Tic-tic nervoso

O refeitório na empresa onde trabalho continua funcionando nessa época de covid.
A gente tem que tirar o chapéu pra esse pessoal. Eles se desdobraram pra deixar tudo mais seguro e evitar contaminações.

Por algum tempo, achei que eles tivessem mandado gente embora, pois durante o verão eles estavam servindo a comida em pratinhos de papelão e dum caminhão, daqueles que servem hambúrguer na pracinha, e eu via muito poucos funcionários.

Mas voltamos a comer do refeitório e percebi que todos os funcionários estão de volta. Todos, menos um. O mais famoso de todos está faltando e as pessoas notaram sua falta.

Nos últimos dois anos, esse funcionário, que coleta os pratos para colocar na lava-louças, ficou famoso porque ele ia no LinkedIn, memorizava o teu nome e teu rosto, e quando ele te via no refeitório, ele gritava o teu nome e às vezes puxava um pouco de papo.

A primeira vez que ele gritou o meu nome eu tomei um susto achei estranho. Também me irritei por ele ter me chamado de Cristina e não de Cristiane. Como eu era a única ali por perto, não tinha erro: a “Cristina” aparentemente sou eu.

E essa cena se repetiu por meses. Eu nunca corrigi ele, porque não queria ser indelicada, mas o fato de ele falar o nome errado me irritava. Eu queria simplesmente entregar o meu pratinho em silêncio e voltar para o escritório.

Teve um dia, quando eu estava acompanhada de um dos meus colegas, que eu escutei o “Oi Cristina”, e o meu colega me olhou incrédulo e falou assim: “Ele acha que teu nome é Cristina?”
Eu respondi que achava melhor nem entrar nesse assunto.

Um dia, desabafando com aquela minha amiga que morou no Rio Grande do Sul por dez anos, comentei que me irritava ser chamada pelo nome errado. Ela disse que eu sou muito irritadinha. Disse também que ela achava fenomenal que o cara conseguia memorizar o nome de tanta gente. Engraçado como as pessoas veem a mesma situação de maneira diferente. Eu achava aquilo uma invasão de privacidade.

Um dia tomei coragem e resolvi falar para ele que o meu nome não é Cristina. Ele disse, “eu sei, mas não consigo pronunciar teu nome”. E eu entendo. Eu também não conseguia pronunciar o nome dele – um nome tradicional indiano, que eu nem me lembro mais, de tão difícil que era.

O fato é que o cara não está mais lá, recebendo os pratos. Notei isso já em junho. Primeiro achei que talvez ele tivesse ficado preso na Índia. Eu ouvi dizer que várias pessoas que foram visitar suas famílias na Índia não conseguiram voltar para a Dinamarca, porque cancelaram todos os vôos.

Mas agora se passaram 5 meses, e o cara não está de volta. Por um lado, fiquei triste que talvez ele tenha perdido seu emprego. Por outro lado, fiquei contente por não ter que aturar alguém gritando pro mundo que meu nome é Cristina.

Então hoje aconteceu o inesperado. Almocei com minha colega Hanne-Lise (você provavelmente se lembra desse nome!) e ela, do nada, comentou que finalmente o cara que gritava os nomes não estava mais lá e ela achava isso ótimo, pois ele a irritava.

Eu gargalhei com esse comentário. Então eu não sou a única irritadinha nesse mundo!!!

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1 Response to Tic-tic nervoso

  1. Cabeça Disneyssauro diz:

    kkkk, sério que vc fica irritada com isso.
    Se fosse que, acho que ia fazer amizade com ele, não sou muito de conversar com gente estranha, mas me alegro em saber que alguém se esforça para agradar o próximo. kkk mesmo sendo chato.

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