Primeiro dia

Durante o fim de semana que antecedeu a minha operação, eu estava organizando o primeiro festival de forró de Copenhague, que foi um sucesso, mas muito cansativo. Lembro que eu brinquei com uma das nossas voluntárias dizendo que iria direto do forró para o hospital.
Vontade de fazer isso não faltou, mas não deu. Eu estava cansada demais e realmente tinha que descansar pelo menos um dia antes da operação, por isso no domingo dia 24 eu nem apareci no festival. Pena, porque eu queria ter visto os locais e a palestra sobre as origens do forró – que foi algo inédito que nenhum outro festival fez.

2016-04-30 11_21_12-Primeiro dia _ Cris.dk

No domingo de tardezinha, como especificado na carta que eu recebi, eu liguei para o hospital para saber que horas seria minha operação. Tomei um baita susto quando me disseram que eu deveria estar lá 6:30 da manhã. Isso para mim queria dizer que eu tinha que me levantar 4 da manhã, para esvaziar o intestino, raspar meus pelos corporais e tomar banho como eles me instruíram, e ainda pegar 50 minutos de estrada até o centro de Copenhague.

Do lado de fora do hospital eu me despedi do Carsten. Não tinha porque ele ficar esperando, já que ninguém sabia dizer quantas horas de cirurgia seriam. Cheguei no ambulatório com 10 minutos de atraso e não tinha ninguém lá. Nesse horário a enfermeira já estava me telefonando, para verificar se eu havia esquecido o dia da cirurgia. Esquecido eu não tinha, mas eu estava tão atordoada, que não li direito em que ala do hospital eu deveria me apresentar e eu estava no lugar errado.

Subi até o quinto andar e a enfermeira, muito querida, me disse que ia me colocar na salinha. (Isso traduzindo do dinamarquês) Eu pensei que fosse uma salinha de espera, mas na verdade era um quarto e ela mandou eu colocar as roupas do hospital e me deitar na cama. Esse foi o primeiro choque. Se ela tivesse dito quarto, eu já estaria preparada psicologicamente.
Em seguida ela me deu uma pulseira de identificação e uns medicamentos e disse que iriam me levar até o sala de operação em breve.
Quando chega o povo que ia me levar até a operação, eles pegam meu prontuário para checar nome e número de identidade, e eu vejo que não é o meu prontuário que está sobre minha cama, mas a de uma Kristina Mette Jensen. Pelo amor de D.
Eu já estava nervosa com todo esse procedimento, e começa assim, com um erro banal.

Bom. Acharam o prontuário correto e o homem empurrou minha cama até o andar da operação. Me senti como numa corrida do Ayrton Senna… corre; pára; sai da frente; ei você, saia do elevador, não está vendo que está reservado?; bip-bip, fonfom!

A minha última conversa com os médicos antes da cirurgia foi algo deprimente. Eu acho que eles são obrigados a informar tudo o que pode dar errado, e isso deu uma sensação tão ruim. Honestamente isso poderia ser evitado. A única coisa que eu pude responder foi: Vamos torcer para que dê tudo certo?

E daqui pra frente foi tudo muito, mas MUITO diferente do que eu tinha imaginado…

Ressonante…

Tive que interromper o post, pois o médico veio falar comigo sobre meu estado e o que vai acontecer daqui pra frente. A enfermeira veio tirar o catéter e agora fica no meu pé me lembrando que eu tenho que beber bastante água que é para fazer meu primeiro xixi depois da cirurgia.

Bom, mas continuando a saga.
A ressonância tinha sido marcada para início de dezembro e a médica ficou de me telefonar uns dias depois para me explicar o resultado.

Eis que mexendo uns pauzinhos, consegui fazer a ressonância em setembro, mas isso não adiantou de nada, pois a médica só podia falar comigo em dezembro. Paciência. O jeito é aguardar.

Em dezembro veio então a notícia de que eu tinha que operar, porque uma das endometrioses estava prestes a bloquear a passagem de urina dos rins para a bexiga.

Lembro que fiquei muito chocada com a notícia. Não conseguia nem me concentrar no que a médica estava me falando. Ainda para ajudar a mulher era norueguesa e estava falando norueguês comigo (ou com um sotaque norueguês muito forte, e a tia Cris aqui não fala norueguês, só dinamarquês, né!

No dia da consulta eles me deram uma data para a cirurgia, seria na terceira semana de março. Achei que era um longo tempo de espera e era uma data logo antes da páscoa, e eu não queria passar a páscoa doente, me recuperando de cirurgia.
Me disseram que eu poderia avaliar se a data era boa e se não fosse, eu poderia telefonar para o hospital e pedir uma nova data.

Lembro que dia 20 de dezembro eu telefonei e pedi para adiar a cirurgia. O que foi uma decisáo acertada, pois em março, no dia da operação, eu estava com uma gripe fenomenal. Lembro que fiquei de cama por quase 3 semanas.

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E o tempo passou, e nada de eu receber nova carta com nova data de cirurgia. Liguei para o hospital tanto em janeiro quanto em fevereiro para saber se tinha alguma novidade, mas nada. Passou tanto tempo que eu nem me lembro quando a bendita carta chegou, mas eu lembro da minha reação quando vi que a cirurgia seria dia 25 de abril. Pensei PUTZ GRILLA.

25 de abril era o dia seguinte do festival de forró de Copenhague e eu faço parte da organização e sei a trabalheira e o cansaço que é.
A data não era ideal, mas eu aceitei de qualquer maneira, pois não queria adiar o inevitável ainda mais, especialmente porque as endometrioses continuam crescendo enquanto eu espero pela operação…

Finalmente

Finalmente chegou o dia da minha cirurgia. Foi ontem. Hoje continuo no hospital, mas quero muito ir para casa logo.

Como assim? Operação, hospital, que papo mais louco é esse?
Ué, eu não escrevi há uns meses que eu tinha endometriose em estágio avançado? Antigamente eu achava que as dores que eu tinha eram normais e demorei anos para ir ao médico. Quando finalmente fui investigar o que me afligia, em fevereiro de 2015, a coisa estava num ponto que eu tinha dores por 15 a 20 dias por mês.

Demorou até agosto para descobrir o que eu tinha, pois tive a má sorte de ir a um médico que não viu a endometriose quando fez uma sonografia. Isso foi em março.

Outra coisa que atrasou o meu diagnóstico foi que em maio eu caí e quebrei o braço, e a minha prioridade naqueles meses de recuperação era de poder voltar a usar a mão direita.

Foi só em agosto que voltei no médico e ela mandou eu procurar um outro gineco que não fosse o de março. E foi batata. Ele mal terminou o exame e disse: vou ter que te mandar para um hospital para fazer uma ressonância magnética.
E daqui pra frente tudo correu com rapidez. Uns dias depois o hospital me mandou uma carta digital dizendo que horas seria meu exame.
Lá repetiram a dolorosa sonografia intravaginal. Quando constatou que eu não tinha só uma endometriose, mas duas, eles me encaminharam para o hospital do reino, Rigshospitalet, que é o mais moderno e que tem um departamento especializado nessa doença.

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Rapidamente eu fui chamada para a consulta no Rigshospitalet, onde eles repetiram (pela quarta vez!!!) a sonografia e disseram que iam me chamar para fazer uma ressonância.

Tudo tinha ido rápido até agora, mas demorou horrores para conseguir uma data para a ressonância…

Futuro incerto

Há mais ou menos 8 meses eu resolvi trocar de emprego. Depois de trabalhar por mais de 11 anos para a mesma sociedade (duas empresas diferentes, mas pertencentes ao mesmo grupo), eu pensei que seria interessante trabalhar para uma firma completamente diferente, com uma cultura diferente.

Estou na nova companhia faz 6 meses e não me arrependi. Estou gostando muito da empresa. O pessoal aqui é muito bacana, a empresa tem uma cultura bem mais humana e os colegas são fantásticos.

No entanto acho que esses 6 meses foi o período de calmaria antes da chegada da tempestade.

Naquele fatídico dia que eu caí e quebrei o cotovelo, foi anunciado que a nossa firma teria um novo diretor (que, diga-se de passagem, veio da mesma empresa onde eu trabalhava antes).

Como de costume, os novos chefes passam os primeiros 3 meses avaliando o que pode ser feito de melhorias e então anunciam um programa de reorganização. E foi exatamente isso que foi anunciado hoje.

Nosso novo chefinho vai reorganizar a empresa e nesse contexto foi decidido que mais ou menos mil funcionários serão demitidos. Isso é em torno de 20% dos funcionários.

Digo que hoje ninguém trabalha aqui. Os humores estão baixos. Aparentemente essa não é a primeira vez que há cortes nesse departamento, e a última rodada deixou cicatrizes e traumas.

Essa é a primeira vez que estou numa empresa que anuncia cortes e onde estou numa situação incerta. Nem mesmo durante a crise de 2008 eu não passei por uma situação semelhante. Lembro que a firma para qual eu trabalhava anunciou que, para evitar demissões, nós tínhamos que cortar despesas. Nós, funcionários, fomos tão efetivos economizando dinheiro, que ninguém foi mandado embora e a empresa se recuperou.

Em compensação, numa outra empresa, eu vi um departamento inteirinho sendo demitido de uma hora para outra – 16 pessoas mais o chefe. Lembro que o povo chegou em torno das 8 da manhã, foram chamados para uma reunião às 9 e às 11 da manhã estavam todos na rua. Não deixaram eles nem se despedir dos colegas, só deram 15 minutos para eles coletarem seus pertences pessoais e ir embora. Lembro que foi um choque para todo mundo, a maneira como o povo foi demitido e como foram tratados. Naquele dia ninguém tinha cabeça para trabalhar.

Nessa empresa que estou agora, o povo é mais solidário. Já foi dito que não será dessa maneira. Que dentro de 10 dias vão informar quem será cortado e haverá uma chance de chamar um representante do sindicato para estar presente na reunião final.

Como eu tenho contrato temporário, não sei se eu entro nos cortes. Talvez seja mais fácil não renovar meu contrato. Mas na minha cabecinha, faz mais sentido mandar embora os novatos, como eu, e manter empregados com mais experiência. Bom, veremos o que vai acontecer.

Vou deixar meus pertences mais ou menos ajeitados, de forma que seja fácil só pegar a bolsa para ir embora, caso eu seja uma das “fatalidades”.

Só fico pensando que é uma pena que essa notícia tenha sido dada somente duas semanas antes da festa de 100 anos de aniversário da empresa. Espero que essas demissões não afetem o clima da festa. Já pensou, uma festa de 100 anos com clima deprê?

Passeio no parque

Ontem eu resolvi fazer um passeio diferente. Lá pelas 11:30 da manhã, mandaram chamar o meu motorista particular, também conhecido como ambulância. Ele chegou 45 minutos mais tarde, porque veio sem sirene.

Do carro desceu um homem alto, loiro, esbelto, com olhos azuis gigantes, um verdadeiro Miguel Fallabella. Esse par de olhos azuis, olhando pra mim bem de pertinho e dizendo: “qual sua data de nascimento?” foi a coisa mais comovente.

Pela primeira vez enfiaram na veia da minha mão um daqueles sistemas intravenosos, que se usa quando vai dar soro.
Primeiro ele lavou o sistema com solução salina, e ele aplicou aquilo tão rápido, que tive uma sensação muito estranha. Eu senti o braço inteiro ficar gelado por dentro.

Depois ele me deu uma dose de morfina (primeira vez que eu tomo uma bomba dessas) e ele disse que eu talvez ficasse um pouco tonta. Tonta eu fiquei, mas bem mais tarde. A primeira reação, alguns segundos após a injeção, foi que eu tinha dificuldade de respirar e entrei em pânico.

Bom, encurtando a história. Eles me levaram para o hospital mais próximo onde eu esperei atendimento por mais de 3 horas.

Tiraram vários raio X, do joelho, do braço, me enfaixaram toda, mas não quebrei nada. Ainda bem.

O que aconteceu comigo? Eu tropecei e caí. Eu nem sabia que um tombo no asfalto podia causar tanto estrago. Estou toda estourada, cheia de hematomas, mancando e com o braço direito imobilizado.

Coitado do Carsten, chegou no hospital todo preocupado, e teve que me ajudar a noite inteira. Precisei de ajuda até pra ir ao banheiro. Muito humilhante.

Hoje estou em casa de licença médica e espero me recuperar nesse final de semana, porque tenho uma viagem marcada na segunda – e eu vou de qualquer jeito, nem que seja toda engessada.

Esse tombo levou todos os meus planos por água abaixo, já que não posso movimentar meu braço.
Eu ia lavar roupa, ia consertar uma jaqueta que eu queria trazer na viagem, ia fazer a minha mala… O jeito agora é esperar e ver se eu melhoro até domingo, ou então pedir pro meu babysitter, Carsten, para fazer a mala pra mim. Ô vida.

***

A mensagem acima eu postei faz umas horas. E eu estava tão contente. Mas cinco minutos atrás me telefonaram do hospital, dizendo que um outro médico olhou as minhas chapas e que eu fraturei o antebraço na altura do cotovelo. Disse também que eu tive sorte, e que não vai ser preciso operar nem ingessar, mas que eu tenho que manter o braço imóvel e que as dores podem durar por até 3 meses.

Hmm, pelo visto terei que preparar táticas de como tomar banho sozinha e de como carregar minha bagagem durante a viagem!

 

Decepção

Passei os últimos 11 anos pagando por um seguro saúde privado. Não é exatamente como no Brasil, as Unimeds da vida, mas uma opção para quem não quer esperar tanto por um tratamento pelo sistema público de saúde dinamarquês.

São poucas as clínicas particulares no país e por isso são só alguns tratamentos que cirurgias que estão cobertas pelo seguro. Mas eu sempre pensei que era melhor ter essa opção, caso um dia fosse preciso.

E esse dia chegou, infelizmente, e para minha surpresa e frustração, exatamente o tipo de tratamento que eu preciso, não é coberto pelo seguro.

Acho engraçado, eles cobrem até cirurgia do dedão do pé, mas não cobrem algo sério e potencialmente grave como endometriose ectópica.

O fato é que eles cobrem até três visitas a um especialista e os testes, mas só. Se eu precisar de tratamento ou cirurgia, então terei que procurar outro profissional de saúde pelo sistema público.

Até agora não acredito nisso… a gente paga um negócio e acha que estaremos protegidos, mas na hora H, a história é outra.

Tive então que procurar um especialista do sistema. Por sorte ele poderá me ver já na terça-feira e aí saberei em mais detalhe o que acontece comigo.

Estou com medo de descobrir que talvez a coisa não seja boa. Estou com medo de que a solução para meu problema seja entrar na faca, ou então de saber que a coisa se alastrou tanto que não tem o que fazer. Muitas coisas passam pela minha cabeça.

O único lado positivo é que fui receitada um cocktail analgésico bem potente para me ajudar a aguentar a dor.

ô vida.

Recusa

Eu contei recentemente que saí da empresa onde trabalhava para tentar uma vida nova numa outra companhia.

Na antiga firma eu trabalhei em dois departamentos diferentes. No primeiro eu adorava o trabalho em si, porém passei por poucas e boas. Situações que eu não desejo nem para o meu pior inimigo. A minha salvação foi que bem no auge dos conflitos, quando a coisa realmente estava pegando fogo, me ofereceram um job swop.

Job swop é quando dois empregados (de departamentos diferentes) trocam temporariamente de emprego. Essa tática permite aos funcionários aprenderem algo novo, expandir a rede de contatos e depois voltar para o seu departamento antigo.

Então comecei no departamento novo, trabalhando com um pessoal bacana, mas o fato de saber que dentro de 12 meses eu teria que voltar para o dept. antigo, fez com que eu me mexesse para achar um emprego novo. E vocês sabem como essa história terminou.

O que vocês não sabem, é que antes d’eu sair, aconteceram umas coisas interessantes.

– A minha gerente (do lugar do job swop) me ofereceu uma posição. Ela só não tinha confirmado ainda, se seria uma posição temporária ou uma posição evetiva no time. Eu respondi que se ela me oferecesse o contrato, que eu aceitaria.

– Enquanto isso, um terceiro departamento, para o qual eu tinha prestado alguns serviços, me contactaram dizendo que eles tinham uma vaga de Senior e que eu deveria dar uma olhada e mandar meu CV. Eu já tinha visto o anúncio, mas não tinha me interessado pois achava eu que não teria nenhuma chance.
Eles queriam uma pessoa com 5 anos de experiência. Eu só tinha 4 anos de experiência, mas somente 7 meses de experiência nas atividades pelas quais eu seria responsável. No entanto, se eles me chamassem, provavelmente eu aceitaria a vaga, pois era uma boa oportunidade. A questão seria, quem me chamaria primeiro. Pois se eu recebesse as duas ofertas ao mesmo tempo, confesso que ficaria na dúvida de qual escolher.

Mas quase um mês se passou e eu não recebi resposta do terceiro departamento. E como normalmente o processo de seleção é híper rápido, acabei pensando que eles não tivessem achado meu currículo interessante o suficiente.

E foi nesse entremeio que eu achei o meu emprego atual (que começará em março), e onde o processo de seleção foi tão rápido, que eu já estava empregada com contrato assinado na mão dentro de 18 dias após ter enviado o meu currículo.

Meu último dia na empresa antiga foi na sexta passada, dia 13, e ontem, segunda dia 16, para minha surpresa, recebi um email me convidando para uma entrevista de emprego naquele departamento da vaga Senior.
Fiquei boquiaberta, pois eles sabem que eu aceitei outra vaga e saí da empresa. E eu jamais trocaria o que tenho agora, pois o meu emprego atual é bem melhor que uma vaga Senior. Mas também porque eu estou curiosa para saber como é trabalhar numa empresa diferente, com uma cultura diferente. Desde que eu cheguei na DK eu trabalho para a mesma sociedade.

Eu nunca pensei que isso aconteceria na minha vida, que um dia eu recusaria um convite para uma entrevista de emprego. E um emprego que eu tinha muita chance de conseguir, pois o povo todo de lá me conhece e já trabalharam comigo.

Tudo isso abriu minha mente. Antigamente eu pensava que, por ser estrangeira, com estudos feitos fora da União Européia, eu teria dificuldade de encontrar emprego – pois isso acontece com muitos. Mas o fato de eu sair da empresa e deixar para trás 3 propostas de emprego praticamente (voltar para dept. antigo, ficar no departamento novo, trocar para o terceiro departamento na vaga Senior) aumentou a minha auto-estima. Acho que o que eu preciso é acreditar mais em mim e não deixar me influenciar pessoalmente pelas intrigas de colegas mesquinhos.

Esse é o meu problema – eu recebo as pessoas de braços abertos e não meço esforços para ajudar um amigo. No entanto fico furiosa quando percebo que alguns abusam da minha boa vontade e da minha confiança, e o sangue latino ferve rápido. Porém, baseado nas minhas experiências aqui, o sangue latino perde de feio quando confrontando o sangue frio nórdico.

Solidariedade

Um dos maiores choques culturais que se enfrenta na Dinamarca, para quem vem do Brasil, é que aqui não existe solidariedade.

Certa vez, dirigindo para casa, me senti muito mal e tive que sair da estrada e parar o carro no meio do campo, numa plantação de batatas. Só deu tempo de abrir a porta do carro e ali eu regurgitei até as tripas.

Vários carros passaram por mim, nenhum parou para ver se tinha acontecido alguma coisa. (Meu carro parado no canteiro da estrada no meio das batatas, não é de estranhar?)

Ainda me sentindo muito mal, eu continuei sentada no carro com a porta aberta ao lado da poça de vômito, esperando que eu melhorasse um pouco para poder continuar dirigindo os 20 km restantes até em casa. Nesse momento passou uma mulher bem ao meu lado, fazendo jogging. Ela não me perguntou se eu estava precisando de alguma coisa, se eu estava me sentindo bem. Ela não me olhou. Ela simplesmente me ignorou e continuou seus exercícios.

Nesses 11 anos que estou aqui, passei por outras situações semelhantes, onde eu me senti mal, mas ninguém me ajudou.

Essa é a dura realidade da Dinamarca. E pelo visto da Escandinávia, baseado pelo vídeo que está rodando a net e os canais de tv nessa semana.

Foi no domingo passado. Um homem embriagado caiu nos trilhos do metrô de Estocolmo, na Suécia. Nesse momento havia somente uma outra pessoa na estação, que testemunhou o acidente. Essa testemunha, também um homem, desceu nos trilhos, roubou o acidentado e o deixou ali para ser atropelado pelo trem.

Por um puro milagre o acidentado sobreviveu. Teve ferimentos muito graves e o pé precisou se amputado, mas sobreviveu.

Na quarta-feira a polícia sueca liberou o vídeo para os canais de TV para tentar identificar o malfeitor.

Eu fiquei indignada. Como tem gente ruim nesse mundo. Não pude deixar de comparar esse acidente na Suécia com um que aconteceu em Madrid há dois-três anos atrás. Mas lá a história foi bem diferente. Solidariedade é a palavra-chave.

 

Suporte

Chego no trabalho hoje, ligo o computador e descubro que eu não estou mais lá. Eu explico. Normalmemente abro o acesso da rede e vejo vários drives: o C:, o H:, e o N:, que é o meu, só meu. Todo usuário tem um drive próprio para guardar aquela bagulhada que a gente não quer que ninguém mais veja. Sei, é coisa de neurótico, talvez por isso escolheram dar o nome de N: para o drive.

Mas eis que o meu N: sumiu, desapareceu, e com eles todos os documentos que eu queria usar hoje de manhã.

Antes de ligar para o povo do suporte técnico, achei melhor reiniciar o computador, já que a pergunta de praxe deles é: já tentou reiniciar o computador?

Reiniciei e nada. Todos os outros drives funcionando normalmente, mas o meu N: continuava fora do ar.

Pergunto para o colega qual é mesmo o número do suporte? É 26000. Ligo e escuto aquela mensagem chata… bem-vindo ao o suporte, tecle 1 para isso, tecle 2 para aquilo. Somente depois de meia hora de mensagem é que diz: vc ligou fora do horário de atendimento que vai das 8:30 às 16 horas. Isso eram 8:25.

Espero mais uns minutinhos e 8:38 ligo e a moça atendeu direto na primeira batida. Achei até estranho não ter aquela mensagem eletrônica novamente.

Ela pede meu nome de usuário e pergunta qual o problema. Tudo isso falando em inglês. Então ela diz, vejo que seu nome é português, eu sou portuguesa. Se quiser falar português, fique à vontade. Como meu português anda enferrujado, resolvi praticar um pouco. Expliquei o problema do jeito que deu e ela disse: Vejo aqui que o seu nome de usuário está obsoleto. Vou verificar a origem do problema e lhe telefono em 10 minutos. Confirmei o nome dela antes de desligar; Mônica.

E esse foi o início de um verdadeiro dia de cão. Foi uma correria só e cada vez que chegava um e-mail, era uma bomba que desabava nas nossas cabeças. Somente depois do almoço é que tive uns minutinhos para lembrar que a Mônica não tinha telefonado. Lá fui eu ligar 26000 para saber o que tinha acontecido. Lá vem aquela mensagem eletrônica. Hmm, estranho.

Atendeu um cidadão, eu expliquei bem rápido que já tinha telefonado de manhã porque meu N: sumiu, e que a moça Mônica ficou de telefonar, mas até agora nada. O que faço? Aguardo até amanhã ou vc pode me ajudar? Ele pergunta o nome do usuário e então solta mais uma bomba: Para começo de conversa eu não estou vendo nenhum número de protocolo ligado à esse nome de usuário, segundo, não tem ninguém aqui com o nome de Mônica.

Fiquei muda por alguns instantes. Me senti como se tivesse caído num daqueles golpes telefônicos.

Então sou obrigada a recomeçar minha explicação de que o piloto sumiu, digo, o N:. O cara entra no meu computador por controle remoto, vai no N: e tudo está lá, com nome diferente, mas está tudo lá. Muito estranho e me senti como uma verdadeira idiota, pois estava crente que o N: ainda estava desaparecido.

Depois que desliguei resolvi checar que número eu tinha discado às 8:38 da manhã, porque eu estou certa de que conversei com alguém que estava me entendendo, que verificou o nome de usuário e tudo mais. Ainda não estou louca!

Descobri que eu tinha discado 62000 ao invés de 26000. Sabe que número é 62000? O número do suporte técnico do meu antigo trabalho! É óbvio que o meu nome de usuário está obsoleto, eu não trabalho lá faz mais de 1 ano e meio!

Ri muito, mas muito mesmo, e fiquei pensando se eu deveria telefonar para a tal de Mônica, mas achei melhor não. Os portugas já acham que nós brasileiros somos burros. Depois de uma dessas, ela não terá mais dúvidas!

Pirataria

Ainda não decidi se coloco esse post em “Coisas da Dinamarca” ou em “Desabafos”. Estive indignada, cheguei a passar raiva, mas essa semana me decidi em usar essa experiência para algo positivo.

Ano passado mudou-se para a rua um novo vizinho. Logo após a mudança ele colocou as asinhas de fora. Asinhas? Não. Bandeirinha.

Diz a lei dinamarquesa que se você tem um mastro em casa, a única bandeira que pode ser hasteada é a bandeira dinamarquesa.

Eis que a primeira coisa que o vizinho colocou foi uma bandeira de pirata.

Eu sei que é coisa de criança, mas por estar fora da lei, me deixou com raiva. Se fosse eu hasteando uma bandeira brasileira, aposto que no dia seguinte teria polícia na minha porta.

Pensei: vou comprar um canhão e fazer um rombo bem no centro daquela bandeira. Afinal, os piratas levavam chumbo.

Dito e feito. Eu não precisei comprar canhão, pois o vento da região se incumbiu de danificar a bandeira. A destruição começou aos poucos, mas assim que o primeiro estrago foi feito, em poucas semanas a bandeira toda tinha sido rasgada fora.

E durante o inverno todo eu pude respirar aliviada sem ter que olhar pela janela da cozinha e dar de cara com a bandeira inimiga.

Por outro lado, senti falta de saber a orientação do vento. Só de olhar a infeliz da bandeira eu já sabia se o vento vinha do leste ou do oeste, e acredite, isso é muito importante aqui!

Se venta do leste – durante o inverno fica bem frio, mas com sol. Durante o verão fica bem quente e com sol.

No entanto se venta do oeste, então é chuva, chuva, chuva e mais chuva. Sabe o que está do lado oeste? Londres, uma cidade famosa por ter chuva constantemente.

Então chega o mês de abril e não acredito no que vejo. Pensei até que fosse uma piadinha de primeiro de abril. O cara comprou uma nova bandeira de pirata!

Fora da lei uma vez, é uma coisa. Fora da lei duas vezes, fez o meu sangue ferver.

Pela minha cabeça rolaram várias tramas:
Devo eu reavivar a idéia do canhão?
Devo eu imprimir uma cópia da lei dinamarquesa e colocar na caixa de correio deles? (Se bem que ouvi dizer que os matros já acompanham instruções que mencionam a lei de exclusividade de bandeira.)
Devo eu enviar uma denúncia anônima para a polícia? (Como se a polícia fosse mesmo se mobilizar por causa de uma bandeira de pirata.)

Como nenhuma das opções acima parece palpável, resolvi tornar essa experiência desagradável em algo proveitoso. Agora uso a infeliz da bandeira para saber de onde o vento vem.

Por exemplo, final de semana passado o vento vinha de Londres. Estava frio e chuva. Não é à toa que eu arrumei tempo para achar foto de James e escrever no blog.

Foi só a segunda-feira chegar, quando se tem que trabalhar, que o vento mudou de direção e pela primeira vez no ano a temperatura foi a 21 graus. Parece pouco, mas 21 aqui dá a sensação de 28 graus.

Com uma temperatura agradável dessas dá até gosto olhar para aquela bandeira voando para o lado certo.

Em compensação, segundo a previsão do tempo, esse calorzinho só vai durar até quinta. Na sexta, quando será feriado e finalmente terei tempo para aproveitar o bom tempo, o vento vai virar e a previsão é de frio e tempo parcialmente nublado. Eu mereço!!!

E agora, escrevo Desabafos ou Coisas da Dinamarca?