Primeiro dia

Durante o fim de semana que antecedeu a minha operação, eu estava organizando o primeiro festival de forró de Copenhague, que foi um sucesso, mas muito cansativo. Lembro que eu brinquei com uma das nossas voluntárias dizendo que iria direto do forró para o hospital.
Vontade de fazer isso não faltou, mas não deu. Eu estava cansada demais e realmente tinha que descansar pelo menos um dia antes da operação, por isso no domingo dia 24 eu nem apareci no festival. Pena, porque eu queria ter visto os locais e a palestra sobre as origens do forró – que foi algo inédito que nenhum outro festival fez.

2016-04-30 11_21_12-Primeiro dia _ Cris.dk

No domingo de tardezinha, como especificado na carta que eu recebi, eu liguei para o hospital para saber que horas seria minha operação. Tomei um baita susto quando me disseram que eu deveria estar lá 6:30 da manhã. Isso para mim queria dizer que eu tinha que me levantar 4 da manhã, para esvaziar o intestino, raspar meus pelos corporais e tomar banho como eles me instruíram, e ainda pegar 50 minutos de estrada até o centro de Copenhague.

Do lado de fora do hospital eu me despedi do Carsten. Não tinha porque ele ficar esperando, já que ninguém sabia dizer quantas horas de cirurgia seriam. Cheguei no ambulatório com 10 minutos de atraso e não tinha ninguém lá. Nesse horário a enfermeira já estava me telefonando, para verificar se eu havia esquecido o dia da cirurgia. Esquecido eu não tinha, mas eu estava tão atordoada, que não li direito em que ala do hospital eu deveria me apresentar e eu estava no lugar errado.

Subi até o quinto andar e a enfermeira, muito querida, me disse que ia me colocar na salinha. (Isso traduzindo do dinamarquês) Eu pensei que fosse uma salinha de espera, mas na verdade era um quarto e ela mandou eu colocar as roupas do hospital e me deitar na cama. Esse foi o primeiro choque. Se ela tivesse dito quarto, eu já estaria preparada psicologicamente.
Em seguida ela me deu uma pulseira de identificação e uns medicamentos e disse que iriam me levar até o sala de operação em breve.
Quando chega o povo que ia me levar até a operação, eles pegam meu prontuário para checar nome e número de identidade, e eu vejo que não é o meu prontuário que está sobre minha cama, mas a de uma Kristina Mette Jensen. Pelo amor de D.
Eu já estava nervosa com todo esse procedimento, e começa assim, com um erro banal.

Bom. Acharam o prontuário correto e o homem empurrou minha cama até o andar da operação. Me senti como numa corrida do Ayrton Senna… corre; pára; sai da frente; ei você, saia do elevador, não está vendo que está reservado?; bip-bip, fonfom!

A minha última conversa com os médicos antes da cirurgia foi algo deprimente. Eu acho que eles são obrigados a informar tudo o que pode dar errado, e isso deu uma sensação tão ruim. Honestamente isso poderia ser evitado. A única coisa que eu pude responder foi: Vamos torcer para que dê tudo certo?

E daqui pra frente foi tudo muito, mas MUITO diferente do que eu tinha imaginado…

Ressonante…

Tive que interromper o post, pois o médico veio falar comigo sobre meu estado e o que vai acontecer daqui pra frente. A enfermeira veio tirar o catéter e agora fica no meu pé me lembrando que eu tenho que beber bastante água que é para fazer meu primeiro xixi depois da cirurgia.

Bom, mas continuando a saga.
A ressonância tinha sido marcada para início de dezembro e a médica ficou de me telefonar uns dias depois para me explicar o resultado.

Eis que mexendo uns pauzinhos, consegui fazer a ressonância em setembro, mas isso não adiantou de nada, pois a médica só podia falar comigo em dezembro. Paciência. O jeito é aguardar.

Em dezembro veio então a notícia de que eu tinha que operar, porque uma das endometrioses estava prestes a bloquear a passagem de urina dos rins para a bexiga.

Lembro que fiquei muito chocada com a notícia. Não conseguia nem me concentrar no que a médica estava me falando. Ainda para ajudar a mulher era norueguesa e estava falando norueguês comigo (ou com um sotaque norueguês muito forte, e a tia Cris aqui não fala norueguês, só dinamarquês, né!

No dia da consulta eles me deram uma data para a cirurgia, seria na terceira semana de março. Achei que era um longo tempo de espera e era uma data logo antes da páscoa, e eu não queria passar a páscoa doente, me recuperando de cirurgia.
Me disseram que eu poderia avaliar se a data era boa e se não fosse, eu poderia telefonar para o hospital e pedir uma nova data.

Lembro que dia 20 de dezembro eu telefonei e pedi para adiar a cirurgia. O que foi uma decisáo acertada, pois em março, no dia da operação, eu estava com uma gripe fenomenal. Lembro que fiquei de cama por quase 3 semanas.

image

E o tempo passou, e nada de eu receber nova carta com nova data de cirurgia. Liguei para o hospital tanto em janeiro quanto em fevereiro para saber se tinha alguma novidade, mas nada. Passou tanto tempo que eu nem me lembro quando a bendita carta chegou, mas eu lembro da minha reação quando vi que a cirurgia seria dia 25 de abril. Pensei PUTZ GRILLA.

25 de abril era o dia seguinte do festival de forró de Copenhague e eu faço parte da organização e sei a trabalheira e o cansaço que é.
A data não era ideal, mas eu aceitei de qualquer maneira, pois não queria adiar o inevitável ainda mais, especialmente porque as endometrioses continuam crescendo enquanto eu espero pela operação…

Finalmente

Finalmente chegou o dia da minha cirurgia. Foi ontem. Hoje continuo no hospital, mas quero muito ir para casa logo.

Como assim? Operação, hospital, que papo mais louco é esse?
Ué, eu não escrevi há uns meses que eu tinha endometriose em estágio avançado? Antigamente eu achava que as dores que eu tinha eram normais e demorei anos para ir ao médico. Quando finalmente fui investigar o que me afligia, em fevereiro de 2015, a coisa estava num ponto que eu tinha dores por 15 a 20 dias por mês.

Demorou até agosto para descobrir o que eu tinha, pois tive a má sorte de ir a um médico que não viu a endometriose quando fez uma sonografia. Isso foi em março.

Outra coisa que atrasou o meu diagnóstico foi que em maio eu caí e quebrei o braço, e a minha prioridade naqueles meses de recuperação era de poder voltar a usar a mão direita.

Foi só em agosto que voltei no médico e ela mandou eu procurar um outro gineco que não fosse o de março. E foi batata. Ele mal terminou o exame e disse: vou ter que te mandar para um hospital para fazer uma ressonância magnética.
E daqui pra frente tudo correu com rapidez. Uns dias depois o hospital me mandou uma carta digital dizendo que horas seria meu exame.
Lá repetiram a dolorosa sonografia intravaginal. Quando constatou que eu não tinha só uma endometriose, mas duas, eles me encaminharam para o hospital do reino, Rigshospitalet, que é o mais moderno e que tem um departamento especializado nessa doença.

image

Rapidamente eu fui chamada para a consulta no Rigshospitalet, onde eles repetiram (pela quarta vez!!!) a sonografia e disseram que iam me chamar para fazer uma ressonância.

Tudo tinha ido rápido até agora, mas demorou horrores para conseguir uma data para a ressonância…

Achados e perdidos

Achados e perdidos… na verdade, mais perdido do que achado, pelo menos até agora. Quinta passada, estava eu no trem indo para o trabalho e carregando uma mochila com minha roupa de yoga. Acomodei minha “bagagem” na parte superior do vagão para dar lugar para outros passageiros e coloquei uma musiquinha no tocador de mp3.

Por causa de barulho de outros passageiros, eu mudei de lugar no trem por 3 ou 4 vezes. Eu sou assim mesmo, sou meio sensitiva a alguns barulhos, e gente teclando sem parar em computador portátil me deixa louca de raiva – especialmente se eles se sentam na cabine silenciosa (reservada para quem quer um momento de paz – como eu!).

Nessa troca-troca de lugar, nem percebi que esqueci a mochila no primeiro vagão. Só me lembrei disso quando já estava no meu trabalho. E dá-lhe preencher formulários com a companhia de trem, descrevendo meus pertences.

Carsten disse que isso já aconteceu com ele, de esquecer uma mochila no trem, e que demorou 14 dias para acharem/devolverem. Mas isso foi há mais de 15 anos atrás. As coisas andam mudadas.

Eu estou dando a mochila como perdida de vez. Se ela aparecer, legal, se não, paciência. De valor não havia nada dentro, só minha calça preferida de yoga. Valor sentimental!

Burocrático

Conhece aquele ditado que “nada pode estar tão ruim, que não possa piorar?” Pois é, essa é a sensação que eu tenho. Os anos de 1991, 1999, 2006 e 2014 foram os piores anos da minha vida. Ano passado foi tão ruim que eu quero esquecer que ele existiu.

No reveillon de 2015 eu dei Graças à Deus que 2014 tinha acabado e pensei que o novo ano viria cheio de novas energias. De certo modo, ele veio, com ótimas viagens, conhecendo gente nova, grandes oportunidades aparecendo na minha vida, mas em matéria de saúde, nunca estive tão cheia de problemas. É uma apurrinhação atrás da outra. Credo.

Mas não sei o que é pior, estar com dores quase que o tempo todo, ou ter que passar pela burocracia dinamarquesa. Normalmente a DK não é um país burocrático, mas quando se trata de saúde pública, aí a coisa muda de figura.

Se você tem um problema, você não pode ir diretamente ao médico especialista. Por exemplo, mulheres não podem ir direto ao ginecologista. Você deve primeiro passar pelo seu médico generalista e se ele achar que convém, ele vai te encaminhar para o especialista.

Se o especialista achar que você precisa de um tratamento, ou exames, mais sofisticados, ele vai te encaminhar para o hospital. No meu caso, o hospital que tem um departamento especializado em endometriose, é o hospital Rigshospitallet, que fica em Copenhague. Mas porque eu moro numa outra região, o meu especialista não pode me mandar diretamente para Copenhague, ele só pode me mandar para o hospital da minha região. E lá fui eu, para o hospital local, passar por mais exames dolorosos, para no final das contas eles me mandarem para o Rigshospitallet.

Não era mais fácil me mandar para Copenhague desde o início? Seria menos gastos, menor perda de tempo, e para mim, menos dores e teria incurtado esse período de incerteza, pois eu não sei o que se passa nem se haverá uma possibilidade de tratar o que tenho. Só sei que dói – e no momento dói tanto que não posso nem tomar um analgésico, porque daí começa a doer o estômago. Acho que minha úlcera voltou.

Por acaso eu comentei que 2015 está sendo um ano “doentio”?

Bom, minha consulta com o Rigshospitallet será na semana que vem. Estou uma pilha de nervos e ao mesmo tempo, irritada. Irritada por ser forçada a repetir (talvez desnecessariamente) os exames dolorosos por 4 vezes e não chegar a lugar nenhum. Se me oferecerem uma cirurgia, estou pensando seriamente me pedir para fazer uma histerectomia, para não correr o risco da endometriose voltar. Veremos.

Futuro incerto

Há mais ou menos 8 meses eu resolvi trocar de emprego. Depois de trabalhar por mais de 11 anos para a mesma sociedade (duas empresas diferentes, mas pertencentes ao mesmo grupo), eu pensei que seria interessante trabalhar para uma firma completamente diferente, com uma cultura diferente.

Estou na nova companhia faz 6 meses e não me arrependi. Estou gostando muito da empresa. O pessoal aqui é muito bacana, a empresa tem uma cultura bem mais humana e os colegas são fantásticos.

No entanto acho que esses 6 meses foi o período de calmaria antes da chegada da tempestade.

Naquele fatídico dia que eu caí e quebrei o cotovelo, foi anunciado que a nossa firma teria um novo diretor (que, diga-se de passagem, veio da mesma empresa onde eu trabalhava antes).

Como de costume, os novos chefes passam os primeiros 3 meses avaliando o que pode ser feito de melhorias e então anunciam um programa de reorganização. E foi exatamente isso que foi anunciado hoje.

Nosso novo chefinho vai reorganizar a empresa e nesse contexto foi decidido que mais ou menos mil funcionários serão demitidos. Isso é em torno de 20% dos funcionários.

Digo que hoje ninguém trabalha aqui. Os humores estão baixos. Aparentemente essa não é a primeira vez que há cortes nesse departamento, e a última rodada deixou cicatrizes e traumas.

Essa é a primeira vez que estou numa empresa que anuncia cortes e onde estou numa situação incerta. Nem mesmo durante a crise de 2008 eu não passei por uma situação semelhante. Lembro que a firma para qual eu trabalhava anunciou que, para evitar demissões, nós tínhamos que cortar despesas. Nós, funcionários, fomos tão efetivos economizando dinheiro, que ninguém foi mandado embora e a empresa se recuperou.

Em compensação, numa outra empresa, eu vi um departamento inteirinho sendo demitido de uma hora para outra – 16 pessoas mais o chefe. Lembro que o povo chegou em torno das 8 da manhã, foram chamados para uma reunião às 9 e às 11 da manhã estavam todos na rua. Não deixaram eles nem se despedir dos colegas, só deram 15 minutos para eles coletarem seus pertences pessoais e ir embora. Lembro que foi um choque para todo mundo, a maneira como o povo foi demitido e como foram tratados. Naquele dia ninguém tinha cabeça para trabalhar.

Nessa empresa que estou agora, o povo é mais solidário. Já foi dito que não será dessa maneira. Que dentro de 10 dias vão informar quem será cortado e haverá uma chance de chamar um representante do sindicato para estar presente na reunião final.

Como eu tenho contrato temporário, não sei se eu entro nos cortes. Talvez seja mais fácil não renovar meu contrato. Mas na minha cabecinha, faz mais sentido mandar embora os novatos, como eu, e manter empregados com mais experiência. Bom, veremos o que vai acontecer.

Vou deixar meus pertences mais ou menos ajeitados, de forma que seja fácil só pegar a bolsa para ir embora, caso eu seja uma das “fatalidades”.

Só fico pensando que é uma pena que essa notícia tenha sido dada somente duas semanas antes da festa de 100 anos de aniversário da empresa. Espero que essas demissões não afetem o clima da festa. Já pensou, uma festa de 100 anos com clima deprê?

Passeio no parque

Ontem eu resolvi fazer um passeio diferente. Lá pelas 11:30 da manhã, mandaram chamar o meu motorista particular, também conhecido como ambulância. Ele chegou 45 minutos mais tarde, porque veio sem sirene.

Do carro desceu um homem alto, loiro, esbelto, com olhos azuis gigantes, um verdadeiro Miguel Fallabella. Esse par de olhos azuis, olhando pra mim bem de pertinho e dizendo: “qual sua data de nascimento?” foi a coisa mais comovente.

Pela primeira vez enfiaram na veia da minha mão um daqueles sistemas intravenosos, que se usa quando vai dar soro.
Primeiro ele lavou o sistema com solução salina, e ele aplicou aquilo tão rápido, que tive uma sensação muito estranha. Eu senti o braço inteiro ficar gelado por dentro.

Depois ele me deu uma dose de morfina (primeira vez que eu tomo uma bomba dessas) e ele disse que eu talvez ficasse um pouco tonta. Tonta eu fiquei, mas bem mais tarde. A primeira reação, alguns segundos após a injeção, foi que eu tinha dificuldade de respirar e entrei em pânico.

Bom, encurtando a história. Eles me levaram para o hospital mais próximo onde eu esperei atendimento por mais de 3 horas.

Tiraram vários raio X, do joelho, do braço, me enfaixaram toda, mas não quebrei nada. Ainda bem.

O que aconteceu comigo? Eu tropecei e caí. Eu nem sabia que um tombo no asfalto podia causar tanto estrago. Estou toda estourada, cheia de hematomas, mancando e com o braço direito imobilizado.

Coitado do Carsten, chegou no hospital todo preocupado, e teve que me ajudar a noite inteira. Precisei de ajuda até pra ir ao banheiro. Muito humilhante.

Hoje estou em casa de licença médica e espero me recuperar nesse final de semana, porque tenho uma viagem marcada na segunda – e eu vou de qualquer jeito, nem que seja toda engessada.

Esse tombo levou todos os meus planos por água abaixo, já que não posso movimentar meu braço.
Eu ia lavar roupa, ia consertar uma jaqueta que eu queria trazer na viagem, ia fazer a minha mala… O jeito agora é esperar e ver se eu melhoro até domingo, ou então pedir pro meu babysitter, Carsten, para fazer a mala pra mim. Ô vida.

***

A mensagem acima eu postei faz umas horas. E eu estava tão contente. Mas cinco minutos atrás me telefonaram do hospital, dizendo que um outro médico olhou as minhas chapas e que eu fraturei o antebraço na altura do cotovelo. Disse também que eu tive sorte, e que não vai ser preciso operar nem ingessar, mas que eu tenho que manter o braço imóvel e que as dores podem durar por até 3 meses.

Hmm, pelo visto terei que preparar táticas de como tomar banho sozinha e de como carregar minha bagagem durante a viagem!

 

Decepção

Passei os últimos 11 anos pagando por um seguro saúde privado. Não é exatamente como no Brasil, as Unimeds da vida, mas uma opção para quem não quer esperar tanto por um tratamento pelo sistema público de saúde dinamarquês.

São poucas as clínicas particulares no país e por isso são só alguns tratamentos que cirurgias que estão cobertas pelo seguro. Mas eu sempre pensei que era melhor ter essa opção, caso um dia fosse preciso.

E esse dia chegou, infelizmente, e para minha surpresa e frustração, exatamente o tipo de tratamento que eu preciso, não é coberto pelo seguro.

Acho engraçado, eles cobrem até cirurgia do dedão do pé, mas não cobrem algo sério e potencialmente grave como endometriose ectópica.

O fato é que eles cobrem até três visitas a um especialista e os testes, mas só. Se eu precisar de tratamento ou cirurgia, então terei que procurar outro profissional de saúde pelo sistema público.

Até agora não acredito nisso… a gente paga um negócio e acha que estaremos protegidos, mas na hora H, a história é outra.

Tive então que procurar um especialista do sistema. Por sorte ele poderá me ver já na terça-feira e aí saberei em mais detalhe o que acontece comigo.

Estou com medo de descobrir que talvez a coisa não seja boa. Estou com medo de que a solução para meu problema seja entrar na faca, ou então de saber que a coisa se alastrou tanto que não tem o que fazer. Muitas coisas passam pela minha cabeça.

O único lado positivo é que fui receitada um cocktail analgésico bem potente para me ajudar a aguentar a dor.

ô vida.

Recusa

Eu contei recentemente que saí da empresa onde trabalhava para tentar uma vida nova numa outra companhia.

Na antiga firma eu trabalhei em dois departamentos diferentes. No primeiro eu adorava o trabalho em si, porém passei por poucas e boas. Situações que eu não desejo nem para o meu pior inimigo. A minha salvação foi que bem no auge dos conflitos, quando a coisa realmente estava pegando fogo, me ofereceram um job swop.

Job swop é quando dois empregados (de departamentos diferentes) trocam temporariamente de emprego. Essa tática permite aos funcionários aprenderem algo novo, expandir a rede de contatos e depois voltar para o seu departamento antigo.

Então comecei no departamento novo, trabalhando com um pessoal bacana, mas o fato de saber que dentro de 12 meses eu teria que voltar para o dept. antigo, fez com que eu me mexesse para achar um emprego novo. E vocês sabem como essa história terminou.

O que vocês não sabem, é que antes d’eu sair, aconteceram umas coisas interessantes.

– A minha gerente (do lugar do job swop) me ofereceu uma posição. Ela só não tinha confirmado ainda, se seria uma posição temporária ou uma posição evetiva no time. Eu respondi que se ela me oferecesse o contrato, que eu aceitaria.

– Enquanto isso, um terceiro departamento, para o qual eu tinha prestado alguns serviços, me contactaram dizendo que eles tinham uma vaga de Senior e que eu deveria dar uma olhada e mandar meu CV. Eu já tinha visto o anúncio, mas não tinha me interessado pois achava eu que não teria nenhuma chance.
Eles queriam uma pessoa com 5 anos de experiência. Eu só tinha 4 anos de experiência, mas somente 7 meses de experiência nas atividades pelas quais eu seria responsável. No entanto, se eles me chamassem, provavelmente eu aceitaria a vaga, pois era uma boa oportunidade. A questão seria, quem me chamaria primeiro. Pois se eu recebesse as duas ofertas ao mesmo tempo, confesso que ficaria na dúvida de qual escolher.

Mas quase um mês se passou e eu não recebi resposta do terceiro departamento. E como normalmente o processo de seleção é híper rápido, acabei pensando que eles não tivessem achado meu currículo interessante o suficiente.

E foi nesse entremeio que eu achei o meu emprego atual (que começará em março), e onde o processo de seleção foi tão rápido, que eu já estava empregada com contrato assinado na mão dentro de 18 dias após ter enviado o meu currículo.

Meu último dia na empresa antiga foi na sexta passada, dia 13, e ontem, segunda dia 16, para minha surpresa, recebi um email me convidando para uma entrevista de emprego naquele departamento da vaga Senior.
Fiquei boquiaberta, pois eles sabem que eu aceitei outra vaga e saí da empresa. E eu jamais trocaria o que tenho agora, pois o meu emprego atual é bem melhor que uma vaga Senior. Mas também porque eu estou curiosa para saber como é trabalhar numa empresa diferente, com uma cultura diferente. Desde que eu cheguei na DK eu trabalho para a mesma sociedade.

Eu nunca pensei que isso aconteceria na minha vida, que um dia eu recusaria um convite para uma entrevista de emprego. E um emprego que eu tinha muita chance de conseguir, pois o povo todo de lá me conhece e já trabalharam comigo.

Tudo isso abriu minha mente. Antigamente eu pensava que, por ser estrangeira, com estudos feitos fora da União Européia, eu teria dificuldade de encontrar emprego – pois isso acontece com muitos. Mas o fato de eu sair da empresa e deixar para trás 3 propostas de emprego praticamente (voltar para dept. antigo, ficar no departamento novo, trocar para o terceiro departamento na vaga Senior) aumentou a minha auto-estima. Acho que o que eu preciso é acreditar mais em mim e não deixar me influenciar pessoalmente pelas intrigas de colegas mesquinhos.

Esse é o meu problema – eu recebo as pessoas de braços abertos e não meço esforços para ajudar um amigo. No entanto fico furiosa quando percebo que alguns abusam da minha boa vontade e da minha confiança, e o sangue latino ferve rápido. Porém, baseado nas minhas experiências aqui, o sangue latino perde de feio quando confrontando o sangue frio nórdico.

Dei o cano

Pros lados de cá também chegaram aqueles websites onde se pode comprar um monte de coisas em promoção, e muitas vezes pela metade do preço. Não só mercadorias, mas também serviços.

Eu acabei comprando um massagem com pedras quentes pela metade do preço. Eu estava ansiosa para que o dia da massagem chegasse, pois eu estou mesmo precisando de uma sessão de relaxamento para descarregar o stress.

Finalmente, a massagem era hoje. Fui até o local e quando cheguei lá, achei tudo muito estranho. O local era num porão de um prédio de Copenhague. Eu era a única cliente no local e não tinha recepcionista. E o massagista era um cara, com uma cara muito estranha.

Tive um pressentimento ruim, mas ruim mesmo. Pedi para usar o banheiro antes de começar a massagem, e enquanto estava lá, decidi que eu não estava nem me sentindo à vontade, e nem segura o suficiente para ficar semi-pelada para fazer uma massagem com um cara que eu nunca tinha visto antes na vida, e nun lugar onde não tinha nem uma alma viva.

A massagem já estava mesmo para, então dei para ele o meu voucher e disse que não estava me sentindo segura. Ele disse, tudo bem. E eu fui embora, sem fazer a massagem.

Talvez eu seja neurótica, mas o fato é que eu não iria conseguir relaxar ali e a melhor coisa que fiz foi ter ido embora.

Agora continuo toda dolorida, mas fazer o quê? Pelo menos estou sã e salva. E daqui pra frente vou checar duas vezes se a massagem é feita por um homem ou por uma mulher. Porque se hoje a massagista fosse mulher, eu não teria ficado cabreira.

Natimorto

Eu não me lembro seu eu comentei, mas para fugir do estresse elevado do meu trabalho, eu aceitei cobrir uma licença à maternidade e estou com um contrato de um ano (que é o tempo máximo de licença à maternidade aqui na DK).

Eu cheguei a conhecer a colega que saiu de licença faz duas semanas, pois calhou dela ter tempo para me dar um certo treinamento.

Eis que hoje nós recebemos a triste notícia de que a nossa colega já deu à luz, mas à uma menina morta.

Mesmo eu não conhecendo a colega muito bem, fiquei muito triste por ela. Eu imagino que deve ser a pior coisa, depois de passar por 8 meses de gravidez, perder a criança justamente na reta final.

Os médicos disseram que foi uma hemorragia feto-materna que tirou a vida da menina. É uma hemorragia pré-parto, onde o sangue do feto passa pela placenta e vai parar na circulação da mãe. É algo que acontece raramente, mas ninguém está livre disso. Se descobrir a tempo, dá para tentar fazer uma transfusão sangüínea intrauterina.

O fato foi, que no caso da minha colega, não descobriram o problema a tempo. Ouvi dizer que a colega comentou que não sentia mais movimento dentro da barriga e foi ao hospital para checar se estava tudo bem.

Em breve farão uma autópsia no bebê para confirmar o verdadeiro motivo da morte.

O nome técnico para bebês que nascem mortos, porque ou morreram durante o parto ou ainda dentro do útero, é natimorto.

Eu ainda estou em estado de choque. Fiquei com muita pena da colega, pois eu acompanhei as histórias: de como ela tinha dificuldade para dormir por causa do barrigão, de que ela tinha dores. Eu também a vi muito inchada nesse verão, pois fez muito calor. E e lembro de como ela reclamou (com tom humorístico) de que estava andando feito uma pata – com as pernas abertas.

É, coitada.

E eu fiquei preocupada em perder a minha posição de substituta, mas a chefe do departamento disse que eu não preciso ficar especulando sobre isso, que o cargo é meu. E para reafirmar isso, uma outra colega disse que na Dinamarca, não importa se o bebê nasce vivo ou morto, a mulher mantém o direito de licença à maternidade.

Ainda bem, pois eu imagino que num caso assim, nossa colega precisará de ajuda psicológica para superar o trauma. E a recuperação normalmente leva tempo, não?

Não sabemos ainda quando será o enterro.

Sinceramente eu pensei que fetos fossem simplesmente descartados, mas acho que o bebê era grande o suficiente para justificar um enterro. Também imagino que o enterro será uma maneira do casal dizer adeus e iniciar o processo de luto.

Coisas da vida.

Insalubridade

Eu não sei se é carma, ou o que é que é. Mas parece que toda vez que é véspera de feriado ou de férias, eu me machuco no trabalho e fica híper difícil de encontrar um chefe de departamento para assinar a notificação de acidente de trabalho. 

Hoje eu me esfolei pela terceira ou quarta vez – são tantas vezes, que já nem me lembro mais. Mas é período de férias de verão e o povo todo está tomando margaritas nas prais do sul da Europa. E eu aqui, me matando de trabalhar, literalmente.

Engraçado. Quando eu trabalhava em laboratório, trabalhando com produtos tóxicos, sangue contaminado, agulhas, ácidos e bases fortes, eu nunca me machuquei. Foram 10 anos trabalhando em laboratório.

Agora, nos últimos três anos e meio, que eu trabalho em escritório, sentada atrás de uma mesa e um computador, já me machuquei várias vezes e fui até parar no pronto-socorro. Pode isso?

Moço

No nosso primeiro dia de viagem na Alemanha, resolvemos ir a uma churrascaria brasileira na cidade de Bremen. Para nossa surpresa a maioria dos garçons e garçonetes eram portugueses ao invés de brasileiros.

O rapaz que atendeu a nossa mesa também era um portuga.

Para que você possa entender o que se passou, direi que eu normalmente digo assim para um atendente: “moço, será que você não poderia me trazer…”

Quando eu disse a palavra ‘moço’, esse portuga ficou uma fera e eu não estava entendendo. Então ele me explicou, que chamar um homem de moço em Portugal, é o mesmo que chamar uma moça de rapariga no Brasil. E foi aí que eu não entendi mais nada.

No sul do Brasil, pelo menos em Santa Catarina, é muito comum chamar uma garota, mulher jóvem, de rapariga. Isso não é ofença alguma. E eu disse isso ao portuga. Ele me contou, que certa vez disse para uma moça brasileira o seguinte: “só um momentinho, rapariga.”. Ele disse que a brazuca fez um escândalo, que disse que rapariga só se fosse na terra dele.
E foi assim que aprendi que em outras partes do Brasil o adjetivo ‘rapariga’ é uma ofença. Chequei dois dicionários, e nenhum deles mencionou que regionalmente a palavra rapariga pode ser um insulto. Talvez meus dicionários estão velhinhos demais.

Bom, o fato é que até agora não descobri o que a palavra ‘moço’ quer dizer em Portugal. Já rodei essa internet inteira e não encontrei nada. Os meus dicionários não mencionam nenhum significado pejorativo dessa palavra. Eu fico imaginando que talvez a palavra queira dizer puto ou prostituto. (Se bem que a palavra ‘puto’ em Portugal quer dizer menino pequeno. Vai entender!)

Continuo sem resposta para o significado luso de moço. Dessa história toda, só sei que não se deve chamar os portugas de moço, e, por via das dúvidas, é melhor nunca chamar uma brasileira de rapariga.

Gente, como o povo gosta de complicar as coisas. Duas palavrinhas tão inocentes… moço e rapariga.

Desencontros

Credo Cris, quando é que você vai parar de falar dessa viagem pra França, hein?

Gente, mas vocês já cançaram de ler? Não cheguei nem na metade da viagem ainda! Se vocês estão cansados, imaginem eu. Levei o maior cano da minha vida durante essa viagem.

Era para eu encontrar uma amiga brasileira, que tinha me dito, que queria que eu passasse pelo menos uns 4 dias com ela na França.

Programei então tudo certinho para que 4 dias da minha viagem coincidissem com os lugares onde ela ficaria. Fiz até reserva no mesmo hotel onde ela disse que ficaria hospedada.

Eis que poucos dias antes da minha viagem ela modifica o roteiro dela, e de repente ela não passaria mais por algumas das cidades onde tínhamos combinado de nos encontrar. Mas eu já tinha feito minhas reservas e pago os hotéis, e nada disso era reembolsável em caso de cancelamento.

Juro que pensei em desistir da viagem ou voltar para casa mais cedo e simplesmente perder o dinheiro das reservas, mas depois eu me lembrei que eu tenho amigos e correspondentes tanto na França como na Suíça, e eu poderia usar essa viagem como uma oportunidade para visitar vários amigos. Foi o que eu fiz. Marquei vários encontros para matar a saudade do povo e não ficar completamente sozinha numa viagem de 8 dias.

Mas a nova programação da minha amiga manteria a cidade de Blois e a de Annecy no roteiro e ficamos de nos encontrar nos hotéis – pois fizemos reserva nos mesmos hotéis, lembra?

Pois é. Agora olha o que aconteceu:

Blois

Eu cheguei em Blois no dia 29 de noite, pois no dia 30 de manhã eu tinha encontro com W&O, que tinham me convidado para almoçar na casa deles e fazer um passeio pelos castelos.

Minha amiga chegaria em Blois no dia 30, então ficamos de nos encontrar nesse dia de noite para jantar e passar o dia seguinte juntas.

Eis que uns minutos depois que eu me acomodei no quarto toca o telefone e a portaria me diz que a minha amiga estava me esperando na recepção.

Eu levei até um susto. Ela chegou um dia antes do combinado! E eu já tinha arrancado meus sapatos (foi o dia que eu tive que comprar um tênis urgentemente, lembra?). Rapidamente juntei os presentes que tinha comprado para ela, coloquei meu sapato novamente e desci na recepção.

Conversamos por mais ou menos 1 hora. Ela estava acompanhada da família. Me convidaram para sair para jantar com eles, mas eu estava realmente morta e sofrendo com uma reação alérgica à pólen, que fez meu olho coçar muito, e tive que recusar o convite. Combinamos então de tomar café da manhã juntas no dia seguinte 9 horas.

Eles só desceram 9:30 da manhã e eu lá sozinha esperando. Perguntaram se eu iria sair com eles, mas eu já tinha planos com W&O. Ficamos então de nos encontrar de noite, que era afinal o plano original.

Porém quando eu cheguei do passeio dos castelos, eu estava um bagaço e resolvi me deitar um pouco para descansar. Isso eram 6 da tarde. Não é que eu só acordo 9 e pouco da noite!? Desci na portaria para perguntar se tinha algum recado para mim e nada. Achei estranho. O rapaz no entanto disse que o marido da minha amiga tinha acabado de passar na portaria para esquentar o leite da neném deles. Mas como já era tarde, eu acabei não telefonando para o quarto deles. Vai que a menina já estava dormindo.

Mas eu pensei, não tem problema, nós vamos nos ver no dia seguinte. E foi o que aconteceu. Nos encontramos durante o café da manhã. O plano era que iríamos passar o dia juntos em Blois ou ali por perto, no entanto eles me disseram que queriam seguir viagem já de manhã cedo, porque a distância de Blois até Annecy era de mais de 600 km e eles estavam com medo que demoraria muito.

E foi assim que eu recebi a notícia de que passaria dia 31 completamente sozinha.

Se você leu meu post sobre Blois, vai ver que eu passei um dia bom e prossegui viagem para Angers.

Minha amiga eu encontraria novamente no dia 2 de abril em Annecy, de tardezinha.

 

Plano original

A verdade é que meu plano original era de pegar uma carona com meus amigos de Blois até Annecy, pois eles tinham dito que alugariam dois carros. Todavia esse plano também foi mudado de última hora. Quando eu soube que eles seriam 4 adultos e uma criança num carro só, eu me apressei em achar uma passagem de trem até Annecy. Como vi que a melhor conexão seria de Angers, foi aí que eu decidi visitar minha correspondente de lá, e depois continuar viagem de Angers até Annecy passando por Lyon para esticar as pernas. Afinal, são 700 km de viagem.

Se você acha que o que aconteceu em Blois foi um grande desencontro, deixa eu te contar o que se passou em Annecy…

 

Annecy

Cheguei na cidade no horário certo, 6 da tarde. Peço para o recepcionista do hotel procurar o nome da minha amiga na lista de hóspedes e nada. Coitado usou cinco minutos e nada. Juro que eu não sabia o que fazer. Ela tinha me dito que ficaria no hotel dos Alpes, e eu estava lá.

Fui para o quarto e escrevi um email para ela, dizendo que achei estranho seu nome não estar na lista, e disse que esperaria por ela mais um pouco e depois sairia para jantar.

Esperei até quase 8 da noite e nada. Fui fazer uma caminhada e jantar.

Nesse momento meus sentimentos eram uma mistura de desilusão, tristeza, ira, solidão, decepção.

Quando voltei para o hotel naquela noite meu humor não tinha melhorado em nada. Resolvi ir dormir, pois amanhã seria um novo dia.

Já estava deitada quando o telefone do quarto tocou 10:30 da noite. O recepcionista disse que tinha uma madame que queria falar comigo.

Advinha? Era minha amiga, pedindo mil desculpas, que tinha feito reserva no hotel errado e que estava num outro hotel 2 quadras dali. Disse que no dia anterior ela tinha chegado no hotel dos Alpes e feito o maior escândalo, pois ela tinha certeza de que tinha feito reserva lá. Disse que de tarde ela passou na frente do hotel mas não teve coragem de entrar, porque estava com muita vergonha do escândalo do dia anterior. Quando ela finalmente teve coragem e voltou no hotel, já eram 8 da noite e eu tinha acabado de sair. Foi um desencontro.

Então ela me disse que eles iam pegar estrada já de manhã cedo, mas que ela passaria no meu hotel na hora do café da manhã para se despedir de mim.

E assim foi, o dia em Blois que era para termos passado juntas foi para o brejo, e o mesmo aconteceu em Annecy.

O resto da viagem era para termos ido para Genebra juntas, mas ela decidiu ir para Lucerna. Como eu já tinha feito reserva de hotel em Genebra e meu avião também sairia de lá, tive que manter meu plano original.

E foi assim, que os 4 dias que minha amiga e eu iríamos passar juntas se transformaram na realidade numas 4 horas.

Ainda bem que eu marquei encontros com vários amigos e na realidade fiquei sozinha mesmo por somente 3 dias. Mesmo assim me senti muito solitária nessa viagem e tive contante vontade de largar tudo e voltar para casa.

E o dinheiro que eu gastei? Gente, melhor nem pensar nisso, que eu começo a chorar!

Vandalismo

Puxa vida, alguém arregaçou a nossa cerca.
Não sei se alguém caiu ali, se deram chute, se foi algum caminhão que esbarrou na cerca. Só sei que está toda quebrada. Muito chato isso!

20140224_154813