura com a seguinte nota de roda-pé: apesar dos relatos de sobreviventes dizer que o navio se partiu em dois antes de afundar, a maioria das pinturas de artistas tentando retratar o naufrágio mostra o navio afundando intacto.

E é verdade. Lembro da primeira vez que eu ouvi a história do Titanic. Foi na escola de inglês. Era uma das últimas lições do livro e a foto era muito parecida com essa mostrada no jornal.

O artigo no jornal termina dizendo que se Carla realmente foi inspiração para a personagem Rose, então James Cameron e Carla (se ainda estivesse viva) veriam a ironia num roubo que aconteceu ano passado.

No parque Tívoli fizeram uma exposição sobre i Titanic.

Eu queria ter visto, mas Carsten e eu chegamos lá no último dia de exposição e não nos deixaram entrar porque já tinha muita gente lá dentro e o último horário de admissão estava próximo.

Um dos objetos da exposição era um colar valioso, que tinha sidoencontrado nos destroços do naufrágio dentro do bolso de um mordomo – que poderia ou não ter roubado o colar. No filme, Rose tinha o colar consigo o tempo todo, e ela poderia ou não ter roubado o colar de um passageiro americano. A exposição rolou de junho a dezembro de 2011 e o colar verdadeiro foi roubado de dentro do Tivoli em setembro (péssima segurança).

Espero que você tenha gostado do artigo. O meu texto foi baseado nos seguintes links: Wikipedia, Copenhagen Post.
A música Nearer My God to Thee, que dizem estar tocando antes do naufrágio é bem bonita:

 

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6 Responses to Titânico

  1. Manoela diz:

    Bela história! Triste, mas bonito, se é possível.
    Por que será que não “poderia” o navio ter partido?
    E os pintores deveriam retratar o navio quebrando, bem mais dramático!
    A Carla Cristina Nelci dos Santos-Silva, manteve o mesmo sorriso. Pelo menos nas fotos dela jovem e já idosa é o mesmo sorriso!

    • cris diz:

      Você também reparou no sorriso dela?! Legal. A mesma carinha, mesmo 70 anos depois.
      Eu não sei responder essa do navio. Pessoalmente eu acho que a maioria dos navios quando afundam simplesmente começam a encher de água e afundam devagar. Navio quebrando no meio deve ser algo raro, talvez por isso foi difícil de acreditar em algo assim?

  2. Manoela diz:

    Difícil de acreditar mesmo todo mundo que presenciou falando como aconteceu? Deve ter sido ao extraordinário, mesmo!!
    Achei tão bonitinha a senhora. Um ar tão bondoso! 🙂

  3. Aroldo, pé de repolho diz:

    Globo Reporter, esse treco vai existir até o ano de 29.360, mas teve uma matéria do os 100 anos do Titanic no NatGeoHD ou History, não assisti.

    O Titanic era considerado o navio, mais rápido, maior, mais forte, encarava qualquer parada. é triste mais fazer o que, né

    Tambem achei que a bondosa Carla Christine Nielsine Andersen-Jensen com aquele sorriso maroto, está com a mesma carinha de quando aconteceu a tragédia.

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