Convalescença

Convalescença, essa é uma palavra que não escuto há anos, mas que descreve tão bem esse período no qual me encontro.

Foi hoje de manhã, enquanto eu praticava francês com um correspondente, que eu escutei a palavra: convalescence (tem que falar fazendo biquinho, senão não funciona!).

Eu estava com medo da cirurgia, mas o desafio maior é o pós-operatório. Parece que cada dia aparece uma coisa diferente que a gente tem que superar.

No primeiro dia o cansaço e as dores são as piores.
No meu caso também causava um desconforto o fato de sentir vontade constante de urinar, mesmo eu estando com catéter.

Em seguida a gente tem que lidar com o povo que começa a mandar mensagem, telefonar e quer visitar. Tudo isso é exaustivo.

Então vem a fome e o fato de que tudo que se coloca na boca dá náusea. Até mesmo cheiro de comida e de flores causa ânsia de vômito.

Era para eu ter ido embora para casa no primeiro dia, mas por causa de uma pequena hemorragia, me mantiveram sob supervisão. E também pelo fato de que eu tinha tantas dores que não consegui ficar de pé no primeiro dia. O ideal seria começar a caminhar algumas horas após a operação.  

Quando finalmente todo mundo foi embora, 10 da noite, pois na DK eles não deixam a família dormir no quarto como normalmente se faz no Brasil, eu achei que iria poder descansar, mas não. Meu sono foi interrompido várias vezes pela enfermeira que veio medir minha pressão no meio da noite.

Eu tive muita sorte que no meu quarto o outro leito estava vazio e eu fiquei sozinha. Sabe, hospital público a gente não tem direito a quarto privativo.

Mas a alegria durou pouco. 6:30 da manhã chega a minha colega de quarto, ela, com neném rescém nascido e a família toda. Ô meu pai, dái-me paciência! Eles não calavam a boca, e eu muito cansada, só queria dormir.

7:15 levaram ela para a sala de operação. Pensei comigo mesmo, talvez só tragam essa mulher de volta 5 da tarde.

Finalmente, silêncio, achei que ia poder dormir um pouco, mas veio o médico me explicar como foi a cirurgia e como seria daqui pra frente. Disse que foram 3 horas de cirurgia e que tiraram parte de 3 órgãos, mas aquilo que eles tinham combinado comigo de fazer, isso eles não fizeram porque ficaram com medo que fosse me dar uma infecção generalizada.
O lado bom dessa notícia é que eu não precisaria passar 10 dias em casa com catéter.
O lado ruim, é que vou ter que continuar tomando hormônio para controlar os pedaços de endometriose que eles não retiraram. Ô vida.
E logo depois dessa notícia, ele me dá a bomba, de que só iriam me dar 1 semana de licença do trabalho. Que eles achavam que eu tinha que voltar à vida normal o mais rápido possível, que ficar deitada em casa aumenta as chances de complicações.

Caramba. Uma semana de repouso só, depois de cirurgia no abdômen? Tem gente que recebe 2 ou 3 semanas por muito menos que isso!!! Sem comentários. Indignação é a palavra que descreve meus sentimentos.  

Depois ele mandou tirar o meu catéter e controlar se minha urina ainda tinha sangue. Disse que eu poderia ir para casa quando estivesse pronta.

O problema é que esse “pronta” quer dizer quando os movimentos peristálticos estiverem sido restabelecidos. Essa é a bosta de ir para hospital numa língua estrangeira. A gente não entende metade do que eles falam, pois aqui se fala muito nas entrelinhas, e estrangeiro tem dificuldade de entender esse tipo de coisa.
A enfermeira vivia dizendo que eu mesmo controlaria, decidiria, quanto tempo passar no hospital. Tenho certeza de que isso é outra mensagem entrelinhas que eu não entendi, afinal custa uma fortuna por noite por leito de hospital e eles estão cortando gastos. Bom…

Fizemos mais uma tentativa para eu me levantar da cama, e foi tudo bem. Comecei então a caminhar de pouquinho em pouquinho.

Enquanto estou eu lá, recém levantada, trazem a mulher da cama do lado de volta. Não eram nem 11 da manhã ainda. A cirurgia dela foi híper rápida.
Eu estava muito cansada e só queria me deitar novamente, mas não tinha paciência para todo o barulho que aquela família fazia.
Mas Deus é pai. Ela foi liberada ao meio dia, e meia hora mais tarde eles estavam deixando o hospital e eu pude finalmente descansar.

E mais um dia se passou, com mais visitas, mais mensagens, mais enjôos e vômitos – pois me deram morfina ao invés de codeína, e a tia Cris não tolera a primeira muito bem.

Eu acabei dormindo mais uma noite no hospital, por causa da greve do intestino.

No meu último dia no hospital acordei com dores horríveis tanto no abdômen quanto nos ombros. Depois de uma laparoscopia, acumulam-se gases no corpo, e se o intestino não estiver funcionando, a pressão gerada é um troço fenomenal e chega até a área dos ombros e pescoço. Eu mal conseguia ficar ereta, tamanha era a dor. Estava de mau humor, pedindo para eles me darem algum remédio que fizesse o intestino pegar no tranco, mas a coitada da enfermeira dizendo que a única coisa a fazer era caminhar e beber muito líquido. E ela vinha atrás de mim o tempo todo, dizendo para eu caminhar e perguntando se eu já estava conseguindo liberar os gases, e eu estava com vontade de esgoelar aquela garota.

Uns poucos minutos mais tarde veio o primeiro pum. Em português bem claro: eu nunca antes tinha ficado tão contente em soltar um peidinho. Foi alívio imediato. A dor nos ombros passou, a dor no ventre passou, e eu estava até sorrindo.
Fui para o corredor e a enfermeira disse: você está sorrindo. Conseguiu peidar, não foi? E eu disse sim, posso ir para casa agora?

Enquanto aguardava Carsten ir me buscar, eu ia tomar um banho antes de ir embora, mas não tinha água quente no chuveiro do meu quarto.

Suja de álcool iodado, descabelada e cansada, vim para casa. Aqui a luta continua, mas estou me recuperando bem. Ou pelo menos eu acho que estou me recuperando bem.
Veremos daqui a uns dias. 🙂

9 thoughts on “Convalescença

  1. Toda essa encrenca, dor, insonia por causa de um pum (se fosse eu teria metralhado o quarto com cheiro de presunto fresco (imagine a situação, a enfermeira entra no quarto e sente aquele cheiro e fala: Que cheiro gostoso de presunto defumado e eu respondo: Gostou? é o meu peido) hehehehe

  2. pq vc não perfumou o quarto com as bufas sonoras e cheirosas, a familia da paciente iam correr rapidinho, hehehe, imagine entrar no quarto e sentir aquele cheiro de frango assado, hahahaha

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