Entre Matsumoto e Takayama ficam os alpes do norte, e Kamikochi era o lugar que eu queria conhecer.
Apesar de ser uma região montanhosa, a trilha é bem plana. Eu vi gente fazendo essa trilha de mini saia e bota de salto!
Cheguei em Takayama de noite. Estava o maior frio; uns dez graus acho. E pensar que eu queria ficar dois dias a mais no Japão por causa do sol e calor! rsrsrs
Takayama me pareceu uma cidadezinha muito bacana, pena que eu não tive tempo para ver quase nada. Só fui na rua onde há as casas antigas bem preservadas e de lá fui comprar minha passagem para Kamikochi.
Na hora de comprar a passagem, a mulher no guichê me explicou que eu podia pegar o ônibus para Kamikochi na hora que quisesse, mas para ir de lá para Matsumoto, eu tinha que agendar o horário e isso tinha que ser feito na rodoviária de Kamikochi.
Ela me fez tirar uma foto da tabela dos horários e vi que o último ônibus saía 4 da tarde. Seriam 6 horas de viagem de volta a Tóquio, e se eu pegasse o último ônibus só chegaria em Tóquio depois das 10 da noite. Eu tinha que pensar direitinho.
Antes de me deitar para dormir, coloquei umas roupas para lavar. Eu não tinha nenhuma roupa limpa, afinal achava que minha viagem tinha terminado e que voltaria pra casa nesse dia. Por sorte havia uma máquina de lavar roupas na cozinha do meu quarto de hotel! Enquanto essa máquina fez barulho pra acordar o prédio todo, tomei um banho de banheira bem quente para tentar tirar o cansaço do corpo. Depois do banho quente eu senti que estava um gelo dentro daquele quarto. Entrei pra debaixo das cobertas e fiquei matutando o que fazer no dia seguinte, quais ônibus pegar. Saio daqui umas nove da manhã (chegando 10 em Kamikochi) e vou embora no último ônibus? Isso me daria tempo suficiente para completar 13 km de trilha? Se eu escolher o busão nove da manhã, poderia acordar mega cedo e antes de ir pra rodoviária podia voltar lá na rua das casas antigas para ver direito na luz do dia? Tantas perguntas.
Eu acordei cedo, mas fui direto para a rodoviária e consegui entrar no ônibus das 7:30. Eu tinha bagagem (mochila e bolsa de viagem) e no caminho pesquisei se tinha guarda-volumes em algum lugar, assim não precisaria carregar 10 quilos nos ombros durante a trilha toda. Tinha um guarda-volumes na rodoviária em Kamikochi, porém eu desci do ônibus 4 km antes de chegar lá.
Relendo as mensagens que Shane tinha me enviado, vi que ele recomendava que eu descesse do ônibus na parada da Lagoa Taisho Ike. Foi o que fiz. Desci, levei um baita escorregão. Estava tudo congelado da geada da noite anterior. E estava um frio danado! Mas eu tinha na bolsa luvas, echarpe, blusas e meias de lã. Quando o sol subiu acima das montanhas deu uma boa esquentada e ficou mais gostoso caminhar.
Em Taisho Ike abri o aplicativo do AllTrails para me guiar. Eu queria caminhar até a ponte Myojin, passando pela rodoviária que ficava próximo à ponte Kappa. Seriam uns 9 km de trilha, mas eu tinha que acrescentar 4 km para retornar, buscar a bagagem e tomar o ônibus.

Tinha muita gente na trilha nesse dia. Três ônibus chegaram ao mesmo tempo 8:30 da manhã. Eu tinha a sensação de que havia mais gente nessa trilha do que no cruzamento do Shibuya! No dia seguinte eu descobri o porquê da multidão: era uma sexta-feira e feriado nacional no Japão: o dia da cultura. Claro que todo mundo aproveitou para fazer algo diferente no fim de semana prolongado e Kamikochi é um destino popular.
Por causa da multidão, em alguns lugares se caminhava bem devagar. E o pessoal na minha frente estava carregando uns sininhos barulhentos e eu estava achando aquilo irritante. Fiquei pensando, será que vou ter que ouvir esse sininho o tempo todo? Um quilômetro pra frente eu descobri porque as pessoas carregaram sininhos. Para espantar os ursos.
Em vários locais havia um sino grande para tocar e inúmeras placas dizendo que se você se deparar com um urso, não é para tentar tirar uma foto de perto nem tentar se aproximar do animal. Até então eu não estava levando a sério esse negócio de sininho mas os japas não estavam brincando com essa história de urso. Quando eu passei nas lojinha de souvenirs, comprei um sininho e pendurei na minha pochete. Em várias ocasiões eu me vi sozinha na trilha, e por via das dúvidas, dá-lhe “balangandar” o sininho barulhento.



Larguei minhas mochilas no guarda-volumes, verifiquei o quanto de tempo usei para caminhar os primeiros 5 km, calculei o quanto de tempo precisava para caminhar o restante da trilha, e decidi agendar o ônibus para Matsumoto para 3 da tarde.
Quando eu penso em cores do outono no Japão, eu penso nas cores vermelhas, mas em Kamikochi não tinha vermelho. Era dourado. Mesmo assim achei lindo. Eu tirei 200 fotos nesse dia. Em nenhum outro lugar no Japão eu tirei tantas fotos.
Após a ponte Kappa, eu parei num cantinho do rio para tirar fotos. Era um desvio de 5 metros e tinha um arbusto com folhas bem amarelinhas (foto 19). Não é que ao sair dali meu pé fica enroscasdo numa raiz de árvore e eu caio no chão com tudo. Foi tão rápido e eu caí como uma tora. Não deu para usar os braços para amortecer a queda, pois eu estava segurando o celular. Alguns japoneses pararam para ver se eu estava bem, mas eles só olhavam. Não me perguntaram nada, e não se moveram em minha direção para ajudar. Eles simplesmente pararam para observar? Eu me levantei devagar com bastante dor no seio esquerdo e no tornozelo. Acho que bati o seio em alguma pedra. A minha roupa estava coberta de folhas e galhos.
Assim que me levantei, limpei um pouco da folhas grudadas na minha roupa e as pessoas dispersaram. Com dor no tornozelo e mancando um pouco, fiquei na dúvida se conseguiria terminar a trilha. Demorou 3 dias para a dor no tornozelo passar. A dor no seio deu uma melhorada no final daquela tarde.
Eu já estava avistando a ponte Myojin no lado direito quando o AllTrails queria me levar para o lado oposto para ver a lagoa Myojin. Isso acrescentaria 1 km na caminhada. Era meio-dia em ponto e fiquei na dúvida se valeria a pena. Eu tinha calculado que deveria começar meu retorno o mais tardar às 13h, pois eu estava com dor e andando mais devagar. Eu também não tinha comido nada além de um iogurte às 6 da manhã, e não tinha feito nenhuma pausa com exceção das paradas para tirar fotos. Meu corpo precisava de uma pausa de pelo menos meia hora muito em breve. Com o desvio para ver a lagoa Myojin, me restavam uns 2 km para terminar a trilha. Então vi que os monges estavam cobrando 500 yen para deixar ver a lagoa. Fiquei na dúvida se a vista valeria o investimento. Daí pensei, quando é que terei outra oportunidade dessas? Paguei. Foi bonito, mas nada comparado com o esplendor do resto da trilha.
Atravessei a ponte Myojin. Essas pontes suspensas balançam quando a gente está atravessando. Deu um pouco de medo. Do outro lado da ponte, uns 500 metros adiante, havia restaurantes e banheiros. Era o fim da trilha. Foram praticamente dez quilômetros de caminhada e eram 12:30.
Eu estava morta e precisava fazer minha pausa. Achei que tinha muita gente naquela área de alimentação. Eu estava precisando de tranquilidade e uma bela vista para minha pausa. Resolvi voltar e sentar debaixo da ponte para apreciar a paisagem.
Foi nesse momento que eu me dei conta que não tinha visto nenhum macaco. Shane tinha me escrito que tinha visto macacos nessa trilha. Como eu não vi nenhum e como sei que Shane caminhou uma extensão da trilha, imaginei que os macacos estivessem na área onde eu não fui.
Mas estou eu voltando para a ponte, estômago reclamando de fome e pernas se arrastando de canseira, quando vejo um filhote de macaco sentado na beira do caminho. Assim, 30 cm de distância dos turistas. Depois vi mais um, e outro e outro. Fiquei contente de ver alguns macacos e fui pra ponte descansar.
Para o almoço eu tinha na mochila dois onigiri (bolinhas de arroz). Sentada descansando e observando aquela paisagem linda, vi corvos tentando roubar comida dos turistas, vi uma família de japoneses fazendo malabarismo com a câmera para tirar uma foto. Fiquei com dó deles e falei em japonês quebrado: “foto família? eu tiro.” E tirei a foto deles.
Voltei para meu lugar, comendo meu onigiri tranquilamente, quando vejo um macaco atravessando as cordas da ponte bem ao meu lado. Depois outro e outro. Numa das minhas fotos dá pra ver 7 macacos juntos atravessando a corda.
Depois perdi a conta de quantos macacos atravessaram. Eram famílias inteiras. Machos com cara e escroto vermelhos, fêmeas com cara e tetas vermelhas, e os filhotes agarrados nas fêmeas ou atravessando por conta própria. Por mais de dez minutos eu observei os macacos. Meu relógio dizia que já tinha passado das 13h e estava na hora de voltar. Uma pena, pois eu tinha vontade de ficar ali mais um pouco observando os animais.
Atravessei a ponte atrás de um macaco mal encarado e fui alertando uns turistas para tomar cuidado para não chutar o macaco sem querer. Os turistas estavam de costas para nós, debruçados na ponte olhando os filhotes nas cordas, e não viram os machos atravessando a ponte atrás deles.
Do outro lado da ponte tirei a melhor foto de todas. Uma família terminando de atravessar as cordas.
O resto da caminhada foi tranquila. Fiz com calma, não precisei correr, praticamente não parei para tirar fotos. O último macaco eu vi às 14h. Cheguei na rodoviária 14:40 e deu até tempo para vasculhar a lojinha de souvenir. Eles tinham umas jaquetas da Mizuno que me interessavam, mas o modelo que mais gostei não tinha no meu tamanho. E assim foi a viagem inteira. Eu quase não comprei souvenir no Japão porque não achava numeração!

