Submergiu

Ontem fui a uma degustação de vinhos com o povo do trabalho e está todo mundo comentando de uma história louca que ocorreu aqui em Copenhague. Não, ninguém estava bêbado ainda. Essa história doida eu escutei assim que cheguei. Estávamos todos sóbrios, juro! rs

Como eu não assisto TV nem leio jornal, justamente porque só se fala em notícia ruim, eu fiquei boquiaberta ouvindo os relatos. Detalhe, quem me contou leu a notícia no jornal da Turquia, então eu fui procurar em português e achei, mas não com todos os detalhes que ouvi ontem.

Imagina um cidadão que construiu ele mesmo 3 submarinos para uso particular. Onde esse homem estaciona esses submarinos, eu adoraria saber. 

Ouvi também que ele está metido na construção de um foguete.

Mas a história é que ele está preso, acusado de matar uma mulher no submarino dele. Mas até agora não encontraram o corpo dela.

As teorias são muitas, pelo menos do povo ontem, de que ela tenha fugido e está curtindo a vida na Tailândia, ou sabe-se lá. 

Cada doido nesse mundo. Quem precisa de 3 submarinos privativos? E aí, gata, quer dar uma voltinha no meu submarino?

Notícia em português

Ilhada

Vi que no meu post anterior eu estava reclamando dos míseros 20 km de estrada de terra esburacada. Eu não sabia o que me esperava. 

Amanhã será meu último dia num paraíso no sul da Bahia chamado Caraíva. Paraíso intocado, mas por uma razão: difícil acesso. Quase 50 km de estrada de terra esburacada. Com chuva, não tem quem passe. Demorou que 2 horas para passar esses 50 km, chegando a Nova Caraíva. Para chegar no destino final, a vila de Caraiva, tem que atravessar o rio com canoa. Foi uma maratona, mas que valeu muito a pena. 

Mas aqui tem que vir com disposição. As ruas todas são de areia fofa, tudo muito rústico, mas a região é fantástica, o povo muito acolhedor, a comida maravilhosa. Pastel de arraia, purê de banana, uma moqueca top. Do forró daqui não gostei, mas acho que não dei sorte, aparentemente aqui é como Dunas de Itaúnas no Espírito Santo, um lugar para curtir um bom forró pé-de-serra. 

Amanhã vou embora, mas tem chovido tanto, que estou apreensiva se vou conseguir passar pela estrada. Espero que sim, pois tenho que chegar em SP a tempo de pegar o avião para casa. Vamos ver. 

Som da terrinha 

Estou na cantina do trabalho, sentada perto do quiosque, onde eles vendem suco natural, sobremesas, vinho, chocolates, e outras coisas apetitosas. A mocinha que vende, está sempre escutando jazz suave ou bossa nova. Quando toca música brasileira eu vou lá brincar com ela. 

Nessa semana ela está de férias, e para minha surpresa, a substituta também está escutando música brasileira. Ara Ketu. 

Gringo escutando axé? Fora do Brasil? Impressionante! Só que aqui eles chamam axé de samba reggae. 

Já vou matando a saudade… Quando eu chegar no Brasil semana que vem, vou estar no ritmo! Rsrs 

CEO

Sexta foi a festa de natal da minha empresa. Não foi tão animada quanto a do ano passado, mas tudo bem. Eu sou uma chata para esse tipo de coisa. A música tem que ser boa, ou eu acho que tudo foi horrível. Mesmo eu não tendo gostado da noite, vi algo que achei muito bacana. Mas deixa eu explicar a situação toda para vc entender.

O manda-chuva da nossa empresa é um cara bem ambicioso e assim que entrou na empresa no verão de 2015, a primeira decisão dele foi cortar 18% dos empregos e acabar com os contratos de cooperação com outras indústrias farmacêuticas, assumindo assim todos os riscos, mas também os ganhos (se houver algum).

Ele vem de uma outra indústria farmacêutica, onde eu trabalhei por muitos anos, e onde os chefões não se misturam com a plebe. Para quem vem do Brasil, não há nada de anormal nisso, mas na Dinamarca, todos são iguais. Ninguém deve achar que é melhor que ninguém, nem mesmos os chefes. Mas as coisas não funcionam assim lá naquela empresa.

No entanto o nosso manda-chuva sempre me impressiona. Mesmo vindo da outra empresa e sendo um cara híper ambicioso, ele sempre mostra que é parte da nossa empresa e que ele é como qualquer um. Todos os dias ele come na nossa cantina, junto com todo mundo. Pega o pratinho dele, pega a comida no buffet, se senta nas mesas ou na bancada e come o almoço dele com os colegas. Já o vi até lá fora, no pátio, num dia de verão, comendo seu almoço e tomando um solzinho.

Pois bem… na festa de natal eu achei muito, mas muito interessante vê-lo se misturando com a galera. Eu o vi dançando no meio da pista por várias vezes. E vc acha que ele só estava dançando com membros da diretoria? Não, não, não. Dançando com gente bem abaixo do patamar dele.. aliás, ele dançou até com uma moça que veio em uma das reuniões que eu estava presidindo. Fiquei até admirada, vê-los dançando, em altos papos!

Eu já não teria coragem de tirar o presidente da empresa para dançar. Eu sou toda esquisita quando se trata de gente famosa ou poderosa. Mas é assim, as pessoas são diferentes. Mesmo assim achei genial vê-lo se divertindo com a plebe!

Ilegal

Voltei ontem de Berlim e vim direto do aeroporto para o trabalho. Estou eu saindo do elevador e toca meu telefone. O identificador de chamada mostrou um número que eu não conhecia.

Alô
Você que é a dona de um Astra, placa tal?
Sim
Ele está estacionado no hotel Tivoli?
Onde?
No subsolo to Tivoli.
Qual é a placa do carro? E a cor?
(ele confirmou, e era o meu carro)
O seu carro está estacionado tão perto do meu, que eu não posso abrir a porta para entrar no carro.
Não sou eu que estou usando o carro hoje. Mas o seu carro tem dois lados. E o outro lado? Vc não pode entrar por ele?
Sim, eu posso, mas a questão é que estacionar tão perto pode causar danos no meu carro.
O meu carro causou danos no seu carro? Vc pode checar?
Não, acho que não, mas é a questão de estacionar assim tão perto.
Então me desculpei e ele desligou.

Carsten estava usando o carro ontem e coincidentemente ele tirou uma foto do estacionamento, pq o cara que me ligou estava estacionado fora da área demarcada e tomando espaço de quase 2 carros. Carsten estacionou bem colado de propósito, mas tb pq não tinha outra maneira de estacionar. E a culpa é do cara que me ligou.

Agora vem a parte boa. Como o cara conseguiu o número do meu telefone a partir da placa do carro? Essa informação só se consegue com a polícia. O que indica que o cara tem conexões. Mas eu também tenho! E eu sei que é ilegal fornecer esse tipo de informação. Hoje eu vou descobrir qual departamento da polícia – e quem exatamente – liberou o meu número de telefone e vou registrar uma reclamação.

Vindo para DK

Se alguma das perguntas abaixo é a pergunta que não quer calar, então eu tenho uma sugestão:

  • Eu quero ir para a Dinamarca?
  • Como posso me preparar para morar na Dinamarca?
  • Vou ser expatriado para a Dinamarca, e agora?
  • Como é a vida em Copenhague?
  • Como funcionam as coisas na Dinamarca?
  • Será que vou me acostumar a morar na Dinamarca?
  • A Dinamarca é muito diferente do Brasil?

Imagino que há muitas outras perguntas, para quais as respostas podem ser encontradas em uma nova página de internet chamada “O livro Copenhague”. A página é em inglês e é voltada principalmente para expatriados, mas qualquer um que esteja vindo para ficar por um tempo prolongado, pode beneficiar das informações publicadas lá.

thecopenhagenbook.dk

Eu dei uma “folheada” rápida no website, mas vi que tem muita informação lá, desde como achar emprego para cônjuges de expatriados, passando por tratamento dentário, médico, seguros, banco e afins.

Clique em “Practical Info” para acessar a maioria das informações úteis.

Eu espero que essa dica ajude.

O príncipe e eu

Durante uma atividade da minha empresa no centro de Copenhague, nosso grupo estava fazendo um foto-safari. É uma atividade, onde nos dividem em vários grupos, e cada grupo deve tirar 5 fotos. Há regras; por exemplo todos os membros do grupo devem aparecer em todas as fotos, ou perde-se pontos, mas ganha-se pontos se as fotos incluírem coisas especiais, como no caso:

  • um soldado segurando rifle
  • uma pessoa famosa
  • um animal selvagem
  • um castelo no plano de fundo
  • todos os membros do grupo dentro de um chafariz
  • todos os membros do grupo sobre uma bicicleta
  • todos segurando uma bebida

Tinha mais coisas doidas, mas isso é o que eu me lembro.

Eu adoro esse tipo de atividade, e foi pena que eu estava me recuperando da cirurgia, e não pude participar, pois eu não conseguia andar sem sentir dor, e não teria como andar pela cidade com o grupo, caçando lugares para tirar foto.

Mas eu fiquei de encontrar todo mundo na frente do castelo Amalienborg, que é onde a rainha mora. De lá, da doca do castelo, nós pegaríamos um barco para um passeio.

Quando passei pela praça do castelo, vi que a bandeira estava hasteada, e isso quer dizer que a rainha estava em casa.

Em seguida, quando cruzei a rua e estava me aproximando do jardim do castelo, onde tem a doca e um chafariz, eu vi o pessoal do meu grupo todo ouriçado, tirando fotos. Pensei que ele estivessem tirando foto dentro do chafariz, mas me enganei.

O que aconteceu foi o seguinte:

Esse grupo imprimiu uma imagem do príncipe da Dinamarca para ganhar pontos tirando uma foto com alguém famoso. As regras do jogo não especificavam se a pessoa famosa deveria estar presente em carne e osso, ou não.

Depois quando eles chegaram no jardim do castelo para aguardar a chegada dos outros, para tomarmos o barco, sabe quem eles encontram, com os filhos pequenos, passeando no jardim, na frente do chafariz? Sim, ele mesmo, o príncipe.

Sem nenhum segurança, andando tranquilamente com as crianças, só usando um boné e óculos escuros para não ser reconhecido facilmente.

Então entendi tudo. Eles estavam tentando tirar uma foto sorrateira, mas nunca iria funcionar, pois a regra do jogo dizia que todos os membros do grupo deveriam aparecer na foto.

Eu tenho certeza de que se eles tivessem abordado o príncipe e pedido para tirar uma foto, que ele teria concordado – pois ele é muito simpático, mas ninguém quis importunar porque ele estava com as crianças.

Então eles só tiraram fotos do príncipe de longe e me mostraram… a melhor foto, onde realmente dá para reconhecer que é o príncipe Frederik, é a foto abaixo que me mandaram por Instagram.

Ei, mas espera aí, eu estou reconhecendo aquela mulher atrás do príncipe, chegando na praça. Sou eu!!

IMG_20160511_194524

Supermercado

A rede de supermercado do Super Brugsen fez uma promoção dando kits gratuitos para grávidas e uma campanha de marketing bem interessante. Ao lado do scanner do código de barras, colocaram um scanner para as grávidas verem seu bebê. Achei muito bacana.

Aqui umas dicas para entender o que eles falam:

Hvor fedt! = Que legal!
Tillykke med det = parabéns, felicitações
Tak = Obrigada(o)
Nogle scanner varer, nogle scanner børn – alguns escaneiam produtos, outros escaneiam bebês

Custo de vida

Hoje eu atualizei a minha planilha de orçamento e pela primeira vez que comecei a perceber o quanto se gasta com coisas a gente quase não usa, e o quanto se gasta com coisas que são muito importantes, como por exemplo, água.

Na minha casa a gente paga mais em seguro do que com a conta de luz.
Para quem está vindo para cá, aqui vão alguns valores aproximados – valores em coroa dinamarquesa por ano.

  • 2.500 DKK – licença do Dansk Radio
  • 3.500 DKK – água e esgoto
  • 7.000 DKK – aquecimento da casa
  • 10.000 DKK – eletricidade
  • 20.000 DKK – imposto sobre o terreno e coleta de lixo
  • 12.000 DKK – seguros

Licença do DR (Dansk Radio) é para ver os canais dessa emissora (de tv, rádio e computador) e é obrigatório mesmo que vc não assista tv ou escute rádio, que é o meu caso

Aquecimento da casa depende do tamanho da casa ou apartamento e tipo de aquecimento. Nós usamos gás natural, mas quem mora na cidade usa “aquecimento à distância”. A água quente que circula nos radiadores vem das usinas da queima de lixo urbano, e o preço é bem mais barato do que gás ou óleo. Lembro que quando eu morava em Copenhague o aquecimento de um apartamento de 40 m2 era menos de 2 mil por mês, e o de uma casa de 80 m2 era de 5 mil usando aquecimento à distância (fjernvarm)

Seguros obrigatórios são o da casa (incêndio e danos – não cobre furtos, que é um seguro à parte) e o do carro (responsabilidade em caso de acidente – cobre os danos no carro da outra pessoa, mas não no seu). Mas claro que vc vai fazer um seguro para proteger os objetos de valor da casa em caso de arrombamento. Se tiver um carro novo também é bom ter um seguro que cubra danos à carroceria. Nós não temos, porque o carro é velho, no entanto temos um seguro assistência, para virem nos socorrer se der pane no carro. 🙂 e já precisamos ativar o seguro algumas vezes. O da casa nós também ativamos quando passou um furacão aqui que levou embora o topo do nosso telhado.
O bom das seguradoras da Dinamarca é que não tem aporrinhação. Preenche um formulário e pronto. Depois vc encontra a pessoa para fazer o serviço e eles enviam a conta diretamente para a seguradora. Ponto final.

Se você paga aluguel, veja se gastos eletricidade, água e aquecimento estão incluídos ou são à parte.
Se mora em apartamento, o seguro contra incêndio é dividido por todos e vem na taxa do condomínio, assim como coleta de lixo e gastos com remoção de neve das calçadas.

Quem mora em casa é responsável por limpar a neve da calçada na frente da sua casa e espalhar sal. Se alguém cair e quebrar a perna na frente da sua casa por causa de neve ou gelo, você é responsável.

Os gastos com moradia são em torno de 50 mil mais hipoteca da casa ou aluguel, que facilmente pode acrescentar de 60 a 100 mil coroas (ou mais) a esse valor.

Pense que tem gente que ganha menos de 20 mil coroas por mês, ou seja menos de  240 mil por ano (aqui não existe 13º salário). Desse valor é descontado no mínimo 37% de imposto de renda, 8% contribuição à saúde pública e 1% aposentadoria pública.

Depois de pagar todas as despesas, no final do mês, talvez não sobre dinheiro para ir ao supermercado ou transporte.
Na DK o empregador não paga vale-transporte nem vale-refeição.

Quando vier para cá, se não tiver trabalho garantido, pode ser difícil de sobreviver. Pense nisso.

Dupla – parte 3

E esse resultado que nunca chega. Pensei que receberia uma resposta dentro de 3 meses, mas nada.

Foi somente ontem que recebi a carta eletrônica do ministério. Vou até o website e não consigo abrir a mensagem, mas felizmente consigo abrir o anexo. Estava datado 19 de abril.

Como assim? Datado 19 de abril e eu só recebo a carta no dia 12 de maio? Depois dizem que é somente no Brasil que as coisas demoram.

O anexo diz que desde 22 de abril eu tenho a cidadania dinamarquesa. Aleluia!
E pede que eu preencha o formulário abaixo e envie para eles assinado.

São 7 perguntas sem pé nem cabeça, pois tudo que me perguntam está no meu registro geral. Eles poderiam simplesmente ter lido o meu registro com a prefeitura.
Perguntam se sou casada, qual a data do casamento ou divórcio. Se tenho filhos, onde moram, qual o RG deles, e se os filhos são de casamentos na Dinamarca ou no exterior.

Dizem que depois que eu enviar essa informação, eles vão me encaminhar um comprovante da cidadania. E agora? Falta informação. É para mandar o formulário por carta, email, pombo-correio? Quando posso fazer meu passaporte? Preciso de mais alguma coisa?

Ô gente que gosta de dar informação pela metade e mudar constantemente de ideia.

(idéia sem acento, nova regra ortográfica… eu não consigo, sinto muito!)

Dupla – parte 2

Finalmente eu tinha na minha mão quase toda a papelada necessária para dar entrada no pedido de naturalização. Só faltava um atestado da prefeitura, confirmando que eu não tinha dívidas com o estado e que não estava recebendo nenhum tipo de benefício público.

Quando o atestado chegou na minha casa, uns dias depois, eu só precisava ir até a polícia, pagar uma taxa de 1000 coroas (parece que tudo aqui custa mil coroas, impressionante!) e aguardar. Mas eu fiquei me enrolando.

Enrolei por quase 2 anos!

Foi só no final de 2014 que eu decidi de vez. Ter a cidadania me traria alguns benefícios: direito de voto, direito ao passaporte europeu que me dá direito de morar em qualquer país da União Européia, direito de morar fora da Dinamarca por mais de 6 meses e depois poder voltar sem ter que recomeçar o processo de imigração, direito de estudar na universidade sem ter que pagar uma taxa abusiva por ser imigrante fora do EU, e assim vai.

Em dezembro de 2014, numa loucura, resolvi voltar até a prefeitura para pedir um novo atestado. A prefeitura fecha 5 da tarde. O trem parou na estação 4:52 e eu tinha que caminhar uns 800 metros para chegar no prédio. Eu corri feito uma louca. Cheguei no balcão de atendimento não conseguia nem respirar, quanto mais falar.

A atendente foi muito simpática. Tão simpática que ela, para minha surpresa, fez a declaração na hora!

No dia seguinte eu fui até a polícia. Paguei a taxa, deixei todos os documentos e eles me disseram que me convidariam para uma entrevista.

No dia da entrevista, tive uma conversa muito boa com a policial. Ela queria avaliar se eu realmente falava dinamarquês, qual meu interesse em me tornar cidadã dinamarquesa, qual minha história, se tenho trabalho, etc.

Foi tudo muito bem. O próximo passo seria ter meu nome aprovado pelo parlamento e incluído numa proposta de lei. Essa votação ocorre duas vezes por ano, uma em abril e outra em outubro.

Quando o mês de abril chegou e eu vi que meu nome não estava na lista, não me desesperei. Pensei que muita gente estava enviando solicitação de naturalização, agora que a Dinamarca aceita dupla cidadania.

Então esperei tranquilamente até outubro de 2015.

Juro que não é brincadeira, mas 10 dias antes da votação, um projeto de lei é aprovado, onde o ministério novamente muda de idéia e diz que aquela prova mais fácil de história e cultura não era mais aceita, que somente quem tivesse feito a prova difícil é que seria elegível (e quem fez a fácil tinha que fazer a prova novamente, e claro, pagar nova taxa), e essa decisão era retroativa até junho de 2014 e todos os processos em andamento deveriam ser reavaliados.

Eu pensei que não seria um problema para mim, já que eu tinha feito a “mardita” prova, mas o meu caso foi adiado, porque demora para reavaliar.

Puxa vida, agora tinha que aguardar até abril de 2016?

Por sorte o parlamento abriu uma votação extraordinária no final de janeiro e no dia 27 de janeiro eu vi o meu nome na proposta de lei para naturalização.

Agora é só aguardar o resultado.

Dupla – parte 1

Novidades do reino.

Ontem recebi uma mensagem eletrônica do ministério da integração. Eu imaginei que fosse sobre a minha solicitação de cidadania, e era.. Ô coisinha complicada requerer e obter a naturalização dinamarquesa.

Há vários requisitos que devem ser preenchidos pelo candidato e o governo muda de idéia o tempo todo, principalmente em relação:

  • à quantidade de anos que a pessoa deve morar na Dinamarca para ser elegível
  • ao nível de fluência em dinamarquês e nota final na prova do idioma
  • ao nível da prova sobre cultura e história dinamarquesa

Apesar de eu ser elegível para a cidadania dinamarquesa desde 2008, eu sempre descartei essa possibilidade, porque a Dinamarca não aceitava dupla cidadania e eu teria que abdicar da minha brasileira.

Outro motivo que me deixava irada era o fato de que o candidato deve passar num teste de história e cultura dinamarquesa que tem uma fama medonha.

  • O teste tem 40 perguntas e o candidato deve responder no mínimo 35 perguntas corretamente para passar.
  • Os estrangeiros devem responder todas essas perguntas corretamente, mas os próprios dinamarqueses que tentavam a prova, reprovavam. Parece injusto que os estrangeiros devem ter esse conhecimento, quando a população local não o tem.
  • Muita gente reprovava e tinha que pagar novamente a taxa para refazer a prova – e o preço da prova não é barato. São quase 1000 coroas, sem falar que vc tem que pedir um dia de folga no trabalho, porque a prova é no meio do dia.

Tudo isso me impedia a ver o lado positivo em pedir cidadania.

Até que um dia, conversando com uma doida brasileira que eu conheço, ela me disse que gostou muito de ler o material de preparação para a prova. Que foi interessante. E o comentário dela ficou na minha cabeça

Então, uns 5 anos atrás, quando recomeçou a discussão de que o parlamento votaria uma proposta da Dinamarca aceitar dupla cidadania, eu resolvi estudar para fazer a diaba da prova.

O material é distribuído gratuitamente. O que eu fiz, foi pagar um website com perguntas das provas anteriores, para que eu me preparasse da melhor maneira. Não me arrependi disso. Usei somente 5 semanas para me preparar e passei na prova na primeira tentativa.

Honestamente, a prova não é tão difícil assim. Eu acho que o pessoal não se prepara direito, ou ficam nervosos demais porque são 40 perguntas mas muito pouco tempo para responder tudo.

Lembro que no dia que fiz a prova, logo antes de começar, o monitor nos deu a informação de que o ministério tinha mudado de idéia, e que daquele dia em diante, a prova seria bem mais fácil. Justamente aquele dia seria o último dia da prova difícil. Puxa vida, isso é notícia que se dê bem antes de começar a prova?

Paciência.

Hospital público

Para quem quer ter uma idéia do tratamento nos hospitais públicos da Dinamarca.

Ontem de noite, domingo, telefonei para o Rigshospitalet, onde fiz minha cirurgia, para dizer que eu tinha sintomas de trombose. Perguntei se era para eu ir para o hospital imediatamente ou esperar para falar com meu clínico geral na manhã seguinte.

O médico do hospital queria que eu fosse diagnosticada ainda naquela noite, mas eles não podiam me ajudar por duas razões: eles são do departamento de ginecologia e o Rigshospitalet não é o hospital da minha região.

Me mandaram ligar para a central de médicos de plantão, que me encaminhou para o pronto-socorro do hospital Hillerød – 30 minutos de carro de casa – já que eles fecharam o meu hospital local para combinar tudo num “super” hospital regional (uma palhaçada, na minha opinião).

Quase duas horas aguardando atendimento mais duas horas aguardando o resultado de um teste de tempo de coagulação

Duas da manhã, a médica ou residente de plantão me diz que meu tempo de coagulação está elevado, e baseado nos meus sintomas, ela não pode nem confirmar nem excluir a possibilidade de um coágulo estar alojado na perna. Que era para eu ir para casa e voltar no dia seguinte para fazer uma sonografia.

Se não era para fazer o teste confirmatório na mesma noite, para quê me mandar para o pronto-socorro no meio da noite?

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10:15 da manhã cheguei de volta ao hospital. Nesse momento são 11:05, estou sentada na sala de espera, onde tem, sem brincadeira, gente roncando e babando na cadeira, e eu continuo esperando pela sonografia.

O pior é saber que depois do procedimento tenho que voltar no pronto-socorro e esperar horas até que um médico tenha tempo para olhar o resultado e me dar uma resposta.

Convalescença

Convalescença, essa é uma palavra que não escuto há anos, mas que descreve tão bem esse período no qual me encontro.

Foi hoje de manhã, enquanto eu praticava francês com um correspondente, que eu escutei a palavra: convalescence (tem que falar fazendo biquinho, senão não funciona!).

Eu estava com medo da cirurgia, mas o desafio maior é o pós-operatório. Parece que cada dia aparece uma coisa diferente que a gente tem que superar.

No primeiro dia o cansaço e as dores são as piores.
No meu caso também causava um desconforto o fato de sentir vontade constante de urinar, mesmo eu estando com catéter.

Em seguida a gente tem que lidar com o povo que começa a mandar mensagem, telefonar e quer visitar. Tudo isso é exaustivo.

Então vem a fome e o fato de que tudo que se coloca na boca dá náusea. Até mesmo cheiro de comida e de flores causa ânsia de vômito.

Era para eu ter ido embora para casa no primeiro dia, mas por causa de uma pequena hemorragia, me mantiveram sob supervisão. E também pelo fato de que eu tinha tantas dores que não consegui ficar de pé no primeiro dia. O ideal seria começar a caminhar algumas horas após a operação.  

Quando finalmente todo mundo foi embora, 10 da noite, pois na DK eles não deixam a família dormir no quarto como normalmente se faz no Brasil, eu achei que iria poder descansar, mas não. Meu sono foi interrompido várias vezes pela enfermeira que veio medir minha pressão no meio da noite.

Eu tive muita sorte que no meu quarto o outro leito estava vazio e eu fiquei sozinha. Sabe, hospital público a gente não tem direito a quarto privativo.

Mas a alegria durou pouco. 6:30 da manhã chega a minha colega de quarto, ela, com neném rescém nascido e a família toda. Ô meu pai, dái-me paciência! Eles não calavam a boca, e eu muito cansada, só queria dormir.

7:15 levaram ela para a sala de operação. Pensei comigo mesmo, talvez só tragam essa mulher de volta 5 da tarde.

Finalmente, silêncio, achei que ia poder dormir um pouco, mas veio o médico me explicar como foi a cirurgia e como seria daqui pra frente. Disse que foram 3 horas de cirurgia e que tiraram parte de 3 órgãos, mas aquilo que eles tinham combinado comigo de fazer, isso eles não fizeram porque ficaram com medo que fosse me dar uma infecção generalizada.
O lado bom dessa notícia é que eu não precisaria passar 10 dias em casa com catéter.
O lado ruim, é que vou ter que continuar tomando hormônio para controlar os pedaços de endometriose que eles não retiraram. Ô vida.
E logo depois dessa notícia, ele me dá a bomba, de que só iriam me dar 1 semana de licença do trabalho. Que eles achavam que eu tinha que voltar à vida normal o mais rápido possível, que ficar deitada em casa aumenta as chances de complicações.

Caramba. Uma semana de repouso só, depois de cirurgia no abdômen? Tem gente que recebe 2 ou 3 semanas por muito menos que isso!!! Sem comentários. Indignação é a palavra que descreve meus sentimentos.  

Depois ele mandou tirar o meu catéter e controlar se minha urina ainda tinha sangue. Disse que eu poderia ir para casa quando estivesse pronta.

O problema é que esse “pronta” quer dizer quando os movimentos peristálticos estiverem sido restabelecidos. Essa é a bosta de ir para hospital numa língua estrangeira. A gente não entende metade do que eles falam, pois aqui se fala muito nas entrelinhas, e estrangeiro tem dificuldade de entender esse tipo de coisa.
A enfermeira vivia dizendo que eu mesmo controlaria, decidiria, quanto tempo passar no hospital. Tenho certeza de que isso é outra mensagem entrelinhas que eu não entendi, afinal custa uma fortuna por noite por leito de hospital e eles estão cortando gastos. Bom…

Fizemos mais uma tentativa para eu me levantar da cama, e foi tudo bem. Comecei então a caminhar de pouquinho em pouquinho.

Enquanto estou eu lá, recém levantada, trazem a mulher da cama do lado de volta. Não eram nem 11 da manhã ainda. A cirurgia dela foi híper rápida.
Eu estava muito cansada e só queria me deitar novamente, mas não tinha paciência para todo o barulho que aquela família fazia.
Mas Deus é pai. Ela foi liberada ao meio dia, e meia hora mais tarde eles estavam deixando o hospital e eu pude finalmente descansar.

E mais um dia se passou, com mais visitas, mais mensagens, mais enjôos e vômitos – pois me deram morfina ao invés de codeína, e a tia Cris não tolera a primeira muito bem.

Eu acabei dormindo mais uma noite no hospital, por causa da greve do intestino.

No meu último dia no hospital acordei com dores horríveis tanto no abdômen quanto nos ombros. Depois de uma laparoscopia, acumulam-se gases no corpo, e se o intestino não estiver funcionando, a pressão gerada é um troço fenomenal e chega até a área dos ombros e pescoço. Eu mal conseguia ficar ereta, tamanha era a dor. Estava de mau humor, pedindo para eles me darem algum remédio que fizesse o intestino pegar no tranco, mas a coitada da enfermeira dizendo que a única coisa a fazer era caminhar e beber muito líquido. E ela vinha atrás de mim o tempo todo, dizendo para eu caminhar e perguntando se eu já estava conseguindo liberar os gases, e eu estava com vontade de esgoelar aquela garota.

Uns poucos minutos mais tarde veio o primeiro pum. Em português bem claro: eu nunca antes tinha ficado tão contente em soltar um peidinho. Foi alívio imediato. A dor nos ombros passou, a dor no ventre passou, e eu estava até sorrindo.
Fui para o corredor e a enfermeira disse: você está sorrindo. Conseguiu peidar, não foi? E eu disse sim, posso ir para casa agora?

Enquanto aguardava Carsten ir me buscar, eu ia tomar um banho antes de ir embora, mas não tinha água quente no chuveiro do meu quarto.

Suja de álcool iodado, descabelada e cansada, vim para casa. Aqui a luta continua, mas estou me recuperando bem. Ou pelo menos eu acho que estou me recuperando bem.
Veremos daqui a uns dias. 🙂

O procedimento

Andando, eu entrei na sala de operação. Eu nunca tinha sido operada antes, e a única referência que tinha eram filmes e vídeos simulando uma operação. Eu esperava um quarto branco, cama ou maca reta. Mas não foi nada disso.

A minha primeira reação foi à temperatura da sala. Estava gelada. Eu diria que abaixo de 16 graus. Comecei a tremer imediatamente.

Meu segundo choque foi ver a “cama”. Era, sem brincadeira, uma cadeira ginecológica.
E eu esperava que a sala seria toda branca, mas era azul.

Me fizeram deitar naquela cadeira congelada. Eu tremia feito vara verde. Bem nesse momento me bateu um medo muito grande e rolaram umas lágrimas.

Para me acalmar, colocaram um arzinho quente no meu peito para me esquentar um pouco, enquanto elas me embrulhavam num plástico duro, acho que para me imobilizar.

Antes de me colocarem para dormir, perguntaram se eu tinha problema no joelho, porque eles iriam levantar minhas pernas para o ar durante a cirurgia. Fizeram um teste e eu pude ter uma idéia da posição “confortável” na qual eu estaria deitada durante o procedimento.

2016-04-30 11_17_52-O procedimento _ Cris.dk

Chegou a hora de me colocar para dormir. Disseram pense numa coisa boa e durma bem. Eu pensei em forró e todos as pessoas bacanas que conheci.

De repente escuto um povo gritando e sinto duas pessoas, uma de cada lado, me chacoalhando. Isso é a técnica para acordar o povo da narcose.
Caramba, a gente acorda até assustada com os berros que eles dão. Novamente, eu achei que seria como nos filmes, que a gente acorda naturalmente.

A enfermeira veio em seguida, disse que me levariam para o quarto dentro de uma hora e me ofereceu água e suco.

Eu perguntei que horas eram.
Eram 16:30.